ALGUÉM ZELA POR NÓS?

“Cada haste de relva tem seu Anjo,

que se inclina sobre ela e sussurra:

cresce, cresce.”

Talmude

Várias religiões e filosofias defendem a ideia de que existe algo ou alguém, destituído de um corpo físico que desde o nosso nascimento zela por nós. Esse acompanhante, segundo essa crença, possui um nível evolutivo superior ao nosso e tem por função nos ajudar em nosso desenvolvimento e, há quem diga, que também cuida de nos tirar de algumas enrascadas que nos metemos pela nossa infantil percepção. Para uns são os Anjos da Guarda, para outros são chamados de Mestres e assim por diante.

A questão que se coloca é se realmente somos tão infantis assim, que, pela vida toda,  temos a necessidade desse guardião estar atento durante 24 horas por dia nos sete dias da semana. As crianças, segundo a crença popular, precisam desse amigo ainda mais atento para evitar que se machuquem, já que não tem ainda o medo de morrer e são repletas de curiosidade. Qualidades essas que, depois de algum tempo, a maioria perde e cai no sono da “normose” levando seu protetor a um tédio, imagino, só mesmo suportável por quem tem uma missão divina.

Fico sempre pensando quando ouço alguém dizer que seu “santo é forte” como andamos mesmo à deriva pela vida. Como necessitamos acreditar na sorte ou azar para justificar nossas ações totalmente inconscientes e termos essa “carta na manga” que é o nosso anjo ou nosso santo predileto a quem recorremos quando nossas possibilidades se extinguem. E, dentro dessa multidão de necessidades, temos os responsáveis por nos arranjarem um cônjuge, a achar coisas perdidas e até mesmo, nos proteger durante as tempestades, onde a natureza mostra sua força e as crianças de todas as idades temem o castigo do papai. Além é claro do anjo que vem nos buscar quando termina nossa passagem, vestido solenemente de preto, como não poderia deixar de ser! Já que vivemos uma época de especialistas por todos os lados, porque não no céu também?

Nosso anjo é essa parte de nós que nos empurra para a evolução, que se deposita nas profundezas de nossa psique e que chamamos de Self, Eu superior, Atman (e tantos outros nomes), que sempre nos diz o que realmente queremos e onde precisamos chegar para nos sentirmos realmente plenos e libertos desses medos que aprendemos e que formam uma parede, atrás da qual se esconde nossa natureza essencial.

O nome não importa tanto quanto tomarmos essa consciência. Os meditadores mais experientes dizem ter encontrado esse ponto de silêncio que os preenche completamente ao suplantar a mente agitada e medrosa que não para de falar que poderemos passar por dificuldades e que tudo dará errado. Dizem eles que essa paz atrás da mente é o paraíso (nirvana), onde tudo fica claro e se enxerga a verdade, sempre escondida pelas nossas interpretações provindas da nossa domesticação.

Carl Jung dizia que os anjos eram “amorais” em certo sentido e, refletindo sobre isso, concluo que isso é mesmo verdadeiro, já que tem horas que o nosso “anjo” ou “eu superior” nos recomenda o que não está dentro da cartilha de certo e errado que cumprimos. Nem sempre o que precisamos e para onde devemos ir é certo para a maioria e sempre que isso acontece, mesmo antes de fazer seja o que for, vem a culpa de desafiar o que está estabelecido.

Meister Eckhart dizia que os anjos representavam as ideias de Deus e para Jung os anjos personificavam a tomada de consciência de algo novo que vem do inconsciente mais profundo, ou seja, quando tomamos ciência de nós mesmos e da nossa trajetória. Assim, consciente e inconsciente ou o lado externo e interno são reconciliados pelo “anjo” que evita que nossa vida se desorganize e se torne um desastre. Temos em nós essa parte ou anjo que mantém um mínimo de equilíbrio e passamos a vida sem tomar ciência da sua existência, apenas usufruindo de seu trabalho.

Já tive oportunidade de escrever em artigos anteriores que sempre observo que as pessoas sempre, sempre sabem o que realmente querem e o que precisam fazer. O que ocorre, é que muitas vezes isso está encoberto da consciência pelo medo. Nosso “eu” saudável está sempre clamando por atenção, mas sua voz ainda é baixa se comparada a que ouvimos desde sempre.

Dizem que Deus se manifesta pela boca dos homens e isso é a mais pura verdade. Nós, de alguma forma, já cumprimos essa tarefa quando prestamos alguma ajuda ou uma palavra desinteressada a alguém que podemos até nem conhecer. Esses são os “anjos” genéricos, que somos em alguns momentos, e outros o tempo todo por vocação.

Cabe-nos, evolutivamente, buscarmos incessantemente nos ouvirmos mais ou nosso anjo, como queiram. Não importa sua crença, o que realmente importa é estarmos disponíveis e de ouvidos bem atentos ao que vem de dentro de nós, a essa voz amorosa que quer nos levar a frente para enfrentar com naturalidade as dificuldades que a vida pode ou não nos trazer, mas que fazem parte do caminho. Só com algum silêncio interior será possível essa “conversa”.

Tenho certeza que de alguma forma todos já passamos pela experiência de perceber que o enfrentamento foi muito mais fácil do que se imaginava e nos lamentamos por não termos tido coragem antes. Nosso problema é que sempre esperamos o último momento, já quando não se aguenta mais. Até então esperávamos o milagre, mas nosso bom anjo sabe que precisamos mesmo é enfrentar para aprendermos a não confiar no medo.

É isso que o Talmude quer dizer com esse “anjo”, ou pelo menos é assim que interpreto, já que sei que temos essa liberdade de sermos o que nossos atos mostram, queiramos ou não. Isso é livre arbítrio, onde a inteligência indescritível que permeia tudo que nos cerca, confia que buscaremos sempre o melhor caminho em busca de evolução.

Tem “alguém” dizendo em seu ouvido: cresce, cresce!

2 Comentários

  1. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Ao nos referirmos a anjos o que acho mais estranho é termos sempre um “demônio”, o que sugere, desde o começo a inutilidade de ambos como protetores e destruidores, e que nos leva – ao escutar “cresça, cresça”- que somos nós mesmos, e como em outro provérbio prevalecerá aquele a quem alimentarmos, o que poderia sugerir – numa escolha errada – em “desça, desça”.
    Portanto, somos os responsáveis, estamos sozinhos, ou melhor, acompanhados de nós mesmos, meio escondidos, ou nos escondendo e inventando seres aos quais possamos culpar ou agradecer por todas as escolhas certas ou erradas que foram feitas.
    Portanto, anjos e demônios e deuses é tudo bobagem.

  2. Mónica Chaby   •  

    Que imagem tão bonita! Cada ser, por mais pequeno e aparentemente insignificante é acarinhado e protegido, o que demonstra a importância e carácter divino de tudo o que existe. Pensar que em todos os momentos usufruimos desse amor incondicional, desse apoio constante é muito bom :)

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