Agenda

A ex

Quando o carro estacionou, ele rapidamente desceu para abrir a porta. Mistura de gentileza e constatação de fragilidade (não é tão fácil sair do carro), também chamada de galanteio. Ação antiga, onde homem facilita a vida da mulher; seja puxando a cadeira, facilitando descer a escada e até recentemente, pagando a conta do restaurante. Tudo isso como arma de sedução, mostrando que a vida com ele seria fácil e confortável.

Ela retribuiu com um sorriso, mas percebeu que havia algo diferente no olhar dele.

Haviam se conhecido há poucas semanas por um site de relacionamento. Ela, solteira a algum tempo, logo percebeu que ele não estava habituado ao jogo da conquista. Depois de alguns e-mails protocolares, para criar as condições da conversa aprofundar, confessou estar viúvo a alguns meses, depois de um casamento de 25 anos.

Temos um ótimo candidato, pensou ela, quando recebeu a primeira foto. Viúvo, no fim das contas, é um comprometido que não tem como voltar para a ex, disputa sem concorrência. Sua experiência e das suas amigas, mostra que tem relacionamentos que parecem nunca terminar, mesmo que a separação aconteça. Nada é mais difícil que uma ex presente, como uma sombra, em novo relacionamento.

Quando ele a convidou para jantar, perguntou meio sem jeito, se ela gostaria de conhecer a casa onde morava. Aquele convite feito timidamente, quase constrangido, a encantou, mesmo sabendo que o desfecho seria esperado.

Durante o jantar notou que ele estava nervoso e quase não tocou na comida. De certa forma, isso a divertia, é como se ela tivesse o poder sobre ele. Essa timidez sempre encanta, já que dá a impressão de não ter tido muitas mulheres em sua vida.

Menos comparações, foi o pensamento que ocorreu quando ele, com um leve tremor na mão, deixou cair vinho na toalha da mesa.

A bebida foi cumprindo sua função e ele foi relaxando aos poucos, mas demorou para  pegar na sua mão, o que já estava demorando na avaliação dela. Buscar o toque é a constatação física do interesse.

Ela correspondeu, pressionando levemente os dedos dele, mostrando um sorriso tímido e desviando o olhar, dando a impressão de que isso não aconteceu muitas vezes. Ele reagiu como esperado, ficando mais confiante.

Tudo passou rápido pela sua mente enquanto caminhava em direção a porta pelo pequeno jardim bem cuidado, com rosas e outras flores ornamentais. Ali, a presença da ex  já se fazia notar.

Enquanto ele procurava a chave da porta, claramente nervoso, ela perguntou se conheceria seu único filho de 12 anos.

– Hoje ele está na casa da minha irmã. Na próxima vez com certeza!

Sentiu uma ponta de decepção.

Esperava, mesmo pelo pouco tempo que se conheciam, entrar naquela casa como uma potencial futura esposa, não como o resultado de um jantar romântico, onde o sexo é quase um protocolo.

De novo, percebeu a diferença no jeito que ele a olhava. Dessa vez não teve dúvidas; não havia mais ternura, somente desejo. Aquele olhar que não leva a alma em conta, que é só do corpo como um instinto sem humanidade. Um olhar silencioso, como aquele que antecede uma explosão esperada. O mesmo que os documentários mostram no leão quando identifica a zebra a ser abatida.

Pensou em ir embora enquanto ouvia os estalos da fechadura.

Vou ficar e deixar esse romantismo feminino de lado, pensou. Isso não é um filme, é vida real! O que esperar de alguém que está carente a quatro ou cinco meses?  O fato de estar na casa dele, já é um sinal de que me leva a sério. Claro que o filho não estaria em casa, iria atrapalhar os planos dele e a sua irmã quer ajuda-lo e vê-lo feliz novamente. A sociedade tem pressa em dar uma nova esposa a um viúvo, mas cobra menos pressa da mulher, exigindo uma solidão em forma de homenagem. Pensamento masculino de milhares de anos que ainda vigora.

Ao entrar na sala deparou-se com um grande porta-retratos onde ele e a ex estavam abraçados, ela de frente para a câmara e ele de costas. Ao lado, outras fotos menores do filho, avós e  lembranças de viagens. Teve a impressão de que ela, pela expressão do rosto, sabia que essa foto estaria naquele lugar, para deixar claro quem dominava o território. Um arrepio percorreu a espinha.

Olhou em volta e a decoração tinha um claro toque feminino. Mulher sabe e pode até desvendar alguns traços da personalidade da concorrente. Lembrou que ela não estava ali pelo casamento ter acabado, por ele não gostar mais dela. Não fosse pela doença que a vitimou, ela nunca estaria ali, com ele. Mesmo que ele se apaixone por mim, pensou, será sempre por ela ter morrido. Não houve disputa,  nunca poderei me sentir superior. Teria que conviver com isso.

Percebeu que não havia mais fotos dela na sala e que o vaso, em cima da mesa, estava vazio. Provavelmente uma diarista cuida da casa e dificilmente um homem e um pré-adolescente lembrariam de colocar flores no ambiente.

Sentiu o toque dele em seus ombros. Sabia que, ao virar-se, tudo começaria.

Tinha a seu favor o fato de ser uma novidade para ele. Acostumado a vida familiar, se tudo desse certo, ele a quereria ali, em breve. Precisaria, aos poucos, mudar toda decoração e a cor das paredes. Tirar os vestígios da antiga dona.  Agora, seria seu território!

Mal conseguiu se concentrar no primeiro beijo. Só pensava em como fazer para tirar aquela foto dali.

Dois de novembro

O túmulo era em mármore negro. A antiga foto preto e branco mostrava um rosto jovem e sorridente em uma moldura dourada. Abaixo, as datas que marcam a passagem, sempre efêmera para quem fica com a dor da morte; os vivos.

Ela carregava um pequeno vaso com flores de plástico, que, hoje sabemos, também morrem, como tudo. Nas lágrimas mais escassas a cada ano, lembranças de pessoas que já não existem mais, independente de terem ou não morrido. Os filhos não vieram, de novo. Compromissos com a vida, sempre mais urgentes. Parece que eles pensam que os mortos sempre podem esperar. A cada ano, uma oportunidade de resgatar as ausências anteriores que nunca se cumprem.

Transformou seu pensamento em som, murmurando baixo, querendo enganar a si mesma e ao falecido:

– No ano que vem eles virão.

Lembrava da sua infância enquanto passava um pano umedecido na lápide. Naquela época, não se ouvia música nesse dia. Era proibido falar alto, e todos tinham a obrigação de se mostrarem tristes, inclusive as crianças, quem nem sabiam ao certo o que era morrer. Não via a hora desse dia terminar. Na manhã seguinte podia voltar a sorrir e a brincar. Demorou a entender o dia de finados.

Tudo foi ganhando significado com o tempo; os avós, depois os pais. Perdas que vão nos empurrando para um canto, onde estamos sós no mundo. Os filhos salvam a angústia, pois poderemos viver na vida deles e dos que virão. Eternidade garantida pela ciência que pouco consola.

Quando se despediu, lembrou com um arrepio que a idade já não poderia garantir a visita do próximo ano. Quem sabe? Ao lado, um túmulo vazio que ela se recusava a olhar. Encontro marcado, cada vez mais próximo. Engoliu em seco.

Enquanto caminhava em direção ao portão, observou que cada ano tem menos gente nesse dia no cemitério. Muitos vão antes, principalmente se o feriado fica perto de um final de semana. O dia de finados não é dia dois, mas começa ou termina sempre mais tarde ou cedo, dependendo dos compromissos. Concessões em favor do trabalho ou de uma folga para descansar. Primeiro a vida e por que não?

No noticiário, os comerciantes de flores dizem que o movimento caiu muito. Um post no Facebook divide a dor da saudade com mais gente, um smile chora por nós e dá menos trabalho. Facilidades inegáveis da vida moderna.

Na rua, pessoas caminhando, outras correndo e bicicletas com gente colorida. Namorados de mãos dadas, vivendo momentos em que a morte nunca existiu e existirá. Cinemas lotados, lojas abertas no shopping e futebol à noite na televisão.

Olhou para si, em um susto. Percebeu que nesse ano não veio com sua saia e blusa preta. Pensou em se sentir culpada com sua calça jeans, tênis e camiseta amarela. Está calor, pensou, enquanto lembrava a si que nunca deixou de visitá-lo nesse dia e que a roupa pouco importava. Percebeu uma certa raiva, quando um pensamento maldoso lhe perguntou se ele viria todo ano se fosse ela que tivesse morrido.

– Perigava trazer a outra junto. Nunca ele iria respeitar a viuvez como eu. Também não sei se tivesse me casado de novo se viria todo ano. Guardaria as fotos em uma caixa, a vida precisa continuar.

Pensamento que consola e se vinga de situações impossíveis, por nunca terem se tornado reais. Como vivenciamos e imaginamos saídas e soluções mágicas, que não combinam com a realidade!  Sonhos de olhos abertos que colocam algum brilho na vida real, tão áspera e injusta.

Sua vida continuou, mas sem um novo amor ou companhia, que no fim da vida se tornam sinônimos.  Ainda ostentava o título de viúva, solteira por imposição do destino e falta de novas chances.

Chegou em casa e caiu no sofá. Nas paredes em cima do balcão, muitas fotos para fazer de conta que a família existe. A verdade é a solidão. Talvez um filho “dê uma passada” no final de semana, quem sabe? Visitas cada vez mais rápidas, às vezes trocadas por duas ou três palavras no Whats que ela finge entender e mostrar que não precisa de nada, sempre que vem essa pergunta protocolar.

Um dia, ela também será só um retrato e, quem sabe, uma lembrança a cada dia dois de novembro.

A última desilusão

 

Ficou paralisada diante da tela do computador.

Nunca dá para dizer que algo é inacreditável, já que se acontece, torna-se necessário acreditar. Lutar contra a realidade não dá, é um romantismo placebo. A notícia teve o efeito de uma grande desilusão, mais uma.

Mais de cinquenta anos juntos! Como pode?

De uns tempos para cá, as uniões estão sofrendo um golpe atrás de outro. Isso não faz bem para as pessoas, nós precisamos acreditar que os compromissos podem durar para sempre. O amor precisa ser invencível! Precisa!

 Tem palavras que deveríamos tirar do dicionário; para começar, todo e qualquer juramento e “para sempre”. Jurar, no fim das contas, é prometer que nunca mudaremos, e o que é pior, independente das circunstâncias. Isso não é possível!

Talvez o problema seja mesmo falta de experiência. Quem pediu para jurar, algum dia jurou para alguém de carne e osso?

Tem juramentos que não tem graça. Sem conviver é fácil!

Isso de estarmos sempre mudando tem dois lados; não existe nenhuma condenação, por outro, sei lá quem vou ser e o que esse que serei pensara e irá querer da vida?

 Isso tira a tranquilidade, dá uma ansiedade de um futuro incerto. Por outro lado, que graça teria um futuro certo? Se nunca mudássemos, gostaríamos sempre da mesma coisa…chato por um lado, já que nunca conheceria coisas novas, seguro por outro.

Que confusão!

Melhor não pensar. Mas a cabeça não para de falar.

A vida não está mais nos dando os exemplos de que é possível, que dá para, mesmo mudando, gostar de estar sempre junto.

O Willian e a Fátima?

Tantos filhos, sucesso, dinheiro, fama. Mas o tempo, ou a previsão do tempo mudam tudo! Jamais se poderia imaginar!

Mesmo um homem sério pode se abalar e as esperanças das pessoas comuns sofreram um duro golpe.

Como ele pode deixar de gostar dela? Tão simpática, sempre sorrindo!

Será que ela pode tê-lo cansado? De tanto sorrir?

Mal tínhamos nos acostumado com esse duro golpe, quando de repente, a pá de cal: O Brad e a Angelina, e agora?

Ela que sempre é muito decidida, mais uma vez tirou da sua vida tudo que poderia, mesmo que somente um dia, vir a incomodá-la. Dos seios ao Brad, a mesma regra. Não teve dó.

Ele pediu para voltar e ela irredutível. Diz que não quer mais e até apareceu na internet que bloqueou o telefone para não receber chamadas dele.

Como uma mulher pode não gostar de receber ligações do Brad? É o sonho de todas, menos dela.

O que ela sabe que não sabemos?

Pode alguém tão perfeito ter defeitos? Seria a perfeição uma expectativa que nos mantém motivados?

 A realidade não ajuda. Por isso não vou a palestras motivacionais, pensou ela, fico toda empolgada e dois ou três dias depois, o mundo não percebeu meu entusiasmo e volta a ser como sempre foi. Dá até ressaca, que nem bebedeira.

Decepção, mais uma!

Mas mesmo o Willian e Fátima, o Brad e a Angelina não ficaram cinquenta anos juntos. Chega um tempo que, mesmo que esteja ruim, as pessoas ficam pela companhia. No fim sempre foi uma grande amizade, temperada com carinho e uma briga, vez por outra. Mas depois de mais de meio século, os laços deveriam ser tão fortes que não dá para imaginar um sem o outro. Dias atrás saiu a notícia que um casal que estavam juntos a mais de sessenta anos morreram com horas de diferença; um de doença e o outro, por não querer ficar nesse mundo sozinho.

Que lindo, o amor vencendo a morte!

Mas como eles foram se separar nessa hora? Será que não perceberam que o casamento está sofrendo duros golpes? O que custava pensar no quanto isso é importante para as pessoas continuarem a acreditar que pode dar certo, para sempre? Depois de cinquenta anos, recomeçar?

Agora não acredito em mais nada!

Levantou e foi fazer o almoço, secando as lágrimas com o avental.

Na tela do computador continuava estampada a notícia: Bob’s e Ovomaltine se separaram. Mal terminaram o e Ovomaltine anunciou que vai ser só do MacDonald’s.

Os relacionamentos não são mais os mesmos!

Que pena!

 

 

 

Um chá com Espinosa

Fazia frio naquela tarde onde o céu era límpido e o sol não conseguia ser mais do que uma leve sensação agradável. Enquanto caminhava pelas ruas, a temperatura ia mudando, na medida em que as marquises e os prédios altos faziam sombra. Já era meio da tarde e o vento gelado parecia fazer das roupas e cachecóis uma tímida defesa.

Quando chegou na casa de chá que frequentava, surpreendentemente não encontrou fila. Era uma casa antiga, da metade do século XX, que um extremo bom gosto fez de suas salas ambientes agradáveis e muito bem decorados. De todos esses pequenos espaços, o que mais gostava tinha na parede dezenas de pequenas luminárias que, mesmo acesas, deixavam uma leve penumbra. As mesas e cadeiras misturavam estilos e até os pequenos rasgos no tecido de um sofá estilo rococó faziam parte de um charme proposital. Em outra sala, malas antigas cortadas na metade eram colocadas na parede e a sensação que tinha era que elas vomitavam o tempo. Ao fundo, jazz instrumental.

A jovem e bela atendente de olhos verdes brilhantes trouxe o cardápio em uma mão e um tablet na outra, e o lembrou de apertar um pequeno botão na mesa quando tivesse escolhido. A tecnologia combina bem com o estilo antigo do ambiente, já que esse botão acionava uma luz no relógio do garçom avisando a mesa que estava chamando.

Estava sem pressa e o próprio clima do lugar ajudava. Parecia que lá dentro o tempo nada tinha a ver com a velocidade da grande cidade, onde milhões de pessoas correm atrás da sobrevivência, em uma luta que também envolve  insegurança e  violência. Nada mais comum a todo lugar onde a riqueza e a miséria são a condição da existência uma da outra.

Na mesa ao lado, um casal de enamorados tinha seu mundo dentro daquele ambiente. Mãos dadas descansando sobre a mesa e olhos nos olhos. Um dia, esse mundo será aumentado quando descobrirem que essa perfeição foi uma imaginação, uma expectativa. Como é bom pensarmos que tem coisas que, conosco, nunca acontecerão. Tudo que outros seres humanos passaram foi só com eles e a desilusão sempre será o resultado de uma expectativa exagerada, de nos tornarmos um pouco como todo mundo.

Diferente das outras vezes, trouxe consigo o livro que estava lendo. Não foi proposital, como um ato consciente, apenas ao sair de casa levou-o junto, sem motivo. Devia ser por estar pensativo sobre o que estava lendo. Sempre gostou de filosofia, mas de uns tempos para cá, que resolveu ir mais a fundo, talvez por buscar uma nova maneira de entender a vida. Na verdade, o fato dos humanos terem consciência de um dia morrer, os obriga a que suas vidas tenham um sentido, algo que os faça ter certeza que sua passagem não foi em vão. Certa vez, o grande Saramago disse em um de seus romances que as lápides são essa última tentativa de não sermos esquecidos, quando a vida foi comum e o desejo de criança de sermos algum tipo de herói não se realizou.

Suspirou para trazer a atenção de volta ao cardápio. Escolheu um chá de frutas e especiarias. Para acompanhar, um brioche levemente doce. Depois de fazer seu pedido olhou para o livro. A capa azul era um resumo da Ética de Espinosa, comentada por seus discípulos contemporâneos.

O livro o impressionara desde o início, com a primeira de suas proposições:

“Uma única substância para todos os atributos”.

Se fosse verdade, e parecia ser se pensarmos bem, tudo que aprendera desde a infância ruíra. Recebemos uma maneira de pensar e ver o mundo e nem sequer a questionamos. Espinosa mostra com clareza o erro de Platão ao nos oferecer sua dualidade primeira; o mundo dos sentidos e o mundo das ideias ou dentro e fora da sua famosa caverna. Foi justamente por aí que as religiões criaram seus paraísos, uma ótima forma de aceitarmos pouco dessa vida e dela desviarmos atenção. Claro que Platão pensava em um Universo finito e perfeito, coisa que Espinosa, quando filosofou, já sabia não ser verdade, lá por 1650. O caos que já naquela época percebíamos no espaço era uma das faces de uma inteligência criadora que Espinosa percebeu muito além de uma ideia de como controlar as pessoas pelo medo e pela culpa.

De qualquer forma, o Deus que ele mostra seria mais factível e menos improvável do que aprendemos a imaginar. Tudo nessa imanência que vivemos é uma emanação da transcendência eterna. Morremos para que Deus possa continuar Sendo, e apenas mudamos de forma. Nossa finitude é o atestado da eternidade de Deus, na ausência de tempo. Tempo que nossa mente cria para separar o nascimento da morte.

Incrível como um homem que viveu menos de cinquenta anos, teve tamanha percepção da vida, quase sem nenhuma tecnologia.

Quando o chá foi servido, sua atenção se voltou para o bule de porcelana pintado à mão. Impossível não lembrar da casa da sua avó. A xícara seguia o conjunto e a colher pesada só podia ser de prata. Para adoçar, um pequeno pote de mel. Deixou que o aroma do chá invadisse suas narinas. Uma delícia!

“Aumento de potência”, diria Espinosa, quando algo no mundo nos dá alegria. Claro que a tristeza, seu oposto, um dia no levará a morte, mas a vida longa, como um combustível é movida por trocas que nos tragam essa alegria. A cada encontro com o mundo, com pessoas e situações afetamos e somos afetados. Sabemos que o mundo é grande demais para nós e um dia não suportaremos, mas esses encontros alegres, a mudança que se dá em cada relação com a vida é o que conta em uma contabilidade em que o bem-estar precisa estar em vantagem.

Enquanto degustava o primeiro gole, sua mente martelava: “Um só mundo, tudo uma só coisa”. Espinosa trouxe o prazer de descobrir. Para ele, a essência da mente é o conhecimento (como Aristóteles, de certa forma, também dizia). Quanto mais se conhece, mais se realiza a grande virtude, ou, como ele mesmo diz: “quando a mente contempla a si própria e sua potência de agir, alegra-se”.

Deus tem misteriosos fins, dizia o Filósofo. Queremos compreende-Lo, e isso não é possível. Vontade divina é apenas o nome que a imaginação encontra para buscar entender o que não podemos, e o medo que temos diante do incompreensível. Tudo que existe possui causa determinada e necessária para existir tal como é, e os encontros com a vida é que serão por fim, nossa liberdade de alegria ou tristeza. Tudo é esse Deus; tudo que existe. Isso inclui sua dupla expressão: o bem e mal, que nada mais são do que maneiras de entendermos e darmos um rosto para o que acontece.

Pensou o quanto isso mudaria sua maneira de viver.

Encheu novamente a xícara. Percebeu que até hoje correu atrás de desejos e o que queria, na verdade, era só entender-se. Nos relacionamentos, mais do que desejar o outro, na verdade, queria ser o desejo do outro. Ah, os desejos…

Aristóteles dizia que parar de desejar era adoecer, já para os estoicos, desejar é estar doente. Vai entender…

Espinosa caminha por outra percepção. Desejo é força criadora, energia de vir a ser outro, novo e evoluído, enfim. Não percebemos isso e transferimos para os objetos, pessoas e ideias essa responsabilidade, da mesma forma que fizemos ao médico quando não conseguimos dormir. Mais do que buscar o motivo da angústia que leva à insônia, pedimos um remédio que nos devolva o sono e mantenha a tristeza que nos afeta intacta. Espinosa sacudiria a cabeça, com desânimo.

Comeu seu brioche com o último gole de chá. Espinosa evoluiu no pensamento rebelde e complexo de Nietzsche e, a partir do final dos anos sessenta com Deleuze e sua Esquizoanálise.

Agora pode entender o motivo de Espinosa e seus seguidores estarem à margem da cultura, afinal eles nos mostram uma maneira de ver a vida que nunca imaginamos. Quase um clamor para que vivamos intensamente o que temos, sem futuro, já que o futuro nos fará diferente do que somos e seremos outro, portanto.

Enquanto pagava sua conta, pensou o que Espinosa poderia dizer-lhe depois desse encontro. Talvez ele apenas diria:

-Alegre-se pelo que tens. Que bom que podes vir nesse belo lugar e poder tomar esse chá quente em um dia frio. Mais do que pensar no que te falta, veja o que a vida te proporciona e valorize! Seus desejos serão amenizados. Sempre haverá uma insatisfação, mas o que esperar de quem tem apenas um tempo para viver? Esse espaço em aberto que chamamos desejo, é por onde nasce a criatividade, que nos empurra avante, para sermos o que ainda não somos.

Quando voltou para a rua a noite já chegara. No inverno os dias são menores e uma golfada de vento gelado crispou seu rosto. Mas por dentro estava quente, não só pelo chá, mas por ter percebido que há um mistério chamado vida para ser vivido e descoberto, até que mudemos de forma, como afirma Espinosa.

Lembrou de ligar o celular e a internet lhe avisou de mais um atentado com mortes na Europa. Resolveu não deixar a tristeza diminuir sua potência de viver. São os que matam em nome de um deus que querem empurrar goela abaixo, ou simplesmente serem heróis de alguma coisa e dar sentido a vidas medíocres.

O que virá depois?

Não importa, pois enquanto pensar nisso, a vida “agora” não é vivida. Pensou que Nietzsche lhe daria um tapa na cara se estivesse diante dele.

Seria mais que merecido!

Prosa e Verso

Prosa e Verso foi o melhor nome que o idealizador do bar pode conceber. Sua ideia foi criar uma ilha no centro da grande cidade, onde, ao adentrar a porta, o cliente mudaria de mundo. Lá fora, a agitação do trânsito, pessoas correndo atrás sabe-se lá de que? Na portaria, onde antigamente os cavalheiros deixariam seus chapéus e as damas seus casacos de pele, um pequeno armário com várias pequenas portas com chaves e um convite: “Deixe aqui seu celular e se conecte na conversa ou nos seus pensamentos”. A ideia foi bem aceita e, depois de algum tempo, levar o celular para as mesas parecia tão deselegante quanto fumar.

Mas não era só isso. A alma do lugar era a poesia e a boa música ambiente. O que se ouvia era o melhor dos clássicos, versões requintadas de sucessos e a voz das divas, grandes cantores e algumas versões arranhadas dos velhos LP’s. Mas a grande sacada era a poesia, verdadeira paixão do dono. As mesas para mais de uma pessoa eram de vidro e a cada semana era trocado o poema que ficava abaixo, como que adornando as conversas. O vidro redondo girava e todos tinham a oportunidade de ler o poema da semana. Nas mesas de dois lugares, poesias que falavam de amor e amizade. Nas de quatro e seis, os temas eram a convivência, a vida e a alegria. Mas o dono se preocupou com quem viria só, a espera de conectar consigo ou relaxar enquanto põe as ideias em ordem. As mesas de um lugar ficavam com a cadeira de costas para as outras mesas e para a circulação. Apenas um abajur, deixava o centro da mesa (essas eram de madeira), e o poema ficava na parede em frente à mesa. Uma pequena luz indireta iluminava o texto e mesmo que não quisesse, não teria como não ler. Caso a preocupação fosse grande, uma ou duas estrofes poderiam, quem sabe, trazer alguma inspiração. A ideia foi, sem dúvida, uma versão elegante dos papeizinhos com mensagens positivas que escolhemos enquanto esperamos nas salas de espera da vida.

 Um dos clientes bem-humorados disse que o bar, com suas mesas individuais, era a igreja do século XXI, onde o padre era substituído pela poesia e a bebida.

Os poemas das mesinhas de um só lugar falavam de solidão, de relacionamento findos e de momentos de mudança. Na semana passada, a mesa 6, tinha um poema de Clarice Lispector:

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada de novas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”.

Carlos foi um dos primeiros a chegar naquela quarta-feira, logo depois das 18hs, quando o “Prosa” abre. Já tinha vindo outras vezes com colegas para fazer Happy Hour, mas hoje queria ficar sozinho.
Sentia-se angustiado, a pressão do trabalho estava insuportável. A crise, tinha virado motivo de a empresa exigir cada vez mais, com a ameaça velada do desemprego assombrando cada reunião de cobrança de resultados. Já tinha virado rotina, depois de chegar em casa, ficar pensando como seria se tivesse um outro trabalho, ou como seria se pudesse trabalhar no que realmente gosta.
Em um desses dias, enquanto pensava  em voz alta, a esposa, parecendo impaciente, sentenciou:
– Tudo bem, mas afinal; o que você realmente gosta?
Não soube responder, e de lá para cá, tem procurado em si mesmo a resposta. Enquanto pensava e olhava para o “nada” o poema foi saindo da visão desfocada e a estrofe que parecia tinha sido escrita para ele, ficou como um outdoor:

“ No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. ”

Pensou que sua vida tinha sido, em certo sentido, uma grande mentira até agora. Se pudesse responder a pergunta que a esposa fizera, talvez já estivesse trabalhando no que gosta, usaria uma roupa diferente e, com um sorriso iluminando o pensamento seguinte, chegou a falar sozinho:
– Não sei se teria me casado com você!
Quem se casou? Quem escolheu esse trabalho? Quem pensou no nome do filho?
Como seria minha vida se eu soubesse quem era desde o começo?
Se Deus existisse mesmo, deveríamos saber o que nos faz feliz desde sempre, mas para isso precisaríamos não nos sentirmos culpados em desobedecer, em teimar contra pessoas, que, em nome de um tipo de “amor” possessivo nos indicaram o que era melhor para nós. É assim que a infelicidade passa de geração em geração, mas é aquela história: vai que no próximo mundo, na próxima vida…
Ainda era jovem de certa forma, mas ter uma família deixa a liberdade mais estreita, arriscar passa a ser conjugado no futuro do subjuntivo. A vida já não era mais dele, era o que lhe disseram quando se tornou pai.
Pediu uma caneta ao garçom, anotou a estrofe do poema, pagou a conta e saiu para ir para casa, perdido de quem nunca tinha sido até agora.

Mal a mesa tinha sido limpa, o copo de whisky recolhido que Maira chegou. Habitué dos lugares solitários, escolhia a mesa pelo poema, mas hoje o “Prosa” estava lotado e não tinha escolha. Se considerava mística e, para ela, tudo tinha uma mensagem que bastaria ter olhos para ver, segundo sua própria filosofia. Assim, o fato de só ter aquela mesa vaga, tinha como significado que o poema da parede era uma mensagem importante, uma coincidência divina.
Pediu a taça de espumante com um sorriso que esbanjava simpatia. Tirou os óculos da bolsa e suspirou buscando concentração para ler o poema. Quando viu que era de Clarice Lispector, lembrou que já tinha ouvido falar, mas nunca tinha lido nada escrito por ela. Apoiou a rosto na mão e começou a ler. Um calafrio percorreu todo seu corpo quando se deparou com a frase:

“ Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro. “

Era o que ela precisava ouvir!
Sua dúvida acabara de receber a “mensagem” que precisava! Iria amanhã mesmo vender o carro, pedir demissão e fazer aquela viagem de um ano para a Índia, com a qual havia sonhado meses atrás. Desde que acordou, na manhã seguinte, estava impressionada com o realismo do sonho. Passou os dias seguintes pesquisando sobre essa viagem que, tinha certeza, mudaria sua vida.
Sua amiga mais conservadora, tinha alertado que esse sonho tinha a ver com o filme que ela assistira e que ela não era a Julia Roberts,  que estaria fazendo uma loucura. Sugeriu que avaliasse com muito cuidado essa ideia de ir embora. Em um ano, tudo pode mudar. Quem garante que arrumaria emprego quando voltasse? Não daria para ter a vida a que se acostumou dando aulas de yoga, mesmo que tivesse aprendido na Índia.

A lembrança das palavras da amiga foi muito menor que a emoção. Bateu uma foto da estrofe do poema e mandou pelo Whattsapp para a amiga com a mensagem:
“Viu! Eu sabia! Olha a inspiração que recebi! ”

Pagou a conta sem sequer ter tomado um gole da bebida e saiu como se tivesse ganho na loteria. O garçom, acostumado com o que acontecia nas mesas individuais, não estranhou.
No dia seguinte, era o dia da semana de trocar todos os poemas e essa tarefa era do dono. Enquanto ele colocava os novos poemas nas mesas e na parede, o garçom mais antigo sempre pensava o que poderia mudar,  se os poemas fossem trocados nas terças ao invés das quintas.