A utopia chamada PERDÃO

“E, quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial perdoe os seus pecados. Mas, se vocês não perdoarem, também o seu Pai que está nos céus não perdoará os seus pecados”.

Marcos 11:25-26

                                                                                                                                                                    perdao3

Uma das coisas mais difíceis é perdoar, justamente por que o tipo de perdão que as religiões exigem é tão complicado que se torna quase impossível de ser conseguido, já que nossa mente não foi projetada para isso. E, nesses casos, torna-se algo muito irônico, já que a pessoa que foi machucada ou ofendida por outrem, sente-se culpada por não conseguir o tipo de perdão que se exige e que se pede para ter validade. Assim, o prejuízo é dobrado; além da ofensa recebida ainda mais a culpa de não perdoar. Haja sofrimento!!

Para entendermos como é difícil, precisamos entender o funcionamento do cérebro, para, por fim, procurarmos o perdão “possível” de ser conseguido. Toda a vez que vemos ou sentimos algum objeto, o processamento dessa informação é realizado no córtex que fica na área externa do cérebro e se parece com uma grande lesma, toda enrolada. Ao receber o estímulo, o córtex faz o trabalho de detalhar o objeto usando seus registros de memória para saber se ele já é conhecido, tendo, portanto um nome. Se não for, sua atenção é despertada e, por medo (preservação) você verificará cuidadosamente se oferece ou não algum perigo.

Agora, imagine que uma vez você foi atacado e mordido por um cachorro e, além do susto, esse incidente tenha trazido muita dor. Esse momento ficará então gravado nas amígdalas* (não são as da garganta), que por não terem um programa muito sofisticado, não analisam se o perigo é algum animal pequeno ou que realmente possa feri-lo novamente. Assustaremos-nos em qualquer lugar, seja no cinema, parque de diversões, casa de amigos, etc, sempre que ouvirmos ou percebermos qualquer sinal da presença de um cachorro, mesmo sabendo que nossa saúde não corre risco algum. As amígdalas dão o alarme ainda que o córtex insista em afirmar que está tudo bem.

 Assim, toda a vez que seu córtex detectar algum estímulo que se chame “cachorro” seu sistema de defesa entra em ação provocando medo, já que isso fez sofrer no passado e pode fazer de novo, e sofrer, para nosso sistema, pode causar nossa morte. É claro que, passado alguns segundos, o córtex, mais sofisticado que as amígdalas, avisará que, eventualmente, o cachorro não oferece risco, por exemplo, por estar preso. Mas do susto você não escapa! Isso explica porque muito dos medos serem irracionais e até motivo de graça por quem não entende o processo.

Toda essa explicação, bem simples, foi dada para dizer que não precisa ser mordida de cachorro, afogamento, acidente de carro ou qualquer outra coisa desse tipo. Pode ser também uma ofensa, uma traição, uma agressão verbal ou física, etc. Todo e qualquer evento que traga susto ou sofrimento ficará gravado no nosso computador chamado cérebro, sem análise de qualidade ou conteúdo. É um sistema igual ao dos irmãos animais que fazem parte da natureza, assim como nós.

E acontece de alguém nos fazer sofrer, seja pelo que for, e depois vem o pessoal do “deixa disso”, dando aquele conselho: Perdoe! Esqueça! Não vale a pena ficar assim! E tantas outras bobagens desse tipo. E você, um ser humano que tem o cérebro funcionando, fica fazendo uma tremenda força para conseguir algo muito difícil, que é apagar do seu sistema o ocorrido para que você possa “amar” aquela pessoa, desejar-lhe toda a felicidade do mundo e, como se já não bastasse, você deveria fazer de tudo para ajudá-la para mostrar que tudo foi “esquecido”.  Por favor!!!! E o pior, como já foi colocado, é que nos sentimos culpados por não conseguirmos perdoar, afinal, se, por exemplo, Jesus nos perdoou, como que não conseguiríamos fazer isso com essa pessoa?

Então, para não parecer tão perverso, você engana a si mesmo, fingindo que esqueceu tudo, que está tudo bem, afinal é isso que Deus, ou seja lá quem for, quer de nós. Depois de um tempo, essa repressão pode muito bem se transformar em alguma doença autoimune (provocadas pelo próprio organismo), por fazermos de conta que nada houve, isso ainda temperado pela culpa (consciência pesada) de não conseguirmos esquecer.

Assim como o latido ativa o sistema, qualquer situação semelhante ou mesmo ver somente a foto do agressor fará com que o ocorrido volte a nossa percepção para que possamos nos defender. Isso é automático, faz parte do corpo e nem quinhentas ou mil preces resolverão, muito menos confessar esse “pecado” para outra pessoa, que também tem um sistema igual ao nosso, possa nos perdoar.

Então qual é o perdão possível?

O que dá para fazer é o que chamamos de ressignificação, que nada mais é do que darmos uma outra versão do acontecimento, entendendo por outro ângulo, encontrando razões e até mesmo, por que não, vantagens no que aconteceu. Podemos entender o mau momento da pessoa, buscarmos entender que ela projetou sobre nós seus problemas e frustrações ou que isso nos ajudará no futuro como um aprendizado que nos tornará mais fortes, etc.

 Isso, com o tempo vai minimizando o efeito, simplesmente, porque nós colocamos isso de outro jeito dentro da nossa consciência. Agora, voltar a ser como antes, esqueça! Se já viu, estamos diante de uma rara exceção ou de um grande ator ou atriz. É a metáfora do copo rachado. Dá para ficar com ele por vários motivos, mas ele não será mais como era antes do evento. Esqueça e nem faça força para isso, que só vai colocar fora energia e ainda se sentir mal por não conseguir o impossível.

Existe uma infinidade de maneiras de dar esse outro sentido, e qualquer uma é totalmente verdadeira, você é livre para isso! Depois de encontrar essa nova “versão”, basta ter atitudes que demonstrem isso e seu perdão possível poderá ser atingido. Mas lembre de que só conseguirá o possível, nada mais!

Conta-nos a história que minutos antes de morrer, Jesus teria olhado para os céus e teria dito: “Pai, perdoe porque eles não sabem o que estão fazendo!”.

Me permito pensar: se Jesus, ao ressignificar o que estava ocorrendo com ele, dando uma desculpa para aplacar uma eventual ira de seu Pai ou mesmo na citação que abre esse artigo, onde Deus não nos perdoará se não perdoarmos, não estaria demonstrando que até Deus tem córtex e amígdalas?

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*Amígdalas – A amígdala, uma pequena mas importante porção do cérebro, está envolvida na produção de uma resposta ao medo e outras emoções negativas. A amígdala é fundamental para a auto-preservação da espécie por ser o centro identificador do perigo, gerando medo e ansiedade e colocando o animal em situação de alerta, aprontando-se para se evadir ou lutar.

Disponível:

http://www.psiqweb.med.br/site/DefaultLimpo.aspx?area=ES/VerDicionario&idZDicionario=72

5 Comentários

  1. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Professor Eduardo: Seu artigo é definitivo e retira todo e qualquer resquício de ódio, mágoa e outro sentimento não resolvido ou mal resolvido. Creio que o perdão só possa ser dado realmente dessa forma e todas as outras formas seria querer nos enganar, sofrer duplamente para o resto da vida.
    Grato por compartilhar tanto conhecimento.

  2. sandra gomes lima   •  

    Particularmente eu sempre achei meio fora da nossa realidade esta questão de perdoar, terapia do perdão……tudo muito lindo na teoria,mas na prática meio complicado……e esta matéria veio esclarecer muitas coisas que eu “achava”,mas não tinha explicações para fundamentação……Mais uma vez obrigada Eduardo!Grande abraço!

  3. simone belquis   •  

    Eduardo
    Mas um texto seu que leio e parece tirar um peso de dentro. Muito bom entender mais esse conceito. Sempre achei muito difícil perdoar não entendi o porque. Obrigada.

  4. Pingback: FOBIA | Blog Eduardo O. Carvalho

  5. valeria   •  

    Muito bom esse artigo!! Amei!! Estou em uma fase da minha vida em que estou processando ainda uma atitude irracional de uma pessoa, e penso:Como é difícil perdoar, a magoa é muito grande e não vejo razões nem sentido algum para perdoar, afinal de contas, todos somos responsáveis pelos nossos atos em si,e ao ler esse artigo, pergunto: “Enganar-se” a si mesmo inconscientemente é o melhor caminho??? Ressignificar-se é o mesmo que enganar-se com fatos e acontecimentos que foram totalmente errados, e irresponsáveis?? Não estará eu me julgando por isso?? como se a culpa não fosse totalmente dela??? é minha também por não compreende-la??? Um Grande abraço Eduardo!!

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