A Paixão (1a parte)

“Por você eu dançaria tango no teto,

Eu limparia os trilhos do metrô,

Eu iria a pé do Rio a Salvador…

Eu aceitaria a vida como ela é,

Viajaria a prazo pro inferno,

Eu tomaria banho gelado no inverno.

Por você… Eu deixaria de beber,

Por você… Eu ficaria rico num mês,

Eu dormiria de meia pra virar burguês.

Eu mudaria até o meu nome,

Eu viveria em greve de fome,

Desejaria todo o dia a mesma mulher…

Por você… Por você…”

Por você – Frejat

Entender os mecanismos da paixão sempre despertou a curiosidade da ciência, afinal esse sentimento é responsável por momentos de felicidade, profundas tristezas e todo o tipo de loucuras.

paixão II

O que é importante entender é que a paixão é um mecanismo ligado ao nosso instinto de procriação e, não fosse por ela, esse planeta estaria muito despovoado. Assim, para a psicoterapia, a pessoa apaixonada está de certa forma “doente”, visto que muitos dos seus mecanismos de entendimento, raciocínio lógico ficam prejudicados durante esse período.

Os pesquisadores já conseguem definir que a paixão tem uma duração que oscila entre 18 a 30 meses. Mas por quê? Na verdade é o tempo necessário para que o macho e a fêmea da espécie humana, movidos por essa “avalanche” emocional, façam sexo o número de vezes necessário para que um filho seja gerado. Aliás, a tendência natural é a atividade sexual ter sua maior intensidade e frequência nesse período, daí começam os problemas, já que depois que a paixão termina, muitos casais ficam se questionando se o “amor” acabou ou se estão perdendo o interesse um pelo outro, tendo em vista uma redução dessa atividade.

Paixão não é amor e nunca foi. Amor tem a ver com pensamento racional, prerrogativa dos humanos enquanto a paixão tem a ver com nossos instintos mais primários, coisa de bicho mesmo!

O processo da paixão é inconsciente, ou seja, funciona abaixo da linha da consciência. E isso nem é difícil de perceber, afinal quem já não ouviu alguém dizer que “não sabe” o que foi que fez com que se apaixonasse por determinada pessoa. Muitas vezes, depois que o período de “embriaguez” termina, aquela frase é mais do que comum: “não sei o que eu vi nele (a)”. Já no amor, ou em um sentimento mais provido de alguma razão ou bom senso, a pessoa tem uma boa clareza sobre as qualidades e defeitos do outro, ponderando as razões que fazem com que fique ou queira terminar o relacionamento.

Mas afinal, o que faz com que uma pessoa se apaixone?

Cada pessoa tem critérios pessoais do que faz alguém atraente; beleza física, poder pessoal, simpatia, sensualidade, inteligência, educação, etc.

Quando esses critérios se encontram, temos o que a paixão precisa para começar. Os homens se fixam mais em aspectos físicos enquanto as mulheres também utilizam-se de critérios subjetivos nessa avaliação. Como dizem os cientistas; o homem conquista e a mulher seleciona.

Cabe lembrar que a reprodução humana é tarefa feminina e isso explica o motivo pelo qual, muitas vezes, um homem pode se tornar interessante para uma mulher, as conversas, o conhecimento, vão dando informações que podem determinar qualidades no homem pelas quais ela se sinta atraída. Basicamente o processo da paixão para o homem tem a ver com sexo, enquanto a mulher, mesmo inconscientemente, quando se sente atraída por um homem, tem na base desse interesse qualidades que ela, por admirar, quer transmitir para o filho que irá gerar. Sendo assim, a mulher precisa admirar o homem por suas qualidades, sejam elas quais forem e aí, cada uma tem a sua lista. Quando essa admiração porventura termina, o desejo de ter filhos com esse homem deixa de existir. E nada como o dia a dia, a rotina e os problemas para que as qualidades que na paixão superavam em muito os defeitos (às vezes nem percebidos), vão trocando de importância e de peso. Aí, essa admiração fantasiosa vai dando lugar a realidade, a ilusão termina.

Quando a paixão começa, tendemos a ver a outra pessoa como alguém especial, muito acima das demais pessoas. Nós a consideramos através de um filtro especial criado pela nossa crença em sua amabilidade, desejabilidade, dignidade, etc. Isso quer dizer que projetamos sobre essa pessoa nossas expectativas de que ela é a ideal para nós e isso se dá porque nosso cérebro começa a secretar substâncias ligadas ao prazer e a as áreas responsáveis pela recompensa são ativadas. Isso também se dá, curiosamente, com as drogas. Estudos demonstram que a paixão ativa a mesma área do cérebro acionada quando os viciados usam suas drogas.

Cada um, inconscientemente ou não, esconde seus defeitos e procura mostrar com ênfase o que o outro quer ver, criando um jogo de engano com o objetivos de termos para nós essa pessoa “perfeita”. Começa aí, a criação do apego, pois nos sentimos tão bem ao lado dela (são hormônios de prazer, não esqueça) que temos a certeza que só seremos felizes com ela ao nosso lado.

É um estado de espírito inteiramente enamorado, obcecado, altamente enfeitiçado que reduz a capacidade de pensar e avaliar. A dopamina, por exemplo, liberada em abundância durante esse período, além de várias mudanças prazeirosas, também “desliga” no nosso cérebro a capacidade de análise crítica e julgamento.

Fica-se tão absorvido à espera de uma breve visão da pessoa amada que negligencia-se tudo (trabalho, amigos, família, alimentação, etc) e esse é um dos motivos pelos quais a paixão precisa ter um tempo reduzido. Manter-se assim pode fazer adoecer, afinal saímos do equilíbrio natural. Obviamente que isso é muito gostoso e traz uma euforia e felicidade. Como temos a tendência de nos viciarmos em hormônios, muitas pessoas estão sempre apaixonadas, independente do parceiro(a). Na verdade são viciados nessas substâncias e querendo se sentir assim, pelo vício, vão pulando de relacionamento em relacionamento. Quando a paixão começa seu declínio, o relacionamento já não é mais tão bom, e busca-se o próximo.

Assim, nos “viciamos” nessa pessoa “perfeita” e sempre que a vemos, ouvimos ou pensamos nela, somos inundados de prazer, e toda a atividade ligada à sexualidade experimenta intensa atividade e é por isso que durante a paixão se faz muito mais sexo do que durante as épocas subsequentes.

Com o tempo, essas substâncias químicas inebriantes, vão fazendo menos efeito, já que o organismo vai se tornando resistente a elas e loucura vai terminando. Depois, ou vem a separação ou o casal fica satisfeito com sensações menos intensas de prazer, como as que advêm do companheirismo, afeto e das inegáveis vantagens que manter um relacionamento estável pode trazer: filhos, uma vida mais saudável (regrada), progresso financeiro e outras.

A professora Cindy Hazan da Universidade de Cornell entrevistou mais de cinco mil pessoas de 37 diferentes culturas e chegou a uma conclusão: “Graças à intensidade da ilusão romanceada (paixão), achamos que escolhemos nossos parceiros; mas a verdade é conhecida até mesmo pelos zeladores do zoológico: a maneira mais confiável de se fazer um casal de qualquer espécie reproduzir é mantê-los no mesmo espaço durante algum tempo”.

Não repare, cientistas são assim mesmo, pouco românticos…

É importante entender que não podemos confundir esse estado transitório e inebriante com um sentimento mais profundo e duradouro. Por se tratar de um processo biológico não poderemos balizar o sentimento pelo período da paixão. Nada impede que se atinja um ótimo relacionamento sem ter passado pela paixão e isso é muito comum de acontecer.

O que não podemos esperar é que esse estado dure a vida toda, morreríamos cedo se isso acontecesse. Noto que as pessoas querem estar sempre apaixonadas e isso não é possível nem saudável. Viver “drogado” a vida toda sempre traz seus problemas e todos sabemos disso, independente da substância, seja a cocaína, dopamina, ocitocina e outras, produzidas em plantações, laboratórios ou no cérebro. No final, droga é droga!

No próximo artigo, trarei experiências, testes e as descobertas da neurociência sobre os efeitos da paixão e falaremos um pouco mais sobre esse excitante tema…

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Toda a bibliografia será citada no artigo final.

O tratado aqui inclui todas as espécies de relacionamentos, sejam heterossexuais ou homossexuais.

2 Comentários

  1. Jeanine de Moraes   •  

    E a vida seria um tédio mortal sem a ilusão romanceada… Ótimo artigo, adorei este blog, já sou seguidora. Um abraço, Jeanine de Moraes

    • Eduardo O. Carvalho   •     Author

      Jeanine, grato pelas palavras!
      Bem psicanalítica sua frase, a vida “crua” é mesmo quase insuportável…
      Abraço!!

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