A última desilusão

 

Ficou paralisada diante da tela do computador.

Nunca dá para dizer que algo é inacreditável, já que se acontece, torna-se necessário acreditar. Lutar contra a realidade não dá, é um romantismo placebo. A notícia teve o efeito de uma grande desilusão, mais uma.

Mais de cinquenta anos juntos! Como pode?

De uns tempos para cá, as uniões estão sofrendo um golpe atrás de outro. Isso não faz bem para as pessoas, nós precisamos acreditar que os compromissos podem durar para sempre. O amor precisa ser invencível! Precisa!

 Tem palavras que deveríamos tirar do dicionário; para começar, todo e qualquer juramento e “para sempre”. Jurar, no fim das contas, é prometer que nunca mudaremos, e o que é pior, independente das circunstâncias. Isso não é possível!

Talvez o problema seja mesmo falta de experiência. Quem pediu para jurar, algum dia jurou para alguém de carne e osso?

Tem juramentos que não tem graça. Sem conviver é fácil!

Isso de estarmos sempre mudando tem dois lados; não existe nenhuma condenação, por outro, sei lá quem vou ser e o que esse que serei pensara e irá querer da vida?

 Isso tira a tranquilidade, dá uma ansiedade de um futuro incerto. Por outro lado, que graça teria um futuro certo? Se nunca mudássemos, gostaríamos sempre da mesma coisa…chato por um lado, já que nunca conheceria coisas novas, seguro por outro.

Que confusão!

Melhor não pensar. Mas a cabeça não para de falar.

A vida não está mais nos dando os exemplos de que é possível, que dá para, mesmo mudando, gostar de estar sempre junto.

O Willian e a Fátima?

Tantos filhos, sucesso, dinheiro, fama. Mas o tempo, ou a previsão do tempo mudam tudo! Jamais se poderia imaginar!

Mesmo um homem sério pode se abalar e as esperanças das pessoas comuns sofreram um duro golpe.

Como ele pode deixar de gostar dela? Tão simpática, sempre sorrindo!

Será que ela pode tê-lo cansado? De tanto sorrir?

Mal tínhamos nos acostumado com esse duro golpe, quando de repente, a pá de cal: O Brad e a Angelina, e agora?

Ela que sempre é muito decidida, mais uma vez tirou da sua vida tudo que poderia, mesmo que somente um dia, vir a incomodá-la. Dos seios ao Brad, a mesma regra. Não teve dó.

Ele pediu para voltar e ela irredutível. Diz que não quer mais e até apareceu na internet que bloqueou o telefone para não receber chamadas dele.

Como uma mulher pode não gostar de receber ligações do Brad? É o sonho de todas, menos dela.

O que ela sabe que não sabemos?

Pode alguém tão perfeito ter defeitos? Seria a perfeição uma expectativa que nos mantém motivados?

 A realidade não ajuda. Por isso não vou a palestras motivacionais, pensou ela, fico toda empolgada e dois ou três dias depois, o mundo não percebeu meu entusiasmo e volta a ser como sempre foi. Dá até ressaca, que nem bebedeira.

Decepção, mais uma!

Mas mesmo o Willian e Fátima, o Brad e a Angelina não ficaram cinquenta anos juntos. Chega um tempo que, mesmo que esteja ruim, as pessoas ficam pela companhia. No fim sempre foi uma grande amizade, temperada com carinho e uma briga, vez por outra. Mas depois de mais de meio século, os laços deveriam ser tão fortes que não dá para imaginar um sem o outro. Dias atrás saiu a notícia que um casal que estavam juntos a mais de sessenta anos morreram com horas de diferença; um de doença e o outro, por não querer ficar nesse mundo sozinho.

Que lindo, o amor vencendo a morte!

Mas como eles foram se separar nessa hora? Será que não perceberam que o casamento está sofrendo duros golpes? O que custava pensar no quanto isso é importante para as pessoas continuarem a acreditar que pode dar certo, para sempre? Depois de cinquenta anos, recomeçar?

Agora não acredito em mais nada!

Levantou e foi fazer o almoço, secando as lágrimas com o avental.

Na tela do computador continuava estampada a notícia: Bob’s e Ovomaltine se separaram. Mal terminaram o e Ovomaltine anunciou que vai ser só do MacDonald’s.

Os relacionamentos não são mais os mesmos!

Que pena!

 

 

 

3 Comentários

  1. kátia   •  

    Tudo porque criamos a bendita “expectativa” e delegamos ao outro a responsabilidade de nos fazermos felizes.

  2. Fatima Petermann   •  

    Pois é! Tá na hora de ensinar sobre expectativas, sentimentos e “não ser apenas princesas” , para nossas crianças! Gratidão, amigo.

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