A Primavera e o princípio Feminino

“Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher.”

Super Homem, a música –  Gilberto Gil

 

Começou a primavera, a mais feminina das estações, sendo uma boa oportunidade para falarmos do princípio feminino e para isso me valerei da mitologia grega e duas personagens femininas que se completam.

 

Conta a mitologia que havia uma deusa chamada Deméter, soberana da natureza, responsável pelas colheitas, flores e tudo que era gerado pela terra. Regia os ciclos da natureza e todas as coisas vivas. Deméter era uma deusa matriarcal, simbolizando o poder das entranhas da terra, que para os gregos, não necessitava de nenhum reconhecimento espiritual dos céus. Diz-se que ela ensinou aos homens como plantar e arar a terra e, as mulheres, como moer trigo e fazer o pão.

 

Deméter morava com sua filha chamada Perséfone em completa harmonia e felicidade, razão pela qual, tudo frutificava e a natureza brindava a todos com sua abundância. Porém, como nada persiste, um dia Perséfone saiu para passear e conheceu Hades, o temível senhor das trevas   (símbolo da morte) que se encantou por sua beleza. Hades, ofereceu a Perséfone uma romã (fruta utilizada por escolas iniciáticas por seu simbolismo) e a bela jovem apaixonou-se por Hades e foi morar com ele nas profundezas da terra. Ocorre que Perséfone foi embora com Hades sem avisar sua mãe, que pensou ter ela sido raptada. A paixão, às vezes é mesmo assim…

 

Enfurecida pelo desaparecimento da filha Deméter ordenou que a terra secasse, recusando-se a devolver-lhe a abundância enquanto não encontrasse sua filha, saindo pelo mundo a procurá-la. Deméter nesse momento nos mostra como temos dificuldade de aceitar as mudanças bruscas em nossa vida, já que, mesmo depois de saber que sua filha tinha ido de vontade própria e que estivesse sendo tratada com todas as honras de rainha pelo esposo, permanecia irredutível em sua posição.

 

Os deuses do Olímpo, preocupados que todos morressem de fome pela postura de Deméter, pediram que Hermes intercedesse e tentasse um acordo. Hermes, faz-tudo e padroeiro dos embusteiros, encontrou uma saída  mediada para o fim do conflito.

 

Assim, ficou decidido que durante nove meses do ano Perséfone ficaria com a mãe e durante três meses, desceria às profundezas da terra para estar ao lado do marido.

 

Embora o acordo esteja sendo mantido, até hoje Deméter ainda não se conforma totalmente com ele. Assim, durante os três meses que a filha fica longe, sua tristeza faz com que as folhas caiam, a terra esfrie e nada produza… Porém, quando Perséfone vem ficar com sua mãe, a alegria de Deméter faz as flores desabrocharem e, estamos na primavera…

 

Os ritmos dos ciclos menstruais, as mudanças de humor que o acompanham, fazem da mulher intuitiva, aceitando e mostrando que é possível entender o lado irracional da existência. O temperamento da mulher, somatório de Deméter e Perséfone, estão relacionados aos ciclos da natureza, muito mais do que com a lógica, afeita ao princípio masculino. Por isso, quando um homem se liga de forma criativa as emoções, está em contato com seu lado feminino que Jung chamava de Ânima.

 

Simbolicamente, Perséfone representa o espírito preso no ventre da matéria (por isso se apaixonou pelo Deus da morte), enquanto Deméter simboliza o espírito renascido da carne, dando origem a uma nova entidade que resulta de ambas. Perséfone é a intuição, afinal ela mora três meses em “outro mundo” e Deméter é a ação e conclusão, representada pela colheita, final do processo.

 

Enfim, sobre isso poderíamos falar muito, mas a proposta é sempre uma reflexão para enriquecer nosso auto conhecimento. Por isso, sempre que a primavera chegar, lembre que a filha que habita o mundo dos mortos vem visitar sua mãe que mostra sua felicidade na exuberância das flores e frutos. Pode acontecer dos primeiros dias demorarem a chegar, mas não se preocupe, Perséfone sempre vem, mas também faz parte do princípio feminino um atraso, vez por outra…

 

1 Comentário

  1. Nilsa   •  

    Você prepara e escolhe tão cuidadosamente tudo que tem postado, que é sempre um aprendizado; os Videos maravilhosos.
    Quando li : A Primavera e o Princípio Feminino, acompanhada do Video que ilustra , a Vida, Mãe Terra, o Feminino ; fiquei pensando em quantas pessoas (muitos homens), deveriam estar lendo , aprendendo e mudando “conceitos”, que ainda fazem parte da cultura Masculina em relação à Mulher.
    Lembrei também do video que voce postou : O sal da Terra – Beto Guedes; fascinante, e busquei por outros videos dele. “Sol de Primavera” do mesmo, também é tudo………….

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