A Paixão (2ª parte)

“Frequentemente um amor desesperado não é o motivo mais confiável para uma vida juntos.”

                                                      Mario Puzo – Escritor

                                                                                                                                   paixão III

Uma das marcantes características do período paixão é que nosso “eu” se funde no outro (a) e tudo vira “nós”. Paramos de pensar individualmente e tudo só tem sentido com a presença do outro, com o outro e pelo outro. É uma fase tão inebriante que não precisamos mais dos amigos e podemos ficar confinados sem esforço. Depois, com o arrefecimento da paixão, vem o preço dessa exclusão iniciando um processo de desgaste que é natural. Já vemos o outro (a) com seus defeitos e qualidades e o afastamento dos amigos individuais traz o risco do tédio na relação.

Já não sentimos mais aquele prazer transbordante, aquela euforia onde nada é impossível se for para o casal se manter junto. O perigo dessa fase “alucinada” é  pensarmos nossa vida e futuro sob o efeito desse intenso prazer acreditando que isso durará para sempre, afinal todos nossos sentidos dizem que encontramos aquela pessoa que, para sempre, nos fará feliz. Como muitos já passaram por isso mais de uma vez, a ideia de que exista alguma “alma gêmea” cai por terra, afinal a cada paixão encontramos uma, ou seja, a cada paixão encontramos a pessoa certa para aquele momento que estamos vivendo e isso passa, afinal estamos sempre mudando.

Isso difere em muito dos relacionamentos baseados em um sentimento mais calmo e racional, onde as vantagens de se estar junto vão se apresentando pela convivência, cumplicidade e confiança. E isso, na verdade, é o que cria o ciúme (que já foi motivo de um artigo anterior), invenção de humanos, que querem proteger seus relacionamentos de longo prazo. Esse sentimento precisa ter uma certa medida para não ser um problema, afinal ele é baseado no medo da perda e isso faz com que o (a) ciumento precise controlar seu parceiro para que não vá embora.

Estudos mostram que as pessoas apaixonadas passam 85% do tempo pensando no parceiro (a), vendo sinais dele por todos os lugares. A cada lembrança, o cérebro vai liberando mais e mais aquela sensação de prazer inebriante. É uma euforia que erradamente chamados de felicidade, porque  estamos sob efeito de drogas, mesmo que naturais produzidas pelo cérebro com o objetivo de uma intensa atividade sexual para que possamos dar continuidade à espécie.

Isso é tão fora do âmbito da consciência, que homens acham mais atraente foto de mulheres com pupilas dilatadas já que esse é um sinal não verbalizado de interesse sexual sem nem perceber o motivo dessa escolha. Mesmo sem saber disso conscientemente, nosso cérebro captou esse sinal de forma instintiva. Da mesma forma como um estudo feito com dançarinas no Novo México, revelou que recebiam em média mais do dobro de gorjetas quando estavam no período fértil enquanto que as que estavam no período da menstruação tinham uma receita menor que a metade das colegas. Os sinais dessa fertilidade ainda não são claros para a ciência, já que podem ter a ver com a tonalidade da pele, cheiro ou pela sutil mudança da simetria das orelhas e seios nesse período. Nossa consciência não sabe, mas o cérebro sim e isso se demonstra em um interesse sexual que não conseguimos muitas vezes explicar o real motivo. O fato é que isso se dava até quando homens analisavam fotos de mulheres. As que foram tiradas propositadamente no período fértil eram escolhidas como as mais atraentes.

O ser humano exala mais de 300 aromas e alguns deles passam ao cérebro (sempre abaixo do limite da consciência) a idade e a dieta da pessoa. Ai entram os perfumes com a finalidade de “enganar” nossos sensores naturais. Das estratégias de conquistas não verbais, o olhar e o sorriso são as mais eficientes. As mulheres, justamente pelos atributos necessários a maternidade tem uma facilidade natural de distinguir o sorriso falso do verdadeiro. Justamente por isso, durante o momento da sedução as mulheres sorriem mais que o homem, já que eles tem não tem essa habilidade e os dentes fortes e bonitos mostrados pelas mulheres, passam uma informação sobre sua juventude, saúde e, principalmente, fertilidade.

Assim fica fácil entender os motivos que levam a razão ser superada pelo instinto durante o período da paixão, já que a amigdala, responsável pelas experiências desagradáveis, avisando-nos do perigo, fica “desativada” quando se pensa ou está diante da pessoa por quem se está apaixonado.

A ansiedade provocada pela saudade é compensada por grandes doses de ocitocina que a ameniza e transforma o momento do reencontro em êxtase, mesmo que a separação tenha sido por poucas horas.

Mas, quando o relacionamento termina, como fica a pessoa apaixonada?

O sofrimento experimentado pode ser bem definido pela poesia musicada de Milton Nascimento na música “Travessia” quando diz: “Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver…”. A dor,  tanto emocional quanto física é intensa e pode ser comparada aos das pessoas viciadas durante a crise de abstinência. Afinal, nossa felicidade foi embora e nesse momento, como ocorre na depressão, não conseguimos sequer imaginar a possibilidade desse profundo sofrimento acabar algum dia. Isso explica as atitudes impensadas, passionais e irracionais que uma pessoa possa ter nesse período, da mesma forma que um viciado faz o que precisar ser feito para atenuar seu sofrimento pela falta da substância que precisa. Não há diferença nesses casos.

Até mesmo quando e pessoa (somente quando afastada do outro (a)) consegue raciocinar e avaliar que a relação não tem possibilidade de dar certo seja pelo motivo que for, quando chega diante da sua paixão não consegue terminar ou por em prática suas decisões tomadas no período em que raciocinou. O prazer volta, e imagina-se que tudo poderá ser diferente, que dará certo, etc.

Esse período de sofrimento é mesmo longo já que o cérebro precisara se reestruturar sem essa forte conexão neuronal provocada pela paixão. Quando o relacionamento eventualmente termina nas suas fases iniciais, deixa uma profunda marca, já que a pessoa sempre lembrará como foi feliz nesse período e mesmo vivenciando outros relacionamentos tornará essa pessoa um “mito”, alguém perfeito que, certamente, traria a felicidade durante toda a vida. Isso só acontece porque o relacionamento foi interrompido durante o período da paixão. Se continuasse, depois que passasse a euforia e o relacionamento se normalizasse essa idealização do outro deixaria de existir. Por isso que alguns namoros da adolescência são mantidos como ideais dentro de nós, mas isso só ocorre porque eles não duraram o tempo suficiente para a paixão terminar ou mesmo que essa relação existisse pelo tempo suficiente para entrar na normalidade. A lembrança dessa pessoa nos traz de volta algumas dessas sensações prazerosas e da felicidade que vivenciamos. Um efeito colateral do sofrimento pela perda da paixão é a pessoa sabotar seus próximos relacionamentos pelo medo de sofrer novamente. Alguns só conseguem se relacionar sem um envolvimento mais profundo, já que isso garantirá que não haverá sofrimento se tudo terminar.

Por isso penso ser importante que entendamos com funciona a paixão e as pessoas ao nosso redor que estejam passando por essa fase. Por ser algo muito mais ligado ao instinto do que a razão a paixão pode atacar sorrateiramente qualquer pessoa, mesmo aquelas que estejam vivendo um relacionamento estável e agradável. Nessa hora, quando mais cedo se tomar os cuidados necessários melhor. Arriscar é sempre perigoso, pois depois que o circuito de prazer se instala fica difícil e muito dolorido de controlar. Afinal o instinto vence a razão quase sempre!

Testes também foram realizados com pessoas que se diziam apaixonadas mesmo depois de muitos anos de relacionamento. As imagens cerebrais mostraram que as áreas ativada não eram mais as ligadas ao prazer, mas aquela associada ao afeto e ao contentamento com recompensas. Ou seja, apesar do declínio da fase da paixão cresceu o companheirismo. E é isso que mantém casais juntos, diferente de outros mamíferos. Também aprendemos a sentir prazer e alegria navegando em águas calmas. Cada casal é único porque não existem duas pessoas iguais, assim, com cuidado necessário e entendendo como as coisas funcionam podemos sim termos relacionamentos longos e compensadores, desde que cuidados.

O final da paixão marca uma nova etapa, que precisa de compreensão, tolerância e bom senso. Descobrir o outro (a) como realmente é com suas qualidades e defeitos faz tudo mais verdadeiro. Mantemos os relacionamentos pelas qualidades do parceiro e administrando as diferenças que são naturais. Viva e curta sua paixão, mas a entenda e saiba que não devemos tomar decisões de longo prazo vivenciando emoções de curta duração.

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Bibliografia:

Odisséia do amor – documentário. Produtor Cristian Gerin e CharlesGazelle. Direção Thierry Binisti

Incógnito – A vida secreta do cérebro – David Eagleman ed. Rocco

Comportamento sexual compulsivo – Ballone. www.psiquiveb.com.br

Contra o amor – Laura Knips ed. Record

Revista Galileu. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI294422-17770,00-SAIBA+O+QUE+A+PAIXAO+FAZ+COM+O+SEU+CEREBRO.html

1 Comentário

  1. Tiago Melo   •  

    Belo texto Mestre Eduardo, parabéns!!! é muito bom ler seus artigos…. Muito obrigado… Tiago

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