A receita de Epicuro

Enquanto se barbeava para sair para o trabalho pensava no livro que acabara de ler. Sempre se interessara por filosofia, mas quando leu os ditos “ clássicos” tinha dificuldade de entender a linguagem rebuscada e difícil de alguns filósofos. Seus tradutores, muitas vezes, fiéis ao original não facilitavam em nada o entendimento desses caras complexos.

Um amigo, a quem confidenciava sua frustração, lhe fez uma indicação imediata:

– Cara, leia Epicuro! O que se tem são fragmentos do seu pensamento, mas é muito legal. Quem sabe se gostar poderemos morar junto um dia!

Com certeza fizera cara de assustado, já que o amigo caiu em uma sonora gargalhada e foi embora sem explicar a brincadeira, apesar dos seus pedidos. A única coisa que acrescentou foi a seguinte:

– O que os autores fazem é apenas comentar essas frases, fica bem mais fácil. Não se preocupe!

Ainda naquela semana comprou um livro sobre o tal Epicuro. Era pequeno, com poucas páginas e letras grandes, o que, à princípio, é tudo que um leitor amador busca.

Ficou surpreso com o que encontrou. O livro começava defendendo Epicuro de uma injustiça histórica; que era um hedonista, ou seja, que apenas defendia o prazer pelo prazer, como sendo o supremo bem da vida, o que ficou descartado pela leitura, mas a deixou-a ainda mais atrativa. Afinal, o que ele poderia ter sugerido para que o vissem dessa maneira?

O filósofo grego, que nasceu mais de trezentos anos antes de Cristo tinha uma maneira simples de viver e ser feliz, coisa que parece que conseguiu. Isso o fez o primeiro “cliente” da sua própria filosofia.

Toda sua tese de uma vida boa tinha apenas três únicas e singelas sugestões:

A primeira, é que a vida precisa ser examinada. Bom, isso parece fácil à primeira vista, pensou. Mas não é bem assim. Uma vida bem analisada para um filósofo parece ser uma reflexão profunda sobre seus atos, com uma lúcida compreensão do que se quer e onde chegar.

Por outro lado, isso pode ser atingido com prática. O problema é incluir esse tempo para se pensar em uma rotina tão apertada de compromissos. Lembrou que tinha feito um curso de final de semana de meditação, já fazia um ano e não tinha conseguido começar a praticar. Parece que fazer coisas para si estava na quarta ou quinta prioridade na própria vida. Talvez desde aquela época já devíamos estar ocupados, se fosse diferente, talvez Epicuro não precisasse aconselhar ninguém a fazer isso. Pode ser também que ele tenha percebido que pensamos o que nos mandam pensar. Isso tem a ver com quem nos educa ou pela mídia e religiões. Ele deve ter percebido que pensar por si mesmo exige grande esforço. Precisa pensar para pensar.

– Pelo visto, as coisas vão mal faz tempo! Disse em voz alta enquanto passava a loção pós barba e sentia aquela ardência gostosa e cheirosa.

Depois, a segunda sugestão era não ser dependente, seja da opinião dos outros ou financeiramente. Riu-se sozinho enquanto trocava a camisa. A primeira que tinha escolhido, parecia não combinar com a calça e percebeu que Epicuro o havia pego com a “boca na botija”. Acabava de mudar de ideia em relação a roupa que iria vestir, justamente para que o vissem de maneira melhor. Na hora, experimentou um certo aperto no peito. Pela sua vida inteira teve que fazer concessões para ser admirado, respeitado e sentir-se “fazendo parte”, seja de grupos de amigos, no trabalho e tudo mais.

Sussurrou enquanto amarrava os sapatos:

– Meu sonho de riqueza deve ser para poder não precisar mais me preocupar em agradar, poder fazer o que quero e não me submeter a nada e ninguém. Acho que, no fundo, todos ansiamos por isso.

Penteando o cabelo continuou a falar sozinho:

-O problema é que, quanto mais progrido, mais isso o que enriquece me amarra a compromissos e necessidade de concessões. É uma ironia mesmo essa vida. Esse Epicuro deve ter tido mesmo tempo para pensar. Também naquele tempo na Grécia ele não tinha uma fatura de cartão de crédito para pagar e nem aluguel. Bom, por outro lado, só sofrendo com a dependência, me vejo obrigado a buscar a independência como algo que me faça viver melhor.

Quando lembrou do amigo que havia indicado o livro, não pode conter uma gargalhada, afinal, a terceira recomendação para uma vida boa é estar sempre cercado de amigos. Dizia o livro, que Epicuro comprou uma casa grande e convidou seus amigos para viverem com ele. Para esse grego meio maluco, os amigos são as melhores pessoas para termos por perto, afinal elas gostam de nós sem nenhuma obrigação para isso. A vida com amigos é de alegria e companheirismo.

Parece que Epicuro imaginava o que viria pela frente, já que dizia a seus seguidores que não deveríamos nos sentir culpados por vivermos bem, afinal, isso era a verdadeira finalidade da vida. Deve ser por isso que alguém o chamou de hedonista. Incrível como viver uma boa vida aqui é errado desde aquela época. Tendemos a achar que viver mal ou sofrendo vai nos trazer vantagem em algum dia. Bobagem!

Muito antes da época do consumo, Epicuro afirmava que nada que comprássemos nos poderia fazer feliz. Um de seus discípulos, mandou fazer uma espécie de outdoor em pedra e colocou diante do mercado da cidade, onde dizia que todos deveriam comprar o necessário e que a felicidade não poderia ser comprada, a não ser seguindo os três princípios.

Quando chegou ao trabalho, passou um Whattsapp para seu amigo:

“Obrigado pela sugestão. Gostei de conhecer Epicuro, o cara é fera! Vá lá em casa hoje e vamos abrir um vinho e comemorar a amizade! Só não traga o travesseiro…”

1 Comentário

  1. Ge McIntyre   •  

    Oi Eduardo, sempre me identifiquei muito com o pensamento Epicuriano, e achei seu texto bem interessante. Pretendo explorar seu blog, me pareceu bem legal. Abracos!

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