A Possível Leveza do Ser

“Eu já me dei ao poder que rege meu destino.

 Eu não me prendo a nada para não ter nada a defender…

 Eu não tenho pensamentos para assim poder ver.

 Eu não receio nada para assim poder me lembrar de mim mesmo.

 Desprendido e natural…”

                                 Carlos Castañeda

                                                                                                                                

As palavras do Mestre Castañeda, famoso por suas aventuras com seu Xamã Don Juan, fez história na década de 70 com seus livros e hoje é cult, principalmente para quem já ultrapassou a barreira dos cinquenta. Seus versos acima podem nos convidar a uma reflexão mais detalhada para procurarmos mais a fundo sua mensagem. Vejo grande significado nessas palavras, e convido o leitor a nos debruçarmos sobre elas, com atenção.

                Eu já me dei ao poder que rege meu destino…

Existe mesmo uma força ou inteligência que nos conduz? Penso que não. Se assim fosse, seríamos marionetes e nosso livre arbítrio não existiria. Nossa realidade é sempre resultado de ações, pensamentos e atitudes anteriores e nada na natureza acontece sem uma razão. É um fatalismo cômodo aceitarmos o “destino”. Se, por exemplo, o destino quis que seu pneu furasse, isso significaria que deveria ficar sentado a beira da estrada pelo resto da vida?

O poder ou “lei” que rege toda a existência é baseado em uma só palavra: Liberdade! Somos livres para tomar nossas decisões e arcar com suas consequências, sejam elas boas ou más. É incrível, mas tudo que pedimos ganhamos! Se não pedimos (atitudes) não ganhamos nada e esse é o limite que separa quem faz seu destino e quem reza pelas dádivas divinas. A confiança é a qualidade de termos certeza de que somos capazes de alguma coisa e nunca conheci ninguém confiante que, em algum momento, não tivesse arriscado e apostado em si. Confiança é resultado de atitude e não vem de graça para ninguém.

                   Eu  não me prendo a nada para não ter nada a defender

Isso me lembra uma das mais perigosas armadilhas que armamos para nós mesmos; nossas coerências! Ser coerente é, antes de tudo, um compromisso com o passado, ou seja, com uma pessoa que não existe mais. Sabemos que mudamos constantemente por tudo que vivemos, vimos, lemos, aprendemos, etc., e não é lógico mantermos compromissos assim. A coerência é contra a maior qualidade dos sábios que é mudar de ideia, respeitando a pessoa que somos hoje. A palavra correta é “congruência”, isso significa que minha opinião ou ação está sempre atualizada, respeitando todas as mudanças que passei. Nos cobram a coerência ao invés da congruência, isso me cheira a poeira. Como disse certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Nada é mais velho que o jornal de ontem”.

                          Eu não tenho pensamentos para assim poder ver

Que são os pensamentos? Na maioria das vezes são condicionamentos que recebemos e nos impõe definições de maneira de ver. Nossas “avaliações” de tudo que nos acontece sempre vêm de segunda mão. Fomos domesticados, desde criança e nos impuseram os conceitos que são a base de nosso pensamento. Todos, por exemplo, querem não ter preconceitos, afinal sabemos que eles são a maior ignorância possível a algum ser humano, mas precisamos “pensar” nossos pensamentos preconceituosos para conseguirmos uma atitude mais igualitária. Como vemos tudo com olhos velhos dos avós, pais, professores, cultura e religiões não conseguimos enxergar a verdade. São tantos véus nos nossos olhos, como diria madame Blavastsky, que precisamos dos desprender deles para podermos realmente enxergar. Talvez Castañeda tenha lido Fernando Pessoa quando, em de seus melhores poemas, nos disse: “se quer ver não pense…porque pensar é estar doente dos olhos.” Perdemos situações e pessoas demais em nossa vida, justamente porque “pensamos” quando as vemos. Não pense, não julgue e veja!

                   Eu não receio nada para assim poder lembrar de mim mesmo

E estamos aqui, diante de nosso maior amigo e inimigo que é o medo. Ter receio é ter medo, e isso sempre nos diz que estamos diante de alguma mudança. Ainda não conseguimos entender que só evoluímos e crescemos diante do enfrentamento do medo, que é simplesmente um mecanismo de defesa que nos avisa que estamos rumando para o desconhecido. Sem medo poderemos “lembrar de nós mesmos” justamente porque poderemos rumar para nossa missão na vida que é colocar em prática nossos talentos. A única jornada a que viemos percorrer na vida é do nosso autoconhecimento, nenhuma outra! E nada dá mais medo do que vencermos tudo que encobre nosso verdadeiro Eu, já que temos “medo” de nos afastarmos do conhecido, das rotinas, relações que receamos perder nessa busca. Muitas pessoas passam pela vida sem terem vivido um segundo sequer, justamente porque nunca se encontraram. O tempo vai passando e esquecer parece inevitável, mesmo que seja de si mesmo!

                                         Desprendido e natural….

Naturalmente Ser…

A caminhada fica leve, justamente porque não temos bagagem para carregar. Como viver fica um êxtase quando estamos congruentes, não julgamos ninguém, não tentamos mudar as pessoas e fazemos do que somos nosso trabalho. Evidentemente que nesse estágio estamos saudavelmente desapegados, entrando no fluxo natural da existência, afinal entendemos o medo e ele vira sempre uma motivação para seguirmos adiante estrada a fora. A tensão não faz mais parte do nosso dia-a-dia e aproveitamos tudo ao máximo, fazendo de cada situação um aprendizado, simplificando as coisas.

Isso não é utopia, mas perfeitamente possível, mas para isso precisamos enfrentar nossos medos e buscar o autoconhecimento incessantemente e relaxar. Não tenha medo de você mesmo! Nelson Mandela disse certa vez que temos medo de assumir toda a nossa grandeza.

Difícil discordar, não acha?

2 Comentários

  1. Sandra Lima   •  

    Em “Closer”, uma garota recém-chegada à Londres traz como bagagem apenas sua mochila….um jovem pergunta onde está o restante da bagagem e ela responde:”aqui está tudo que preciso”…….vamos levar vida à fora apenas o que precisamos……

  2. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Ler seus belos artigos é não recear e sempre buscar mais, é se enlevar em algo tão sublime que é realmente muito difícil não se envolver, como se estivéssemos ali junto a Don Juan, porém sem qualquer alucinógeno, tudo natural e simples que parece uma nuvem que nos leva muito suavemente por lugares que já passamos e – cegos – não os vimos. Estamos de olhos bem abertos, apesar de mantê-los fechados enquanto suas palavras inundam-nos. Falar mais alguma coisa seria como se quebrássemos esse silêncio que chega.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *