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A dor é amarela

              “Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. ”

                                                                         Rubem Alves

                                                                                                                                                                 cvv

Estamos em setembro, que é amarelo por uma inspiração primaveril ou porque as outras cores já foram usadas nos outros meses, dedicado a alguma causa. No caso, o foco é o suicídio e sua prevenção, que, pelos números que crescem geometricamente, precisará de mais meses do ano ou de termos um ano todo amarelo, de janeiro a dezembro.

Sobre o assunto do suicídio, já tratei diretamente em um dos capítulos de “Céu e Inferno”, bem como uma reflexão sobre a morte, em texto aqui do blog, quando usei as ideias do filósofo Montaigne como inspiração (Montaigne e a morte), escrito em setembro de 2016.

Meu intuito agora é comentar sobre a importância do trabalho, voluntário ou não, das pessoas que se dedicam a escuta e de como simplesmente ouvir pode fazer a diferença para quem está pensando em abreviar sua vida.

A angústia quando aperta nos encolhe (muitos ficam em posição fetal quando sofrem desesperadamente, buscando inconscientemente uma lembrança de quando se sentiam protegidos), e parece até que dá falta de ar em outros. Só quem já passou por isso pode avaliar e é aí que os problemas começam.

Todos, sempre com a finalidade de ajudar no sofrimento do outro, cometem alguns erros primários como, por exemplo, tentar diminuir o problema comparando com outros que, em tese, são mais graves. Quem está sofrendo, sofre seu problema que nunca pode ser comparado com outro. A dor da perda de um relacionamento é sentida psicologicamente como uma morte de alguém querido. Comparar dizendo que “tem coisas bem piores” além de ser uma bobagem é um desrespeito. Jamais pode-se partir do ponto de que as pessoas são iguais, sendo a comparação uma verdade válida para todos. A morte de um animal de estimação, a perda de um emprego, seja qual for o problema, tem o sentir único de quem o vivencia e qualquer comparação é absurda. Não tente consolar seu amigo (a), por exemplo, oferecendo suas experiências tristes esperando que ele melhore ficando com pena de você.

O sofrimento, normalmente é um não entendimento da dor e falar sobre isso sempre ajuda. Quando a pessoa sente confiança para expressar seu sentimento, suas ideias se organizam no ato de explicar o que está sentindo. Mas isso exige uma atitude de respeito à capacidade que cada um tem de resolver seus próprios problemas. Outro erro grave é querer oferecer saídas ou dar conselhos. Os profissionais da área da psicoterapia, que possuem toda uma preparação para lidar com o sofrimento alheio, têm por norma não aconselhar, justamente por procurarem oferecer condições de entendimento. Quando tudo fica claro, quando as causas são conhecidas pode ficar a dor, mas o sofrimento acaba. Portanto, não dê conselhos!

Quer ajudar?

Apenas ouça, não julgue, não critique e não aconselhe.

A não ser que você seja alguém realizado como um Buda, que atingiu o clímax do potencial humano, acolher já está ótimo!

Se todos nós temos nossos problemas e sofrimentos, só podemos ensinar o que sabemos por experiência. O que isso quer dizer? Que só podemos ensinar a ter problemas e sofrimentos.

O ato de falar sem se sentir julgado, comparado ou criticado abre infinitas possibilidades, mas seu maior efeito é a diminuição da dor emocional que, quando atinge um patamar elevado faz a pessoa querer acabar com isso rapidamente e é aí que entra a ideia do suicídio. Em níveis mais baixos, acabamos com nossa angústia com uma barra de chocolate ou um copo de qualquer coisa. Somos todos suicidas em potencial e o que nos falta é a dor extrema aliada a um momento de fragilidade. Nossa natureza é a busca da alegria e a fuga da dor. A alegria é imaginada e vivida intensamente em momentos, já a dor emocional é também física, sendo, portanto, mais propícia a saídas rápidas e impensadas. Como já detalhei no artigo sobre o suicídio, a angústia, seja de que nível for, sempre é tão passageira quanto a felicidade que “dura pouco”, mas com um agravante; parece ser eterna enquanto dura, parafraseando Vinícius de Morais.

Por isso, trabalhos de escuta como o que o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece gratuitamente é de inestimável valor para a sociedade e merece todo nosso apoio. São pessoas que doam seu tempo e que são treinadas para essa escuta respeitosa, de ajudar a pessoa que está sofrendo a falar tudo que sente, anonimamente, sem cobranças, consolos ou saídas milagrosas. A fala, muitas vezes o choro que se deixa chorar, alivia em muito a angústia e nessa hora é o que importa. É como um pronto-socorro que não tem a função de curar, somente de manter o paciente vivo para que ele possa procurar com calma e sem dor a saída de seu problema.

Como é importante nesses momentos não oferecer crenças ou explicações metafísicas. Até porque, são saídas baseadas em expectativas de que o mundo ou a vida sejam desse ou daquele jeito. Muitas vezes não funcionando nem para quem os sugere. Quando alguém enfrenta o desespero isso também acontece pelas suas crenças se mostrarem sem efeito diante do problema. Oferecer outra? Por favor, não!

Portanto, se você está sem tempo de ouvir, ou acha que o problema que a pessoa está enfrentando poderia ser pior, que está faltando coragem ou fé, não diga nada. Sugira que procure uma ajuda profissional, reconhecendo sua limitação (o que é um ato de extrema inteligência e grandeza) ou então dê o número do CVV*.

O mundo está nos entristecendo cada vez mais e isso diminui nossa força e vontade de viver. Estamos cada vez com mais medo de não conseguirmos nos manter em um mundo que está mudando muito mais rápido do que nossa capacidade de assimilação. Tudo perde valor e validade rapidamente e manter-se, seja no emprego, nos relacionamentos e até de atender nossas necessidades é um risco diário. O mundo e nossa civilização perdeu consistência, ou ficou “líquido” como bem descreve Zygmunt Bauman em seus livros. Parece que só globalizamos a miséria, a violência e o medo. Precisaríamos de uns trezentos ou quatrocentos anos para nos adaptarmos sadiamente ao que aconteceu nos último trinta.

Os números do suicídio são verticais, afetam todas as classes sociais e econômicas e a dor que não respeita nada pode nos atacar dentro de um ônibus indo para o trabalho ou em um iate nas costas do mar Egeu.

Se alguém me perguntasse que cor daria para setembro, certamente não escolheria o amarelo de “cuidado” como nos semáforos. Usaria e vermelho de “pare”!

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 * CVV disque 141

Arrume seus armários

   “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.”

                                                            Fernando Pessoa

mudança

Mudanças são difíceis e, na maioria das vezes, ocorrem sem nossa concordância; são necessidades impostas pela vida. Portanto, a famosa frase “resistir a mudança” tem sua lógica. Nosso instinto de sobrevivência quer a manutenção do que nos mantêm vivos, afinal, estar vivo é uma pré-condição da almejada felicidade poder ser alcançada.

Uma mudança, seja ela imposta ou escolhida sempre será um processo de alguma dor, ou como dizia Nietzsche, de “rasgar a alma”. Isso porque, saímos do terreno conhecido em direção a essa nova etapa que não controlamos (por ainda não termos vivido algum tempo nela), com o receio que nossa máquina corporal nos impõe sempre que estamos diante do que não conseguimos prever; o medo.

É justamente aí que reside a origem e a necessidade de todos os deuses e superstições: uma mão forte diante do medo do desconhecido e de um mundo repleto de acasos e variáveis que escapam à nossa lógica e compreensão.

Assim, diante de uma mudança necessária (as desnecessárias adiamos até se tornarem imperativas), ficamos à espera de uma força que nos anime para adentrar nessa selva desconhecida. Vale fazer uma promessa, beijar a medalhinha do santo protetor e confiar no apoio do Grande Pai, que sempre sabe o que faz e quer o nosso bem. Então, munidos dessa “força”, respiramos fundo e vamos adiante, seja para uma cidade nova, um relacionamento, um novo projeto profissional, um regime ou abandonar velhas rotinas que já não servem mais.

Nossa realidade externa sempre é reflexo do nosso interior, da ordem e desordem emocional que estamos vivendo. Esse conceito não é novo, frequenta a filosofia de autoajuda faz tempo e nos serve muito, quando estamos falando de processos de mudança.

Como já tive a oportunidade de escrever em outros textos, ansiamos por estarmos emocionalmente aptos a enfrentar esse processo de ir em direção a uma nova realidade. Queremos estar animados para o novo começo e isso não é possível, como expliquei acima. O máximo que se consegue, quando a mudança pode representar o fim de uma longa agonia é uma alegria misturada com tensão, que é esse medo diante do novo. Dizemos a nós mesmos: “Vai dar certo, eu sei !”

Não, não sabe. Se soubesse não precisaria estar repetindo segurando a medalhinha. Lembrando que “fé” é acreditar no que não sabemos.

Voltando ao começo desse texto, digo que a saída é a seguinte: se não tem como termos essa alegria/força/ânimo puro, diante do que nos espera, então, como fazer?

A resposta é simples, faça “por fora”, ou seja, mesmo a confiança e a certeza estando ausentes, tome as atitudes (ações) que representem que essa mudança já está em curso e sendo bem-sucedida. Mudando nossa realidade externa, nosso interior acompanhará essa mudança.

Tudo que esperamos que venha de dentro nunca é algo que sentiremos antes, mas somente depois. A “confiança”, qualidade aspirada por muitos, sempre é resultado de atitudes que deram certo. As primeiras, normalmente acompanhadas do medo. Por isso, não tem como se sentir confiante sem ter feito ainda. Parece óbvio, mas está longe de ser.

A “alegria” é sempre depois, nunca antes. É resultado de algo que aconteceu e ninguém fica alegre por algo que acontecerá, visto que isso está no futuro, sujeito a variáveis que podem não resultar no que se espera. Nesse caso, chamamos de “esperança”, sempre acompanhada do medo de não se concretizar.

Portanto, qualidades são depois, resultado de ações que tomamos sentindo receio e cheio de dúvidas. Em toda história de sucesso, sempre encontraremos no começo do relato o momento em que um grande risco foi corrido. O orgulho de quem conta a história nem é do resultado em si, mas de ter vencido a angústia diante da possibilidade de naufragar.

Dificilmente quem está em desordem interna, seja pelo que for, estará com suas coisas pessoais arrumadas. Nós e o mundo somos uma só coisa, indivisível. Justamente por isso, como já disse, o mundo precisa ser um caos. Temos oito bilhões de “mundos” convivendo e para que cada um possa Ser, nenhuma ordem deve estar pré-estabelecida.

Mudamos a mente pelo corpo e o corpo pela mente. A Yoga traz calma a mente, justamente por tirar a tensão dos músculos pelo alongamento, e uma criança é flexível  por não ter uma mente repleta de medos e crenças. Não há corpo saudável em uma mente desordenada e vice-versa.

Dificilmente atraímos para qualquer tipo de relacionamento alguém que seja oposto. Um mau momento pressupõe um mau encontro e escolhas idem.

Assim, mudar o externo é uma maneira mais rápida de mudar internamente mas, como tudo, precisa de compreensão. Quem age sabendo o motivo de estar fazendo tem um resultado mais sólido. De nada adianta repetir mil vezes que se é confiante, por exemplo, se não temos atitudes de confiança. Você poderá dizer que estaríamos mentindo a nós mesmos fazendo isso. Pode ser, no começo. Mas nunca esqueça que tudo que repetimos vira uma verdade pessoal. Mas isso só vale para atitudes, nunca para frases.

Observe como é difícil manter nossa vida financeira em ordem quando estamos em desequilíbrio, assim como nossos armários estão tão desarrumados quanto nossos pensamentos e emoções.

Tudo é resultado de ações ou da falta delas em nosso universo particular.

Outros mundos colidem com o nosso a todo momento e esse entrechocar de vontades e ânimos torna os resultados sempre imprevisíveis. Mas o que nos compete é fazer o que nos cabe para termos o que desejamos.

Quem toma uma ação nova já é “outro”, mesmo que seja com algum receio. O tornar-se outro, maior do que se era, seja por escolha ou imposição das circunstâncias precisa de uma alma maior. A antiga rasga por não se caber mais nela.

Portanto, pare de esperar que a confiança e todos os bons ventos se façam presentes para sua travessia. O bom marinheiro veleja com todo tipo de vento e só é bom porque sabe para onde vai.

Só uma resposta

No começo, foi só o silêncio.

O terapeuta já estava acostumado. O primeiro encontro é feito de expectativas, mas além delas, o cliente precisa sentir que pode falar, se expor com segurança e para isso não tem regra ou método. Intimidade que na vida real leva muito tempo, se constrói em minutos.

Depois de um breve suspiro, o homem começou a falar sobre sua vida. Da infância sem sustos em uma família que, como todas as outras, atravessava boas e más fases que nada impediram que ele e a irmã pudessem chegar à idade adulta. Falou como conheceu sua esposa, da dificuldade de terminar a faculdade e do emprego onde estava desde sempre, agora, como nunca, cheio de perspectivas. Viagens ao exterior pela empresa, cargo de chefia e, quem sabe um dia, tornar-se um diretor.

Em casa, o casamento estava indo muito bem com o filho de três anos que surpreendia a cada dia com suas descobertas e da lógica de pensamento que só as crianças podem ter.

Silêncio.

De repente, uma dor de garganta que não passava. Médicos comuns, receitas comuns. Passado um tempo, uma investigação mais profunda encontra nódulos e uma doença comum, que só de dizer o nome dá medo, em uma manifestação rara.

Em um dia, tudo desaba; sonhos, medo de deixar de existir quando a vida parecia sorrir todos os dias.

O médico das más notícias disse que ele não deveria deixar de acreditar. Mal prognóstico. Sem olhar nos olhos disse que ele poderia ter vinte por cento de chance e que o tratamento precisava começar imediatamente.

Enquanto o médico falava ele só conseguia sentir saudade da esposa, do filho e dos pais. Como dizer para mãe, para a esposa? Imaginar não ver o filho crescer lhe tirava o ar.

As lágrimas, represadas pela coragem masculina finalmente encontraram um porto seguro. Soluçava em desespero.

O terapeuta sustentava o olhar. Era o que podia fazer. Todos os livros que lera viraram em nada diante da vida real, como ele já sabia, faz tempo.

Quando a emoção lavou o que podia, um novo suspiro.

– Meu amigo me disse que você poderia me ajudar. Eu só queria entender.

Silêncio.

Precisamos de respostas. Elas são uma espécie de consolo, afinal, tudo precisa ter uma razão! O problema é justamente esse; muitas vezes não existe uma razão. Nossa imaginação busca onde pode preencher os espaços vazios da compreensão como uma forma de encontrar alguma justiça ou justificativa. Palavras que não começam iguais por coincidência.

O terapeuta moveu lentamente a cabeça.

– Não tem como entender, não é? Nunca fumei. Não tem sentido!

Choro.

Comentou que o filho não queria mais ir para a escola. Dizia que queria ficar em casa com pai, apesar de nunca falarem do assunto na presença dele. Nunca se engana uma criança e é fácil de entender o motivo: se para ela não existe passado e muito menos futuro, toda sua percepção se concentra no que está acontecendo. A professora, informada da situação, relata que o filho já não brincava e mostrava abatimento.

A esposa apenas dizia que tudo isso era um pesadelo que iria terminar. Como uma pessoa boa passaria por isso? A mãe sofria silenciosamente e o pai estava ao lado nas sessões de quimioterapia, mas não conseguia falar. Nos olhos, o medo do absurdo que devasta a razão.

Em duas semanas tudo estava desabando e o tratamento intensivo já mostrava suas marcas.

– Agarre-se a seus vinte por cento. O mesmo absurdo pode ser a sua chance. Disse-lhe o terapeuta.

– E se os oitenta vencerem?

– Você fez sua parte. O que contarão a seu filho é que você lutou, fez o que pode. Se em algum momento da vida, ele superar dificuldades baseados na sua luta, pode ser que tudo isso ganhe o sentido que você procura. Mesmo não sendo uma garantia de nada, é como pode dar certo. O mistério da vida é não ter lógica.

– Mas e o motivo, tem algum para isso estar acontecendo?

– Não tem, é o que nos diz a razão. O resto nós nunca saberemos. Pode ser só o que sabemos; uma doença infelizmente comum em uma manifestação rara.

Olhando para o chão ele parecia absorver essa resposta. De algum modo o acaso o absolvia.

– Isso me dá um alívio, de certa forma. Pode não ter mesmo um motivo.

O terapeuta demorou alguns segundos para responder:

– Carregamos culpa demais. É assim que se mantêm as pessoas sob controle. Faça o que deve ser feito, use sua força e fé. Se às vezes não existe uma razão, porque não usar o que está fora dela? Lute por cada dia a mais. Os milagres sempre são feitos por nós, no final.

– Só sinto saudade. Saudade de quem vejo todo o dia, tenho saudade até de mim.

Choro.

Silêncio.

Quando se despediram, um aperto de mão. Nos olhos uma leveza de quem pode falar, só falar. O homem que procurava respostas e o que não as tinha apertaram as mãos.

– Interessante, vim procura-lo atrás de entender. Você não tinha a resposta, mas de alguma forma estou melhor. Obrigado por não responder, talvez se me dissesse alguma coisa que eu precisasse acreditar, poderia aumentar minha angústia. Como saber se sua teoria era a certa? Ser simplesmente como é, foi a melhor resposta que encontrei.

Do aperto de mão, veio um abraço, rejeitado pelos manuais. Bobagens que não respeitam o que acontece em um encontro, na vida.

Um sorriso mútuo encerrou esse único encontro, que mudou os dois, cada um a seu jeito.

 Quando a porta abriu, o próximo cliente já esperava.

O terapeuta tinha alguns minutos. Molhou o rosto enquanto imaginava a dor sem sentido.

Ao olhar-se no espelho, pensou em perguntar para a imagem refletida: Por quê?

Eu e o Mundo

“Saiba,

Todo mundo foi neném

Einstein, Freud e Platão também

Hitler, Bush e Sadam Hussein

Quem tem grana e quem não tem

 Saiba:

Todo mundo teve infância

Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu

e também você e eu

Saiba,

Todo mundo teve medo

Mesmo que seja segredo

Nietzsche e Simone de Beauvoir

Fernandinho Beira-Mar

 Saiba,

Todo mundo vai morrer

Presidente, general ou rei

Anglo-saxão ou muçulmano

Todo e qualquer ser humano

 Saiba,

Todo mundo teve pai

Quem já foi e quem ainda vai

Lao Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé

Ghandi, Mike Tyson, Salomé

 Saiba,

Todo mundo teve mãe

Índios, africanos e alemães

Nero, Che Guevara, Pinochet

e também eu e você”.

                                                         Saiba – Arnaldo Antunes

Estamos a todo momento, quer queiramos ou não, sendo mudados pelo mundo e provocando mudanças. Em um primeiro momento dessa reflexão, parece que o mundo nos muda mais, afinal é mais forte e avassalador. Mas quem é, afinal, o Mundo?

O Mundo são as pessoas que encontro todo dia e que me modificam. Diz Deleuse, que só pensamos em conjunto e é verdade! É no encontro com o outro e com tudo que me rodeia e penso que me torno novo, imprevisível e indefinível. Existem encontros que nos enchem de alegria e essas pessoas nos mostram o que temos de melhor. Nelas, nos eternizamos positivamente, já que nos afetam para melhor e vice-versa. Nas que nos incomodam ou nos despertam raiva, poderíamos aproveitar para procurar entender o que temos em comum com elas que preferimos não ver. No fim, todas nos fazem ir adiante em cada encontro, sempre novo na essência já que chegamos ali trazendo mudanças de outras pessoas e da vida.

Aliás, buscamos definir tudo e todos com objetivo de termos alguma segurança e previsibilidade. Medo da mente que a vida ri com desdém, trazendo surpresas a cada segundo, bastando olhar em volta. Mas não adianta, queremos definir, explicar e congelar os outros, seja em uma definição seja em uma explicação boba sobre os porquês de tudo, seja por nos empurrarem uma reverência sem sentido a deuses com pés de barro, como bem disse Nietzsche.

O Mundo é o clima, o acidente que aconteceu em algum lugar que a internet informou em tempo real para que imaginasse que poderia acontecer comigo. O Mundo é a angústia que dá assistindo um idiota sentado no trono dizendo que produzir é mais importante que o ar que respiramos. O Mundo também é um sorriso de indisfarçável alegria quando um touro mata o toureiro na Espanha e mostra que o torturador também encontra uma réstia de justiça em algum momento. E o mundo é, principalmente, aquelas pessoas que fazem você descobrir coisas a seu respeito que nem imagina que é ou sabe.

O Mundo me muda quando noto que tudo está sempre por um triz em um eterno jogo de coincidências bizarras que dá uma sensação de ignorância só de tentar entender algum nexo entre elas. O Mundo me muda em uma paisagem do final de tarde onde me permito parar e ver como a natureza funciona com perfeição em um belo quadro de cores, mas que ela também deve ter seus motivos para as enchentes e terremotos que podem me mudar e tirar a vida e sonhos de tantos sem que encontremos um motivo. Na verdade, tudo muda quando percebo que procurar os motivos de forças maiores que eu, é uma grande perda de tempo, aliás, pode nem ter mesmo algum motivo.

O mundo me muda quando a realidade mostra que as histórias que ouvi desde pequeno, contadas por pessoas queridas que tinham tanto medo desse desamparo, que podem ter feito mais mal do que bem, quando tiraram de mim a capacidade de mudar meus caminhos, sujeitando minhas decisões a alguma benção superior vindo de um lugar onde, pelo visto, não tem ninguém e se tiver, só assiste, não sei se rindo ou chorando.

O mundo me muda em pequenos gestos carinhosos, em olhares assustados e de pessoas que me criticam por tê-las de alguma forma, feito perder o encanto dos mundos de “faz de conta” que posso ter mostrado que nunca existiram.

E, no fim, é nisso que eu e você mudamos o Mundo. Sendo do jeito que somos, levando alegria e tristeza na forma em que os outros nos interpretam, apesar do mundo e suas forças gigantescas. Quando estamos no Mundo o mudamos, quer queiramos ou não, sejamos percebidos ou não, alteramos o destino do planeta e de muita gente todos os dias. Gente que conheço e nunca conhecerei, mas que será afetado por alguém que um dia me conheceu. Mas não esqueça, falo de mim e de você, que também tem essa força e pode, de alguma forma, escolher como quer afetar o mundo e ser afetado por ele. Escolha que tem pouco alcance sobre forças tão poderosas, mas afinal, fazer nossa parte é uma chance real de que aconteça o que desejo.

Mesmo quando em pequenos encontros, desencontros, acidentes e até mesmo em um “bom dia” podemos mudar a vida de quem nos viu e ouviu. Poderemos até em nosso último ato, quando alguns souberem que nos retiramos do mundo para ir morar em outro ou em nenhum, que lembrarão de nós com alegria ou tristeza e que, no segundo seguinte esse sentimento os fará fazer isso ou aquilo. Sem que percebam que estamos por trás dessa escolha e de tantas outras que virão, em um eco de eternidade.

O Mundo ou a vida é o resultado de todos que já viveram, vivem e de tudo que já aconteceu, acontece e até do que imaginamos que poderá acontecer. Aliás, imaginar muda mais o mundo do que a realidade, pois somos e sentimos não o que o mundo é, mas só o que imaginamos que o mundo seja.

E assim vamos mudando e sendo mudados a cada instante e fico pensando como alguém pode acreditar em destino com tantas coisas incontroláveis a nossa volta nos tornando um resultado cada vez mais improvável dessa química entre cada um de nós e o Mundo.

Nem percebo que posso escolher lembrar que tudo isso torna a vida algo sempre inédito. Afinal, se nem eu e mundo somos os mesmos por estarmos nos mudando o tempo todo, conseguir ver tudo como se fosse a primeira vez, e é, pode no fim dar a única explicação que a razão aceita.

Deve ser por isso que só as crianças e os loucos não têm medo, já que para eles passado e futuro simplesmente não existem, são alucinações dessa gente normal que afeta o mundo e o deixa desse jeito triste, que nos adoece só de pensar.

Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril