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Formigas que pensam

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Eles estavam lá. Lado a lado, eram mais de trinta.

Altos e imponentes, eucaliptos tem características próprias; os adultos, como esses que estavam à minha frente, tinham troncos altos e lisos. Só lá em cima, galhos e folhas. Pareciam um muro, uma cerca, de quarenta metros de altura demarcando limites, foi o pensamento que me ocorreu.

Foi quando começou a ventar. Vento e eucaliptos tem tudo a ver, apesar de não precisarem um do outro. Os galhos começam a se mover e fazer um som todo especial.

Fiquei observando.

Enquanto essa “dança” acontecia, percebi que não era uma ação de domingo, dia de descanso para contemplação. Dias da semana, horários, são coisas dessa gente pequena, como nós. Eles, os que vivem vendo no alto, devem ter conosco a mesma relação que temos com as formigas.

Eles estão acima disso, não precisam de nada, só da chuva vez por outra e do vento, para cantar e dançar. De vez em quando, o tronco se libera da roupa velha e eles ficam lisos e nus, para recomeçar. Ano a ano, décadas, sem pressa. Tudo vai acontecendo no instante, sem horário, sem nada que precise ser controlado, esperado ou necessário. Nós, humanos, somos seres que se pressupõem livres. Essa liberdade nos faz agir na natureza como se ela fosse nossa, que estivéssemos acima dela.

Dias, noites, calor, frio, vida e morte. Isso existe só para nós e só pode ser por não entendermos. Deve ser por isso que queremos controlar tudo; o medo que a ignorância traz.

O movimento era lento e os pássaros que também passam rapidamente pela vida, característica de corações acelerados, estavam mais preocupados em cantar seus solos e cada um vivia por si e dava certo no conjunto. Orquestra de estranhos, sem ensaio. Nada tinha a ver o vento com a árvore e os pássaros, tudo age por si, pois essa é a natureza de cada coisa.  Tudo ali estava certo e uma sensação de harmonia era possível, porque ela não era necessária. Quando precisamos de alguma coisa, a tensão e a falta de naturalidade são invitáveis.

Há quem diga que tudo ocorre por necessidade, mas se essa necessidade for natural o nome está errado. Para nós, aqui em baixo, a necessidade é uma espécie de urgência e toda urgência precisa ganhar espaço e prioridade. É quando somos mais importantes que tudo.

Pensei em contar aos eucaliptos sobre alguns pensamentos, coisas que poderiam ser diferentes do que são. Lá estava eu, de novo, querendo que tudo fosse do jeito que eu achava certo. Os eucaliptos talvez não rissem, já que devem saber como somos, mas ficariam impassíveis para que me desse conta que tudo isso é grande demais para ser entendido, ou que não há nada para ser entendido, tudo é como é e pronto. Tanto faz!

Tudo ficou pequeno naquele momento; minhas preocupações, a maldade, a bondade, as grandes e más ações, os crimes, a angústia de não saber isso ou aquilo, o futuro… Não estava acontecendo nada, só o vento de sempre, balançando os galhos, como sempre. Talvez o que não fosse o de sempre foi perceber que não há nada para ser mudado, descoberto ou decifrado.

Eu sei que os eucaliptos não pensam, não ambicionam ou desejam. Estão abaixo na hierarquia desse mundo. Talvez seja por isso que o resultado deles é melhor, assim como o dos pássaros, das formigas e de todo o resto. Somos muito melhores, mais capazes e criativos, mas isso não tem nos ajudado a vivermos melhor. Estamos destruindo a nós e ao mundo. Precisamos atender nossa necessidade, afinal.

Quando eu não estiver mais, seja do jeito que for, o vento vai passar por lá, naturalmente, movendo essas grandes árvores esguias fazendo esse barulho gostoso e poderá ter alguém como eu, esteja lá perdendo tempo pensando em vez de só ver, só ver.

Tela vazia

Estava lendo Foucault e deu vontade de escrever.

Parado diante da tela, lembrei de um filme sobre Pelé que vi quando tinha 12 ou 13 anos.  Uma hora e meia de gols e jogadas geniais. Sai do cinema com muita vontade de jogar bola. Não lembro se joguei, mas mesmo que isso tenha acontecido, o resultado não foi tão bom que valesse a pena lembrar. Era jogador e plateia ao mesmo tempo e o esquecimento foi o veredito.

Mais tarde, já na fase adulta, vi um show de João Bosco. Ele levou apenas seu violão, parecia que aquele instrumento era uma extensão natural do corpo. Plateia hipnotizada pelo talento. Acontece sempre que vemos alguém viver sua vocação. Deu uma vontade louca de aprender a tocar. Depois de muitas aulas, sofrimento dos dedos que não foram feitos para acariciar cordas, ficou um violão para lá e para cá dentro de casa, sem cumprir sua função. Começou encostado na parede, esperando que a força de vontade vencesse a realidade. Tempos depois, foi parar em cima de um armário. Ficou anos dentro de uma capa como os gênios nas lamparinas nas histórias das mil e uma noites. Pelé e João Bosco mostraram que a natureza, como diziam os antigos gregos, não distribui dons com justiça.

Quando uma criança compra a chuteira do Neymar, sonha em jogar como ele e isso vale para o corte de cabelo da atriz ou da marca de roupa que a modelo mostra no outdoor. Aristóteles e seus seguidores diziam que a vida só vale a pena ser vivida se buscarmos melhorar os dons que trouxemos ao nascer. Mesmo com dons menos favorecidos deveríamos melhorá-los o máximo possível. Fazer o que viemos fazer, daria sentido a nossa vida e tornaria o mundo melhor, afinal, seríamos felizes e realizados dentro do possível. Enquanto não descobrimos o nosso, vamos vivendo vocações dos mais afortunados, buscando sem perceber no que somos realmente bons.

Enquanto o cursor pisca na minha frente não sei sobre o que escrever. Fico pensando se o próprio Foucault, Saramago, Érico Veríssimo e outros como eles também travavam diante da folha em branco. Se uns ganham mais facilidades que outros, com os sonhos isso não acontece. Sonhamos sem parar sobre tudo e um mundo diferente, que nos faria felizes por ser de outro jeito, é o mais comum a todos. Mas, se tem gente feliz sendo o mundo como é, o problema talvez não seja o mundo, mas não se sentir parte dele, fazendo alguma diferença.

O mundo no qual crescemos nos diz o que devemos fazer para ajudar a funcionar pelo bem de todos e é aí que nos perdemos dos gregos, para quem é a vida de cada um que conta. Do jeito que é não tem muito a ver com o fato de gostarmos disso ou não. Precisamos fazer dinheiro para financiar sonhos alternativos que substituem a alegria verdadeira. Deve ser por isso que altos salários e fortunas não são garantia de alegria por uma realização.

Por outro lado, nem todo talento que a natureza deu exageradamente para alguém é uma garantia de felicidade, Van Gogh que o diga. Quantos talentos se perdem em situações de famílias desestruturadas, de falta de condições mínimas? Temos “Neymares” que ficarão a vida no anonimato, por terem que ajudar em casa ao invés de terem a oportunidade de melhorar seus dons. Jogadores de fim de semana, que viverão sua alegria sem reconhecimento ou remuneração. Tudo para ser famoso no bairro e contar os feitos no bar, aos domingos à tarde.

Sonhamos o passado para tentar reescrever nossa história, buscando entender erros de forma que nos inocente um pouco e imaginamos o futuro para poder esperar que tudo dê certo no final. Sonhos que só existem por estarmos um tanto desconfortáveis com a falta de sentido, diria o velho Aristóteles.

Talvez se insistisse com o futebol e o violão?

O mundo valoriza os esforçados, maneira de tentar compensar a falta de dons exuberantes e de não nos deixar perder a esperança. Cafu e Dunga ergueram copas do mundo, assim como Pelé, Zidane e Maradona. Quem sabe ser coadjuvante não consegue atenuar a incapacidade para o protagonismo? Lembro sempre disso quando vejo um coral, a soma torna todos melhores do que individualmente, roupas iguais para ser um só; o todo é maior que a soma das partes, e assim a força de vontade vence a matemática.

Agora percebo porque falo disso, era o que Foucault estava dizendo; somos aprisionados de certa forma nesse jeito de pensar. Ao comparar escolas com presídios ele não deixa dúvidas e escancara sua ideia de forma inquestionável.

 Já não sei se a vontade era escrever sobre isso ou se foi como ele escreveu que me fez lembrar a emoção que Pelé e João Bosco produziram; que havia encontrado o que a natureza esperava de mim.

Como o cursor ainda pisca na tela branca, o melhor é continuar procurando.

A sabedoria de Zeus

Era uma vez, centenas e centenas de milhares de anos atrás…

– Preciso falar com o Senhor.

Zeus já era Deus antes dos outros deuses que conhecemos. Já nessa época, onde parece que só existia a Grécia, ele já era antigo. Sendo antigo, sabia que a paciência era o que separava os humanos dos semideuses e esses dos deuses, onde ele reinava absoluto.

Uma das duas outras qualidades como administrador do Olimpo, era justamente colocar as pessoas certas no lugar certo, exemplo que se segue por eras desde então. Alguns aprenderam essa lição, como Tite e outros não, como nossos últimos presidentes. A outra é saber lidar com as vaidades, condição para gerir tanta gente importante, seja por ser ou se achar.

 Hermes é seu ajudante de ordens, uma espécie de “faz tudo”. Adotado posteriormente como padroeiro dos embusteiros, seria hoje facilmente chamado de lobista. Hermes era bom de conchavos e fazia alguns acertos políticos quando as coisas pareciam perder-se por falta de bom senso. Zeus sabia que, quando Hermes estava com essa cara, o problema seja qual for, não tinha sido resolvido nas instâncias inferiores.

– Entra Hermes, pelo visto aconteceu alguma coisa…

– Na verdade sim Zeus. Temos um problema inesperado e um tanto estranho.

– Querido Hermes, os problemas normalmente são inesperados e estranhos. Mas me diga, o que ainda falta acontecer por aqui?

-Na verdade não é aqui, no Olimpo.

– É em Gaia então? Quando pedi para Prometeu criar os seres humanos, ele devia estar com a cabeça em outro lugar. O que foi que eles fizeram dessa vez?

– Também não é em Gaia.

Zeus olhou fixo para Hermes como não fazia a muito tempo. A última vez tinha sido quando Persófane fora raptada por Hades e Demeter secou todas as plantações de planeta.

 Mostrando agora impaciência, Zeus ficou com olhar parado, esperando que Hermes contasse.

– Na verdade Zeus, o problema é no céu.

– No céu? Como assim? No céu só tem as estrelas, o Sol e a Lua. Explica logo!

Hermes precisava escolher as palavras, afinal deixar Zeus irritado nunca é bom, ainda mais quando ele pensa que o erro é por falta de atenção.

-Bom Zeus, com as estrelas está tudo bem. São milhões delas e tudo vai indo sem problemas.

Zeus agora ficou com o cenho mais franzido como se não estivesse entendendo.

Hermes pigarreou com medo de gaguejar, o que seria fatal.

– Na verdade, temos um problema com a Lua e o Sol.

-Como assim Hermes? Como pode ter problema?  Um fica de dia e outro à noite, fiz isso com perfeição, aliás como tudo que faço!

– Claro Zeus, o senhor fez tudo perfeito!

– Então Hermes, conta logo!

– Na verdade eles pediram permissão para namorar, senhor.

– Como assim namorar? Eles têm uma função a cumprir, pelo menos por alguns milhões de anos! Dei  ao Sol a luz e o calor e a Lua o poder sobre a agricultura, as marés e tantas outras coisas. Não tem nem como terem um relacionamento, isso seria um desastre e tiraria tudo da ordem.  Me explica Hermes!

– Pois é Zeus, eles estão se olhando há milhares de anos, criou um clima. Me entende?

– Clima? Como assim?

– Eles ficam se olhando, a Lua vê o Sol todos os dias e quando é ela  que vai trabalhar, ele fica olhando também e, sei lá, eles devem ficar imaginando como seria.

Zeus agora, estava realmente bravo!

– Como seria o que?

– Se ficassem juntos, assim como um casal, entende? Essa coisa de só ficar olhando, decerto um fica imaginando o outro perfeito. Quem não tem tempo de ficar junto para saber a verdade, só imagina.  Também achava que Afrodite era perfeita por ser tão linda. Eu acho que é isso.

– Você “acha” Hermes?

Lá no Olimpo foi um grito, aqui embaixo ouviu-se um trovão.

– Calma Zeus, eu vim aqui porque não encontrei uma saída. O Senhor sabe que normalmente resolvo essas coisas, mas dessa vez fiquei sem saber o que fazer. É que a Lua já está apaixonada e como não pode ficar com o Sol, está já há quinze dias na minguante. Com isso as plantações em Gaia correm risco. Se ela não melhorar para vir a crescente e a cheia podemos ter muitos muito problemas.

– Mas você falou com ela Hermes?

– Falei e ela disse que sem o Sol não vive. Só chora.

– E o Sol, disse o que Hermes?

– O Sol também está abatido, mas sabe como são os masculinos. Ele trabalha normal, afinal uma coisa não tem a ver com outra.

– Menos mal, suspirou Zeus. Menos mal.

– Mas e a Lua? O que o senhor sugere?

 Zeus coçou a cabeça. Tinha pensado em um universo ordenado, que funcionasse em perfeita harmonia. Depois, mudou de ideia, afinal para que serviriam aquele monte de deuses? Ócio nunca é bom, seja onde for.

Depois de um tempo, abriu um sorriso. Quando viu Zeus sorrir Hermes sentiu um alívio. Já sabia que iria ouvir de novo de que ninguém servia para nada, que quando um problema estourava era só ele mesmo que resolvia.

– Sabe Hermes, não canso de gostar cada vez mais de mim. Tenho um monte de deuses, centenas de semideuses que não servem para nada. Quando alguma coisa acontece, que saia um pouco do dia a dia, ninguém dá conta.

Hermes sussurrou:

-Claro!  É por isso que o senhor é o chefe!

-Não ouvi, o que você disse Hermes?

-Nada Zeus, nada. Qual é a sua ideia?

Fazendo o charme habitual, quase teatral de quem vai mostrar toda sua sabedoria, Zeus ficou olhando para a imensidão do espaço da janela do seu escritório. Começou a falar lentamente, como que saboreando suas próprias palavras:

– Sabe Hermes, não sou quem sou por acaso. Pense comigo; seja aqui no Olimpo como em Gaia, já reparou o que tem em comum os casais que se separam?

Quando Hermes ia abrir a boca, Zeus ergueu o dedo indicador, isso quer significar que ele não quer ser interrompido.

– Eles deixam de se gostar Hermes. Mas isso até um humano sabe, você poderá pensar. Mas o que eu, Zeus, já percebi é que é o fato de estarem juntos com frequência que acaba com o amor.

Hermes estava entendendo, mas quando Zeus estava em momento criativo, era mesmo um espetáculo. Nem imaginou em interrompê-lo.

– Então Hermes querido, anote o decreto de Zeus!

Hermes imediatamente se preparou para anotar. Zeus impostou a voz e decretou:

– Anuncie que, devido a minha bondade infinita, maior que todo universo, autorizo Sol e Lua de manterem um relacionamento.

Hermes estava chocado! Não teve forças nem para balbuciar. Zeus tinha enlouquecido?

Zeus parecia que lia o pensamento de Hermes, sorrindo com o canto da boca. Continuou a falar:

– Porém, como na minha sabedoria, sei que a harmonia e o amor entre o Sol e a Lua são fundamentais para que Gaia prospere, mesmo no futuro quando se chamar Terra, eu os autorizo a se verem em ocasiões especiais, as quais chamarei de eclipse! Ocorrerão de tempos em tempos que serão devidamente marcados por Cronos, ministro celestial do tempo. Cumpra-se!

Zeus, se aproxima de Hermes e sussurra em seu ouvido:

– É assim que os manterei apaixonados para toda eternidade Hermes. Será sempre namoro, sempre namoro.

Os mundos

De longe, dava somente para ver os olhos grandes e arregalados. Um bico azul escondia a boca e fazia uma boa combinação com as bochechas rosadas. Eu estava do outro lado da rua, esperando a boa vontade de alguém parar e deixar que atravessasse na faixa de segurança.

Ele estava na parada de ônibus, no colo da sua mãe. Ela o sacudia e isso o deixava desconfortável. Queria ver o mundo, mas como fazê-lo subindo e descendo sem parar? Dava para notar que a jovem mãe não estava ali. Estava no mundo dela, pensando no trabalho, nas dificuldades e sonhos que não deram certo. Seu olhar perdido poderia também estar no futuro, imaginando seu filho crescido, naquele mesmo lugar indo para o trabalho, quem sabe com sua mesma tristeza. Nela, não havia brilho.

Poucos segundos depois ela parou e ele pode olhar o mundo. Olhos brilhantes vendo as pessoas que passavam, carros coloridos e, quem sabe, alguém o observando do outro lado da calçada.

Do pouco dos seus dois anos o mundo é uma novidade. Nessa idade não temos passado nem futuro e até respiramos diferente. Quando não estamos alucinando, o tempo é outro e dá até para esquecer quem e o que pensamos que somos.

A mãe com suas preocupações, eu com as minhas. Ambos querendo controlar a vida, medo que nunca acaba. Ele não tem nada para esquecer, nada para pensar a não ser ir juntando as peças desse quebra-cabeça que sempre muda a imagem final.

Estávamos ali, os três no mesmo lugar, ao mesmo tempo, em mundos diferentes.

Percebi um carro passando vagarosamente. O motorista maneia a cabeça ao me olhar. Provavelmente parou para que eu atravessasse e, perdido em outro mundo, não percebi.

“Gente louca”, deve ter pensado.

Agora, nossos olhares se cruzaram.

Outro carro diminui a velocidade, acende as luzes para avisar aos outros e a mim que chegou minha vez. Enquanto atravessava a faixa ele me olhava fixamente, só o bico fazia pequenos movimentos.

O que acontecia na cabeça dele? Curiosidade que nunca terá resposta, assim como tantas que insistimos em encontrar. Perda de tempo em um mundo que só tem graça pelas perguntas.

Vivemos cada um em seu mundo com nossa interpretação particular, onde um final feliz é questão de tempo, de sorte ou quem sabe de um sonho que finalmente se realizará. Sentimo-nos especiais, pensando que o mundo foi feito para nós em um enredo com oito bilhões de coadjuvantes.

Seu mundo está recém sendo construído, mosaico com peças que colhe da família, das alegrias e tristezas que fazem parte dessa contabilidade que poderá tornar o enredo mais ou menos doloroso. Um dia, de alguma forma, os significados que lhe deram não farão sentido quando confrontados com a vida real. Restará rever e refazer o enredo como todos que descobriram que a crueza dos embates no mundo é bem menos romântica e épica, comparados as histórias que crescemos ouvindo onde o tudo dará certo no final.

 Como todos, ele criará cenários ideais para finalmente poder relaxar. Poderá um dia dizer que perdeu a oportunidade de sentir-se feliz, assim como eu perdi a chance de atravessar enquanto estava em outro mundo.

A mãe nada percebeu. Estava no celular, entretida com as notícias e a vida espetacular dos amigos que, com certeza, tiveram dias perfeitos. Aquela manhã trazia sol e pouca nebulosidade, e  tudo estava mais colorido. Hora de postar fotos, enaltecendo a obra da criação e a graça por recebermos um dia tão lindo!

 Provavelmente, nesse mundo redondo e cheio de diferenças, em algum outro lugar uma chuva forte, vento ou tremor poderia estar desabrigando e matando, mas aí é a fúria da natureza que sempre divide o poder com cenários espetaculares, arco íris, praias ensolaradas e finais de tarde de tirar o fôlego.

Quando passei por ele dei um sorriso e quase balbuciei um “boa sorte”. Os olhos grandes apenas me acompanharam até que desaparecesse na esquina.

A ex

Quando o carro estacionou, ele rapidamente desceu para abrir a porta. Mistura de gentileza e constatação de fragilidade (não é tão fácil sair do carro), também chamada de galanteio. Ação antiga, onde homem facilita a vida da mulher; seja puxando a cadeira, facilitando descer a escada e até recentemente, pagando a conta do restaurante. Tudo isso como arma de sedução, mostrando que a vida com ele seria fácil e confortável.

Ela retribuiu com um sorriso, mas percebeu que havia algo diferente no olhar dele.

Haviam se conhecido há poucas semanas por um site de relacionamento. Ela, solteira a algum tempo, logo percebeu que ele não estava habituado ao jogo da conquista. Depois de alguns e-mails protocolares, para criar as condições da conversa aprofundar, confessou estar viúvo a alguns meses, depois de um casamento de 25 anos.

Temos um ótimo candidato, pensou ela, quando recebeu a primeira foto. Viúvo, no fim das contas, é um comprometido que não tem como voltar para a ex, disputa sem concorrência. Sua experiência e das suas amigas, mostra que tem relacionamentos que parecem nunca terminar, mesmo que a separação aconteça. Nada é mais difícil que uma ex presente, como uma sombra, em novo relacionamento.

Quando ele a convidou para jantar, perguntou meio sem jeito, se ela gostaria de conhecer a casa onde morava. Aquele convite feito timidamente, quase constrangido, a encantou, mesmo sabendo que o desfecho seria esperado.

Durante o jantar notou que ele estava nervoso e quase não tocou na comida. De certa forma, isso a divertia, é como se ela tivesse o poder sobre ele. Essa timidez sempre encanta, já que dá a impressão de não ter tido muitas mulheres em sua vida.

Menos comparações, foi o pensamento que ocorreu quando ele, com um leve tremor na mão, deixou cair vinho na toalha da mesa.

A bebida foi cumprindo sua função e ele foi relaxando aos poucos, mas demorou para  pegar na sua mão, o que já estava demorando na avaliação dela. Buscar o toque é a constatação física do interesse.

Ela correspondeu, pressionando levemente os dedos dele, mostrando um sorriso tímido e desviando o olhar, dando a impressão de que isso não aconteceu muitas vezes. Ele reagiu como esperado, ficando mais confiante.

Tudo passou rápido pela sua mente enquanto caminhava em direção a porta pelo pequeno jardim bem cuidado, com rosas e outras flores ornamentais. Ali, a presença da ex  já se fazia notar.

Enquanto ele procurava a chave da porta, claramente nervoso, ela perguntou se conheceria seu único filho de 12 anos.

– Hoje ele está na casa da minha irmã. Na próxima vez com certeza!

Sentiu uma ponta de decepção.

Esperava, mesmo pelo pouco tempo que se conheciam, entrar naquela casa como uma potencial futura esposa, não como o resultado de um jantar romântico, onde o sexo é quase um protocolo.

De novo, percebeu a diferença no jeito que ele a olhava. Dessa vez não teve dúvidas; não havia mais ternura, somente desejo. Aquele olhar que não leva a alma em conta, que é só do corpo como um instinto sem humanidade. Um olhar silencioso, como aquele que antecede uma explosão esperada. O mesmo que os documentários mostram no leão quando identifica a zebra a ser abatida.

Pensou em ir embora enquanto ouvia os estalos da fechadura.

Vou ficar e deixar esse romantismo feminino de lado, pensou. Isso não é um filme, é vida real! O que esperar de alguém que está carente a quatro ou cinco meses?  O fato de estar na casa dele, já é um sinal de que me leva a sério. Claro que o filho não estaria em casa, iria atrapalhar os planos dele e a sua irmã quer ajuda-lo e vê-lo feliz novamente. A sociedade tem pressa em dar uma nova esposa a um viúvo, mas cobra menos pressa da mulher, exigindo uma solidão em forma de homenagem. Pensamento masculino de milhares de anos que ainda vigora.

Ao entrar na sala deparou-se com um grande porta-retratos onde ele e a ex estavam abraçados, ela de frente para a câmara e ele de costas. Ao lado, outras fotos menores do filho, avós e  lembranças de viagens. Teve a impressão de que ela, pela expressão do rosto, sabia que essa foto estaria naquele lugar, para deixar claro quem dominava o território. Um arrepio percorreu a espinha.

Olhou em volta e a decoração tinha um claro toque feminino. Mulher sabe e pode até desvendar alguns traços da personalidade da concorrente. Lembrou que ela não estava ali pelo casamento ter acabado, por ele não gostar mais dela. Não fosse pela doença que a vitimou, ela nunca estaria ali, com ele. Mesmo que ele se apaixone por mim, pensou, será sempre por ela ter morrido. Não houve disputa,  nunca poderei me sentir superior. Teria que conviver com isso.

Percebeu que não havia mais fotos dela na sala e que o vaso, em cima da mesa, estava vazio. Provavelmente uma diarista cuida da casa e dificilmente um homem e um pré-adolescente lembrariam de colocar flores no ambiente.

Sentiu o toque dele em seus ombros. Sabia que, ao virar-se, tudo começaria.

Tinha a seu favor o fato de ser uma novidade para ele. Acostumado a vida familiar, se tudo desse certo, ele a quereria ali, em breve. Precisaria, aos poucos, mudar toda decoração e a cor das paredes. Tirar os vestígios da antiga dona.  Agora, seria seu território!

Mal conseguiu se concentrar no primeiro beijo. Só pensava em como fazer para tirar aquela foto dali.