A GRANDE ARTE

                   Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão;
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera;
outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta;
outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente;
outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem;
outra parte linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte
– o que é questão de vida ou morte –
será arte?

Ferreira Gullar

Imagine que você nunca viu um ser humano nem qualquer animal. Imagine que você observa durante dois dias um bebê recém-nascido e um hipopótamo recém-nascido. Ao final desses dois dias de observação alguém lhe pergunta: Qual dos dois é o mais evoluído? Se, durante esse tempo, você prestou um mínimo de atenção, não hesitará em afirmar, sem sombra de dúvida, de que o filhote de hipopótamo é o ser mais evoluído, isso porque nesse curto período ele já caminha, sabe procurar a mãe para se alimentar, mergulha e tantas outras coisas. Já a criança, pouco ou quase nada se movimenta e sem auxílio, inevitavelmente morreria. Isso acontece baseado em um princípio muito antigo que nos ensina que as potencialidades são inversas ao início, ou seja, o pequeno hipopótamo esgotou sua capacidade evolutiva limitada em curto período, por isso muito rápido. Já o ser humano, quase sem evolução no seu início, tem um potencial evolutivo inesgotável e pode, por seu esforço, atingir os mais altos estágios possíveis.

Porém toda a ironia e paradoxo é que primeiro precisamos nos limitar e isso acontece (e precisa ser assim) pela educação que recebemos, os famosos paradigmas (motivo de  artigo anterior), para somente depois, pela insatisfação com os limites, buscarmos o ilimitado, o cósmico. Nosso programa como humanos é baseado em imitação. Só caminhamos por que vemos outros caminharem, sem isso não buscaríamos nos levantar. Precisamos aprender tudo, mas se quisermos avançar, precisamos desaprender, desobedecendo velhas ordens que nos mantêm seguros e confortáveis, mas isso não é vida, é morte!

Nosso corpo precisa de rotina e de conhecido, já que isso o ajuda a manter-se vivo. Pena, que como a questão é só manter o corpo vivo nos acostumamos pela segurança a estarmos infelizes, acomodados. Repetimos velhas frases mentalmente que ouvimos do tipo: “viver é sofrer”, “Deus sabe, devo mesmo merecer” ou ainda “o sofrimento nos purifica” e tantas outras que, repetidas mil vezes se tornam nossa verdade.

A busca pelo avanço, como nos ensina Gurdjieff, inicia-se por um estado de insatisfação com o que somos e um desejo forte por sermos melhores e colocarmos um ponto final no sofrimento, medo e angústia.

Assim o ilimitado precisa transcender o limitado, ou seja, se nossa percepção não vencer o corpo (nesse sentido falo do medo que ele tem do novo), nos manteremos estagnados evolutivamente. Assim como um rio contém vida pelo movimento da água, a falta desse movimento a torna estragada e nada nela pode sobreviver. Nossa tendência, se nossa percepção estiver ligada ao transitório é buscarmos uma acomodação em tudo, o que nos faz perder toda a capacidade de realmente vermos o mundo a nossa volta e nossa vida propriamente dita.

Elevar nossa percepção é a chave que nos permite qualquer mudança. Em nosso último artigo, escrevi sobre a mente alerta que nada mais é do que essa atenção plena, em que se abrem todas as possibilidades.

Somos nosso passado!

Pensamos nossa vida baseada no que já vivemos, nos medos que nos impuseram e nos limites que aqueles que imitamos tinham para suas próprias vidas. Freud defendia uma ideia interessante de que algumas pessoas tinham um certo receio e chegavam inconscientemente a se sabotarem para não serem melhores que seus ídolos e referências.

Esqueça seu passado!

Ele só conta uma história de uma pessoa que não existe mais. Afinal, se hoje você faria as coisas de outro jeito, é justamente porque quem fez o que fez lá atrás já morreu. Damos, na minha opinião, uma ênfase demasiada ao passado e, como se já não bastasse o que temos, vamos buscar ainda mais em outras vidas… Concordo que, em certos casos, é bom um estudo sobre nossa história, mas sempre muito de vez em quando. Nossa vida é presente e de nossas ações agora, é que teremos o nosso amanhã. Não tem como andar para frente olhando para trás o tempo todo.

Só estando “atento” é que somos capazes de escolher o caminho que vamos seguir. Nesse momento até notamos nossos condicionamentos, mas podemos controla-los justamente por estarmos consciente deles.

Assim como a água é composta de hidrogênio e oxigênio, somos compostos daquilo que podemos chamar de essência e daquilo que aprendemos desde o nosso nascimento. Se nos fixarmos apenas na nossa essência teremos dificuldades de viver plenamente, afinal a vida é no mundo e precisamos saber como nos mover dentro dele. Se não aprendemos nada, se não recebemos nada do exterior como, por exemplo, vamos lidar com as tecnologias e os avanços? Quem já não viu pessoas que chamamos de ingênuas, inocentes que são facilmente enganadas. Falta a elas o aprendizado exterior. São o que chamamos de “puras” ou não contaminadas pela “vida” e suas eventuais maldades. Essas pessoas não vivem plenamente.

De outro lado, se nos fixarmos apenas no que aprendemos, completamente desconectados do que somos realmente teremos um inevitável sofrimento. Mesmo que não percebamos, quanto maior a distância entre como vivo e o que realmente sou, maior tensão e uma insatisfação que nada consegue suprir. Temos aqui, as pessoas que ficam buscando fora de si, o tempo todo, a solução dos seus problemas internos, advindo totalmente do fato de não terem nenhum conhecimento de si e estarem totalmente afastadas de sua verdade pessoal. Com o tempo, sintomas, doenças autoimunes (provocadas pelo próprio corpo) são quase inevitáveis. Quanto maior essa desconexão, mais grave!

Toda a “arte” é encontrar esse equilíbrio, e isso está longe de ser fácil. Se fosse, as pessoas estariam equilibradas e felizes e todas essas farmácias que se proliferam cada vez mais (tem uma a cada cem metros, já reparou?) seriam lojas, lanchonetes ou outra atividade qualquer não ligada à doença.

Como toda a teoria precisa de alguma prática, convido o leitor a tomar consciência do que realmente gosta, que atividades lhe fazem realmente bem, dão prazer. Observe que, em seus momentos de dificuldade são as primeiras coisas que são sacrificadas. Tudo que nos faz bem, tendemos a considerar supérfluo ou facilmente descartável. Assim temos muito mais tempo para nos dedicar ao que não nos dá nenhuma satisfação ou prazer. Se você tem essa tendência (é quase geral) significa que existe um claro distanciamento da sua essência, afinal, se minha conexão é boa, dificilmente me “abandonaria” dessa forma, privilegiando o sofrimento. São justamente as atividades prazerosas que nos dão sustentação para os enfrentamentos do dia a dia e das inevitáveis dificuldades que a vida sempre nos oferece.

A poesia de Ferreira Gullar que ilustra nosso texto, que pode ser lida agora mais profundamente, é um convite para juntarmos essas duas partes, e realmente essa é a grande Arte!

**Não esqueça que voltaremos com novos artigos quinzenalmente.

2 Comentários

  1. Maria Inês   •  

    Excelente artigo a começar pela ilustração da poesia de Ferreira Gullar que emociona e convida ao encontro dessas duas partes: o que sou e o que desejo ser. Calou profundamente em meu ser a leitura, percebi essa dicotomia do aprendido e do aprender, sonho e realidade, verdade e ilusão. Desejo encontrar o equilíbrio diante dessa dicotomia e penso que estou a caminho. Grata

  2. Andréa Menezes Rocha   •  

    Podemos buscar a acomodação, mas há um despertar em nosso íntimo que não nos permite este equívoco! A desordem surgirá para que busquemos as devidas mudanças e possamos avançar. Por isso é imprescindível investir no autoconhecimento. As percepções sinalizam este despertar!
    Obrigada Eduardo por propiciar estas reflexões e ajudar na minha caminhada!

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