Até onde chegamos?

neandertal espelho

         “ Só os santos são realmente humanos”

Abraham Maslow

É curioso pensarmos que, apesar de toda a “tecnologia” que dispomos nos lugares onde temos os melhores recursos médicos, ainda não conseguimos dobrar a expectativa de vida nesses dois mil e doze anos depois do nascimento de Cristo.

Quando lembramos a lenda de Sara, esposa de Abraão, que achou graça quando ouviu que ficaria grávida poderemos entender melhor isso. Disse ela ser impossível, afinal já era uma mulher velha. Importante lembrar que naquela época, poucos passavam dos quarenta anos. Passado todo esse tempo a medicina evoluiu tanto que não temos nem como colocar parâmetro de comparação com a época de Sara. Por outro lado, estudos são praticamente unânimes em afirmar que poderíamos viver bem até, pelo menos, 110 anos…

O que acontece para ainda estarmos longe dessa expectativa?

Penso que a maneira como vivemos ainda está longe de acompanhar os recursos tecnológicos. Na verdade, pouca coisa mudou para melhor e outras ainda pioraram. Ainda estamos em guerra de alguma forma. Da época de Cristo até hoje, não tivemos um dia sequer de paz no mundo. Em algum lugar, seja pelo motivo que for: conquistar territórios com algum tipo de riqueza, motivos religiosos (pasmem!), de ideologia política (essa é ainda mais primitiva e tão absurda quanto a religiosa); os “seres humanos” continuam se matando de forma bárbara. Nenhum animal irracional que habita esse planeta mata sem que sua sobrevivência esteja em jogo ou destrói o lugar onde vive, afinal o fato de ser irracional não quer dizer que seja burro.

Apesar de toda a abundância, continuamos vivendo e educando nossos filhos pelo paradigma da escassez e do medo e nem sequer pensamos em questionar tamanho absurdo. Fomos criados e criamos as futuras gerações com medo, seja de passar necessidades, de ficar só, de não ser reconhecido, etc. Dentro desse modo de pensar, não há corpo que aguente tanta pressão e chegamos ao ponto de termos na ansiedade o mal de século XXI, e nem poderia ser diferente.

O fim das fronteiras econômicas foi fácil de ser conseguido, já que se baseia em um dos nossos mais básicos instintos que é a ambição, ajudou a dissolver da cultura mundial, alguns oásis de bom senso no que se refere à maneira de viver. A ansiedade e suas consequências como problemas cardíacos, por exemplo, sempre foi uma prerrogativa do ocidente, onde o materialismo é sua principal religião. Como toda a religião se caracteriza pela prática de seus ensinamentos na vida diária, o materialismo pode e deve ser mesmo considerado um jeito religioso de se viver. De nada adianta frequentar qualquer templo uma vez por semana ou fazer orações diárias se o paradigma não for mudado e colocado em prática nos nossos atos.

Continuamos também a prática de nos alimentarmos de violência e destruição. Já foi necessário nos tempos das cavernas onde a gordura animal era necessária para enfrentar o frio e obter proteína, mas continua inalterado, como se não houvesse evolução nisso. Hoje temos formas bem mais elegantes e ecológicas, mas nisso ainda não passamos da aurora da humanidade. Temos tecnologia por todos os lados, demonstrando uma absurda diferença entre as eras, mas nesses aspectos quase não saímos do lugar.

Hoje “evoluímos” para o crescimento “sustentável” como se isso fosse possível! Nenhuma destruição da natureza pode ser sustentável, basta só pensar alguns segundos. O correto é dizermos que hoje nos preocupamos em causar menores danos, desde que isso não impeça o crescimento econômico, é claro. Estamos nos sufocando e programando o dia em que uma garrafa d’agua será comprada em uma joalheria, sendo consumida com toda a ritualística que temos hoje com aquele vinho caro de uma safra única.

De alguns anos para cá, essa perspectiva se tornou tão clara que foi necessário colocar na escola, na formação das novas gerações, esse pensamento preservacionista, já que os pais estão irremediavelmente perdidos e pensam como Sara, ou seja, é impossível mudar esse jeito de pensar e viver.

Alcoolismo, depressão, ansiedade, obesidade e drogas não estão no “topo das paradas” por acaso. É resultado de um pensamento que não evolui. De nada adianta  toda a eletrônica, os programas e confortos que tornam nossa vida mais fácil e confortável. A humanidade está doente. É como se uma pessoa de 40 anos estivesse apresentando o comportamento de uma criança.

Viver com medo mantém minha percepção sempre no futuro e projetando de forma sombria a vida, transformando minha realidade (cada um tem a sua baseada na sua imaginação) em um angustiante dia-a-dia, esperando que chegue o momento em que  alguma fortuna me traga paz e possa então descansar. Enquanto esse dia não chega, vou me anestesiando, perdendo os milagres diários da vida, pensando em fugir da morte. Temos a natureza e, principalmente as crianças para observar e aprender como devemos viver, e mantemos modelos falidos e ultrapassados pelo tempo. Sentimo-nos superiores aos animais e vivemos piores do que eles, ainda sem conseguir atingir a expectativa de vida que nos foi ofertada pela criação.

Passados centenas de milhares de anos, continuamos esperando que algum deus apareça ou envie algum mensageiro para nos dizer o que fazer e eliminar nosso sofrimento. Essa dificuldade em assumir o próprio destino mostra que a humanidade ainda é infantil, contando que o “papai” protetor aparecerá no final da história para nos salvar e perdoar nossos equívocos.

A violência e barbárie desse mundo primitivo que vivemos está banalizada pelas imagens diárias dos seriados e da internet. Paul MacCartney disse certa vez que as crianças precisavam visitar os abatedouros para tomarem suas próprias decisões. Nesse dia ele estava tão inspirado quanto em suas melhores melodias. Convivemos com lugares do planeta em que gente como nós morre de fome e de doenças simples que afronta e mostra nosso egoísmo. O mesmo que punimos em nossos filhos quando eles não dividem o brinquedo com o amiguinho.

Não aprendemos ainda, com aqueles que sempre existiram em harmonia, e que fizemos questão de matar e depreciar, que o planeta é um organismo vivo, que como tudo, precisa de cuidado e respeito. Os antigos adoravam o Sol como o grande Deus. E não é? Afinal, sem ele morreríamos todos! Essa constatação não precisa de fé, é fato!

Precisamos de deuses novos com esse enfoque, quem sabe assim nos salvamos de uma morte lenta e agonizante de falta de ar e sede, confortavelmente instalados em camas de alta tecnologia e ar condicionado. Os deuses de sempre, infelizmente, não deram resultado, como podemos facilmente observar.

2 Comentários

  1. Rubens Hochapfel   •  

    Muito bom ter abordado este assunto vital. Observamos tudo ao nosso redor e queremos soluções e esquecemos nosso deus interior que tem todas as respostas, é só consultar. Mas aprendemos a procurar soluções de fora para dentro ou meio dentro, já que tudo tem que ser automático sem esforço ou mudança. Parar de pensar no o que e como e viver no não pensar e ainda assim alcançar o que precisamos. Viver a vida!

  2. Henry   •  

    Mestre,
    Concordo plenamente contigo!

    Para completar a idéia de Sir Paul, eu diria que enquanto ficarmos oferecendo jogos eletrônicos violentos (não só os jogos, mas também os desenhos animados e tudo que eles representam) às crianças em que “matar” ganha ponto, o sentido de manter a vida (qualquer que seja) é perdido!
    Lembro de um amigo que dizia que, o filho dele jogava esses jogos (pra se manter atualizado com os amigos da escola!), mas ele não deixava de levá-lo a um cemitério, num funeral, para ele ver e sentir que a morte, na realidade, não ganha ponto! Muito pelo contrário, gera dor e sofrimento!
    Ótima estratégia educacional, que recebia críticas duras de todos os “espertos” adultos!
    Bem, com o passar do tempo, podemos ver, mesmo de longe, que seu filho está se tornando um jovem mais respeitador e mantenedor da(s) vida(s) que ele tem influência!

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