Barolo

No centro da pequena mesa circular duas taças de vinho e dois copos com água.

Amigos a mais de trinta anos conversavam sobre quando se conheceram na primeira reunião da confraria que dura até hoje.  Dos “fundadores” alguns já não estavam mais e eram lembrados com um brinde, depois dos seus nomes serem chamados pelo presidente a cada encontro mensal. Essa era a maneira de homenagear aqueles que partiram. Foi ideia do fundador e fazia parte do regulamento dessa agradável convivência.

O que aproximou esses dois amantes do vinho foram suas preferências. Eram apaixonados por vinhos italianos e certa vez fizeram uma viagem de férias para as regiões dos mais famosos produtores da terra da “bota”. Nessa ocasião, em uma época em que nossa moeda tinha mais força, deram-se de presente uma garrafa de uma safra muito especial de um Barolo produzido em 1995. Hoje, essa garrafa teria um valor altíssimo e eles sempre adiavam o momento de abri-la, esperando uma situação ideal.

Sem um motivo aparente, o mais velho ligou e disse:

– No próximo sábado, vamos abrir. Chegou a hora!

O outro apenas concordou e ficou pensando o que teria levado o amigo, finalmente a marcar essa data esperada há anos.

Estavam silenciosos, enquanto o vinho “respirava” nas taças altas e largas. Depois de aberto, o vinho vai, à medida que o tempo passa, apresentando uma infinidade de aromas enquanto entra em contato com o oxigênio. Os amantes dos vinhos fazem disso um ritual. Antes do primeiro gole, é preciso essa reverência, de esperar que o vinho atinja seu apogeu. Vão girando a taça, vez por outra, para que esses aromas que identificam sua categoria vão se mostrando. O prazer não é só gustativo, mas olfativo. Um grande vinho é sempre uma ocasião.

O Barolo é um clássico no mundo dos vinhos, como a Ferrari, também italiana, é para os carros. O vinho estava há mais de 20 anos na garrafa esperando o momento de ser aberto e mostrar toda sua grandeza.

– Lembra quando compramos?

– Claro! Principalmente do quanto pagamos. Disse seguido de um longo suspiro.

– Se arrependeu?

– Em alguns momentos sim. Mas hoje vejo que aproveitamos uma oportunidade e podemos estar aqui e desfrutar. A vida dá voltas e quando vamos chegando nessa idade, nos damos conta que são os momentos especiais que ficam. O Piemonte é um belo lugar, aliás a Itália toda é bela. As imagens, passeios e degustações daquela viagem estão muito bem guardadas na memória. Hoje vejo que fizemos um grande investimento e estamos aqui agora para resgatá-lo.

– Não esqueça que esse é um “Riserva Speciale”, ficou cinco anos em envelhecimento antes de ser colocado à venda. Agora, passados mais de quinze anos ele está no auge, vamos aproveitar o momento!

Os minutos foram passando e o silêncio reinou entre os dois, que se deliciavam com a cor e os aromas que iam se desprendendo. Conforme o combinado quando compraram a garrafa, no dia em que fossem abri-la estariam de terno, afinal, ocasião é ocasião!

Depois de algum tempo, o anfitrião disse:

– O que você acha?

– Os aromas de ameixa seca, baunilha, alcaçuz, rosas e uma nota de chocolate. Que maravilha!

– Está perfeito! Em época de facebook, se postássemos uma foto desse vinho seríamos visitados pela Receita Federal e poderíamos ser incluídos na operação lava jato.

Riram juntos. Depois, quando pegou a taça para brindar disse emocionado:

– Vamos brindar a amizade, a alegria de estarmos confraternizando a tanto tempo!

– Verdade! O vinho nos aproximou, juntou nossas famílias e passamos bons e maus momentos. É justo que possamos brindar com esse exemplar raro. Nós sempre gostamos dos vinhos italianos e teríamos que marcar com um Barolo, apesar do Brunello merecer nosso respeito. Mas antes de bebermos, porque hoje?

– Sabe amigo, hoje temos uma idade em que, por nos cuidarmos muito mais do que quando nos conhecemos, quer significar que não podemos correr o risco de deixarmos essa garrafa de herança. Quem não sabe o que ela representa e vale, pode bem fazer um sagu com ele. Apenas senti que era hora, só isso.

Havia na voz dele um uma emoção contida. O amigo pensou ser por estarem fazendo o que esperaram por tanto tempo e preferiu não alongar as perguntas.

– Saúde, querido amigo!

– Saúde!

Depois de tomarem o primeiro gole, abriram um largo sorriso.

Enquanto os 750 mililitros eram sorvidos vagarosamente, intercalados com um pouco de água para que percebessem todas as nuances a cada gole, lembraram da viagem e da vida que se seguiu.

Como sempre, o vinho encaminha para uma conversa filosófica, sobre assuntos que, normalmente, não fazem parte do dia a dia.  O som ambiente tinha Billie Holiday, Etta James e Diana Krall que era uma cortesia ao amigo visitante e não se falou sobre política, assunto onde divergiam. Sobre isso, aliás, só tiveram uma discussão e depois de alguns anos, quando viram seus candidatos da época na mesma coligação na eleição seguinte, prometeram nunca mais falar sobre isso.

Depois da última gota, um deles perguntou:

– E agora? Esperamos isso faz tanto tempo, foi maravilhoso, exatamente o que planejamos quando compramos. Iríamos esperar que crescesse e amadurecesse com o tempo, como nossos filhos. Agora não te dá uma sensação de vazio?

Emocionado, o mais velho balbuciou:

– Dá sim.

Na hora de ir embora, um longo e emocionado abraço foi interpretado pelas esposas como efeito da alegria que só um Barolo poderia causar.

Alguns dias depois, veio a notícia que o amigo havia sido hospitalizado. Quando ligou para saber notícias, ouviu da esposa que era grave. Havia descoberto em um exame de rotina há algumas semanas e não contara para ninguém.

Agora ele tinha a resposta; a garrafa fora aberta como uma despedida e o amigo pode entender a piada, mas agora não tinha graça.

Na reunião seguinte da confraria, havia aquele silêncio que marcava a ausência definitiva de um deles.

O presidente deu início ao protocolo. As taças foram servidas e as vazias que excediam os presentes representava os que haviam partido. Os nomes eram chamados em voz alta, com a taça erguida cada um respondia:

– Saúde!

O nome do amigo foi repetido três vezes e sua taça foi colocada no centro da mesa. Aquela noite seria em sua homenagem.

Dessa vez o vinho os uniria na tristeza.

1 Comentário

  1. Mizael Gomes   •  

    Olá Eduardo…

    Parabéns pelas palavras, história magnífica envolvendo vinho, amizade e despedida!

    Abraço!

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