A SOLIDÃO

 

 

“Se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, essa atitude negativa pode acabar em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se ela ainda fosse capaz de guiar para algum atalho promissor. Mas ela está presa a um beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento pode arrancá-la.”

                                                            C.G. Jung

 

Há quem diga que a solidão é uma arte esquecida.

O temor de se estar só pode ser visto de algumas formas; uma delas poderia ser o medo de estar ou sentir-se abandonado, o que poderia significar que as pessoas não gostam da nossa companhia, que somos inadequados ou esquisitos. Outra opção pode ter a ver com a ideia de que não nascemos para vivermos em solidão, por sermos animais “sociais”. Quantas pessoas, em momentos de raiva, lançam maldições como essa: “seu destino é ser solitário, ninguém consegue conviver com você!”.

Uma terceira alternativa pode representar o fato de não sermos compreendidos pelos demais, o que nos afastaria do convívio pelo simples fato de falarmos um “outro idioma”, ininteligível pelos outros. Existem tantas outras, mas a chance de se chegar ao autoconhecimento sem passar pela boa convivência consigo mesmo é quase nula.

É interessante observar como em nossos dias tem aumentado o número de pessoas que procuram atividades como retiros, por exemplo, onde faz parte dessa prática muitas horas de solidão e silêncio. Mesmo nos momentos mais angustiados e difíceis de nossas vidas, clamamos para fugirmos ou nos transportarmos para algum lugar, longe de tudo ou de todos, onde possamos encontrar paz. Chega-se ao ponto de, nos momentos de grande tensão, dizermos que precisamos ficar sós, para podermos chegar a alguma espécie de acordo interno sobre a situação que nos aflige. Ficar só, portanto, é bom e saudável, mas sem exageros como manda a receita do “caminho do meio”.

Somos cobrados de alguma forma se queremos ficar sozinhos. Estar só pode significar que nossas companhias não estejam nos fazendo bem, nos trazendo sofrimento, ou até mesmo nos atrapalhando de alguma forma. Nos relacionamentos afetivos, por exemplo, na época da paixão, fundimos nosso “eu” na outra pessoa e só pensamos no “nós”. Passado algum tempo, nosso “eu” volta a clamar por atenção, o que é mais do que normal. Nessa hora, por ignorância, alguns chegam a pensar que não estão gostando mais tanto do seu companheiro(a). O que ocorre, é que estamos voltando ao normal, e a relação saudável passa a se estabelecer em cima de dois “eus” saudáveis e não mais em cima de um “nós” patológico que sufoca a expressão da individualidade.

Nada é mais pessoal e individual que a solidão. Pode até parecer redundante, mas se pensarmos bem, se chega à conclusão que muitas vezes já nos sentimos sozinhos mesmo com pessoas a nossa volta, muitas delas muito chegadas. A solidão que sentimos quando estamos com os outros é completamente diferente da experiência individual. Posso até afirmar que a solidão “acompanhada” é mais dolorosa, justamente por sentirmos isso próximo a pessoas onde esse sentimento não poderia estar acontecendo. Em um artigo intitulado “ego e arquétipo”, Edward Edinger mostra que o significado da palavra “solitário”, no grego original significa “solteiro” ou “unificado”. Como curiosidade ele cita trecho do Evangelho Gnóstico de Tomás: “..Eu (Jesus) digo isto: quando (uma pessoa) se encontra solitária, estará cheia de luz; mas enquanto se encontra dividida estará cheia de trevas.

 Evidente que essa unificação, que nada mais é do que o autoconhecimento, tem como preço o sofrimento, solidão e culpa. Essa culpa vem justamente do paradigma que diz que só estamos completos ou certos, em meio a outras pessoas. A base desse pensamento errôneo é que não estamos inteiros ou completos por nós mesmos, só com alguém ao nosso lado poderemos nos sentir bem e aceitos por todos. Não tem como esquecer o clamor de Sallie Nichols que, ao falar do arquétipo do Eremita (solitário) diz: “Teremos, acaso, aberrado tanto nosso âmago interior de ser, que só existimos em relação aos outros”?

Sem o tempo para si, nossas projeções em relação às outras pessoas e delas sobre nós, vão aos poucos nos afastando de nossa identidade essencial, nos levando a uma infinidade de concessões para estarmos no grupo, querido e respeitado pelos demais.

Sempre digo a meus clientes que a condição básica de bom relacionamento com outras pessoas é um ótimo relacionamento intrapessoal, ou seja, conviver bem consigo e em solidão. É justamente nos momentos que estamos sós que conseguimos avaliar com mais clareza e calma nossos relacionamentos, o que realmente gostamos e queremos para nossa vida, juntando com entendimento nossos “cacos”.

Porém isso precisa ser equilibrado, já que o extremo de não se conseguir estar com os demais, tendo na solidão uma fuga ou solução para relacionamentos frustrados e mal-resolvidos, está longe de ser saudável. A base de tudo é o ponto central entre estar-se bem só e com os demais.

Quando esse ponto é atingido, não se precisa estar longe das pessoas e de todo o caos reinante, já que no silêncio encontramos nosso cosmos, nossa ordem. Ensina-nos a filosofia Zen que no momento que se atinge a auto-percepção, aceitamos a própria vida, por mais simples que seja, cumprindo nossas tarefas, fazendo o que gostamos e administrando muito bem o que fazemos sem gostar tanto assim.

Difícil? Nem tanto, basta querer, fazendo o necessário para chegar lá!

É evidente que quando uma pessoa consegue esse autoconhecimento ela será mesmo uma solitária, já que toda a multidão que a rodeia continua vagando às cegas pelo mundo, comandada por princípios e normas que não só não escolheu, mas que nem pensa sobre eles. Será um solitário blindado por uma identidade completa, em harmonia interior e exterior.

Tirar momentos para si para se “curtir”, fazendo o que gosta no seu ritmo de tempo, saindo da “massa”, se permitindo ser quem se É em total descompromisso. Essa é uma receita para se por em prática e o resultado será um equilíbrio maior, mais tranquilidade e paz interior; precisa mais do que isso?

Curiosamente, nas etapas da evolução, o Eremita, ou aquele que busca a solidão para encontrar a verdade interior, aparece depois do domínio das forças antagônicas interiores (O Carro) e da justiça em relação a si mesmo e aos demais (Justiça). Logo depois desse retiro voluntário vem a mudança inevitável representada pelo arcano da Roda da Fortuna, mostrando a mudança do caminho na existência de quem se arriscou a buscar-se.

Carl Jung dizia que se fugirmos ao chamado dessa introversão, essencial ao nosso desenvolvimento, poderemos encontrar o isolamento forçado de uma moléstia física ou mental. Precisamos partir e voltar, aprendendo a transitar bem entre esse dois mundos: o interno e o externo.

De alguma forma, penso que esse encontro com nossa verdadeira identidade pode representar, porque não, a “jornada do herói” de Campbell. Sairmos sozinhos, vencermos as dificuldades, o medo da solidão, enfrentando nossos “monstros interiores” para voltarmos mais fortes, como heróis de nós mesmos.

Alguns poucos dias por ano, algumas horas por semana, um tempinho todo dia para estar em harmonia, consciente e verdadeiramente lúcido… Lembre que isso não deve ser algo a ser conquistado, mas é o primeiro passo para qualquer verdadeira conquista!

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Como podem observar, nesse artigo não tem uma imagem ilustrativa, já que encontrei enorme dificuldade de achar uma onde alguém estivesse solitário e feliz. Isso mostra o paradigma citado acima. Fica então essa bela frase de Fernando Pessoa, que vale por mil imagens.

5 Comentários

  1. fernando canton   •  

    Penso que somos espíritos solitários que se relacionam durante a “viagem”…
    Ninguém nos acompanhará pela eternidade…

    parabéns pelo artigo,
    fernando canton

  2. neusa seiffert   •  

    muito verdadeiro!

  3. Andréa Menezes Rocha   •  

    LINDO LINDO LINDO

  4. Vanessa Romanus   •  

    Muito bom…estou adorando meu momento de solidão, estou tão preenchida de mim mesma, que acho que vou transbordar rsrsrsrs…..feliz da vida!!!!

  5. Idebenone   •  

    Sempre digo a meus clientes que a condição básica de bom relacionamento com outras pessoas é um ótimo relacionamento intrapessoal, ou seja, conviver bem consigo e em solidão. É justamente nos momentos que estamos sós que conseguimos avaliar com mais clareza e calma nossos relacionamentos, o que realmente gostamos e queremos para nossa vida, juntando com entendimento nossos “cacos”.

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