Camus e o Absurdo

“O Homem absurdo não realiza esse nivelamento (do sacrifício pelo racional ou irracional). Ele reconhece a luta, não despreza em absoluto a razão e administra o irracional. Recobre assim com o olhar todos os dados da experiência e está pouco disposto a saltar*. Ele sabe que nessa consciência atenta, já não há lugar para a esperança.”                

                                                           Albert Camus – O mito de Sísifo

 

“Para dizer que a vida é absurda, a consciência tem a necessidade de estar viva.”

 

                                                            Albert Camus – O Homem revoltado

                                                                                                                                                                         Empurrar a pedra

Essa é a história do mito de Sísifo:

“Sísifo era um pastor de ovelhas e filho de Éolo, o deus dos ventos. Era tido como a pessoa mais ardilosa que já existiu. Morava num povoado chamado Éfira e, ao melhorar as condições do lugar, passou a chamá-lo de Corinto, que mais tarde se tornou uma grande cidade. Casou-se com Mérope, filha do deus Atlas e que compõe uma das plêiades.

Um dia, Sísifo percebeu que seu rebanho diminuíra. Estava sendo roubado. Então, marcou suas ovelhas, seguiu o rasto delas e foi dar na casa de Autólico. Arrolou testemunhas da ladroagem e enquanto os vizinhos discutiam sobre o roubo, rodeou a casa em busca de mais alguma ovelha e encontrou a filha do ladrão, Anticleia. Seduziu-a e a engravidou, vingando-se do malfeitor.

Voltando para casa, Sísifo, que andava sempre escondido, presenciou Zeus, o deus do Olimpo, raptando Egina, filha de Asopo. Não deu outra, aproveitando-se do fato, Sísifo, em troca da construção de um poço para sua cidade, entregou o deus sedutor. Claro que Zeus ficou sabendo que Sísifo o tinha dedurado, então pediu que seu irmão Efaístos o levasse para o Hades, mundo subterrâneo onde viviam as almas condenadas.

Pressentindo a fúria de Zeus, Sísifo pede à esposa que não o enterrasse após sua morte e, chegando ao Hades, arma uma cilada para Efaístos e o aprisiona. Conversa com Perséfone, a esposa do deus, e a persuade a deixá-lo voltar e organizar o seu funeral, além de punir os que negligenciaram seu enterro. Ela lhe concede a volta por apenas três dias. Mas, voltando à superfície, ele passa a viver normalmente com sua esposa, como se nada tivesse acontecido.

Vendo aquele absurdo, pois ninguém deveria enganar a morte, Zeus ordenou que Hermes o conduzisse novamente ao Hades e que lá recebesse um castigo exemplar. Deveria rolar uma enorme pedra morro acima, até o topo. Porém, chegando lá, o esforço despendido o deixaria tão exangue que a pedra se lhe soltaria e rolaria morro abaixo. No dia seguinte, o processo se daria novamente, e assim pela eternidade, como forma de envergonhá-lo pela sua esperteza em querer enganar os deuses e a morte.”

Nenhum de nós voltou do mundo dos mortos, pelo menos que possamos provar. Mas como Sísifo, rolamos nossa pedra todos os dias, repetindo rotinas, talvez para não nos depararmos com uma vida que não tenha sentido.

Albert Camus viveu pouco (1913-1960), apenas 46 anos. Não foi filósofo, mas fez muita filosofia com seus ensaios e livros. Aliás, ele mesmo dizia que para fazer filosofia bastava escrever um romance. Conviveu de perto com os horrores da segunda guerra e foi testemunha de milhões de mortes por conta de poder e riqueza, disfarçada de ideologia. Seus livros são fáceis de ler e renderam o prêmio Nobel. Questionam o sentido da vida, os valores e como abrimos mão de viver sem perceber.

Podemos até não lembrar, mas em algum momento, lá no começo da vida nos deparamos com um grande absurdo; um mundo hostil, incontrolável e que pode nos afetar de diversas formas sem que nada possamos fazer. Como já escrevi em artigos anteriores, é aí que surgem todas as espécies de deuses e superstições para nos dar duas coisas: Em primeiro, que tem “alguém” que faz isso tudo terminar bem, em segundo, que toda essa falta de lógica absurda está sob controle. Bom para crianças assustadas, mas incrivelmente funciona com adultos!

Camus chamava essa sensação de insegurança, de um certo exílio de “Absurdo”. Nossa mente precisa entender a lógica de tudo e o mundo a frustra com o caos. Encarar o Absurdo é no fim a única evolução possível e o salto* é a fuga que não resolve. O meio termo entre a razão e a fé, difícil de conseguir pois exige uma razão trabalhada pelo conhecimento e uma abertura para o transcendente, pode trazer uma quietude em meio a tudo que parece não fazer sentido, sempre fora de nós, nunca esqueça!

O mundo nunca poderá ter um sentido, já que só assim cada um de nós poderá ter sua identidade, ou seja, impor a vida seu sentido particular, que transforma o mundo. A vida então é a mistura de pessoas que encontram seu sentido e o vivem e daqueles que sofrem por não o encontrar. Para os que estão inquietos e insatisfeitos, resta rolar sua pedra todo dia, esperando pela superstição, que o sentido vá ser encontrado fora de si, em um outro mundo, talvez, já que esse tipo de vida é seu destino.

Diante do Absurdo, Camus diz que o homem só pode encontrar três caminhos; o suicídio, a esperança e a relação direta com o Absurdo.

É provável que o “aumento” do mundo via tecnologia tenha ajudado a crescer o número de pessoas que procuram abreviar a vida pela falta de sentido. Nas palavras do próprio Camus no ensaio sobre Sísifo: “…matar-se é confessar que fomos superados pela vida, que não a entendemos.” Suicidar-se é então vencer a própria natureza biológica, que luta para sobreviver, reconhecendo que não há finalidade para a vida, que o sofrimento é totalmente inútil, que não nos trará nenhum benefício. Deve ser por isso que as religiões cortam do suicida todos os benefícios do “paraíso”. Se quiser ir para lá, sofra acreditando que valerá a pena! Quando a pessoa desiste pela angústia, nem uma vida eterna vale a pena ser esperada.

A saída da “esperança”, vem de esperar, ou seja, confiar que as promessas de uma outra vida melhor, onde todos que foram purificados do sofrimento nesse mundo de dor que vivemos terão sua recompensa. Não é de estranhar que isso também ajuda a explicar a exploração do presente em troca de férias eternas. Todas as superstições oferecem um sentido para a vida antes da vida. Já nascemos sabendo o que podemos e não fazer para conseguir o prêmio da eternidade. Essa fórmula está fazendo cada vez mais vítimas, já que as empurra para essa inquietação, por impedir o crescimento ou evolução que só pode acontecer quando a pessoa encontra seu próprio sentido. O sentido da vida é encontrado somente na vida e nunca fora ou antes dela, muito menos depois! Colocar na vida seu sentido no “antes” (receita do que se deve fazer), ou no “depois” (paraísos) nada mais é que a negação da vida enquanto inédita, imprevisível e cheia de variantes. Fora da realidade, é uma ilusão para tentar não ver o mundo com sua imprevisibilidade.

Apostar na crença (sempre incerta) é uma espécie de auto abandono. Ficamos à deriva, confiando que dará tudo certo, já que tem algo maior, a esperança na sua pior tradução. Esse é o terreno fértil onde brotam todas as saídas místicas, poder fora do homem, que o apequena e o torna indefeso. Mas o pior é que as crenças sempre nos oferecem uma visão da vida restrita, com poucas possibilidades, limitada a seus códigos de conduta. Tudo que não consta neles é errado e do mal. Assim, a criança nunca cresce, já que vê a vida por uma pequena fresta, apenas.

Cada um é resultado do que a vida e seus encontros trouxeram. E é essa pessoa em constante mudança que encontra seu sentido, aquilo que os antigos gregos chamavam de “dom”, que, se vivenciado, dá sentido à vida e torna o mundo melhor. Penso que não temos apenas um dom, mas vários que vão surgindo à medida que existe o encontro da ação com quem está apto a executá-la.

É cada vez maior o número de pessoas que se descobrem infelizes, estando com os padrões de felicidade atendidos pela cultura. Mesmo que ganhem dinheiro e tenham tudo que querem ainda assim precisam se drogar de diversas formas e mesmo acabar com suas vidas. Falta o sentido, foram devoradas pelo Absurdo!

A relação com o Absurdo vem de entender que precisamos crescer continuamente. Aprender coisas novas, ter novos encontros com a vida que nos tragam novos pensamentos e tornar tudo isso algo concreto.  É isso que nos traz uma identidade, ser reconhecido por fazer diferença, ser alguém na multidão. Quando isso acontece, tudo se encaixa e o Absurdo não mais incomoda, já que se a vida está sendo “vivida”, com sentido, então morrer faz parte, tudo bem!

Revoltar-se diante do absurdo é compreendê-lo. E isso acontece quando colocamos um valor acima de nós mesmos. Não é isso que faz os mártires?

De todos os valores, a vida é o maior deles! Mas se a vida não tem sentido a priori, se o sentido é encontrado nela própria é preciso entender que isso nunca será uma política. O sentido quando encontrado traz a liberdade como ganho colateral. O mundo do jeito que é, e só vai piorar, precisa de pessoas que nunca encontrem sentido, para que rolem suas pedras todos dos dias, produzindo mercadorias que elas próprias consumirão em uma mecanicidade que afasta do ato de viver todo brilho e razão.

O que resta quando as forças fraquejam, quando a empurrar a pedra vai perdendo o sentido pelos flashes de razão que temos vez por outra, é mesmo esperar que exista outro lugar onde serei reconhecido por todo dia empurrar morro acima uma pedra que nunca estará lá e se estiver, não fará diferença. Por isso, é melhor mesmo que ela role para baixo todos os dias. Se um dia, conseguir vencer o cansaço e colocar a pedra lá em cima e descobrir que isso foi só para passar meu tempo (vida) será o pior que tudo.

Leia Camus, se revolte (no bom sentido), e deixe a pedra para quem acha que empurrá-la está certo.

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Para saber mais:

http://www.saberepreciso.com/2013/02/o-mito-de-sisifo.html

https://razaoinadequada.com/2018/01/24/camus-o-salto/

*Saltar – Escapar da vida, seja pela razão, seja pela superstição.

Albert Camus – O mito de Sísifo, ed. Bestbolso

Albert Camus – O Homem revoltado, ed. Record

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