A Educação essencial – 2a Parte

“O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos. Ser feliz é ser autossuficiente”.

                                                   Aristóteles

                                                                                                                                                   samsara-roda-bhavachakra

Você se lembra do que estava te preocupando no começo de junho do ano passado? Ou mesmo com o que problema sua mente se atormentava em março desse ano?
Para a grande maioria a resposta será “não”.

Já reparou também, que sempre que sua vida está tranquila, você mesmo acha muitas vezes ridículo o “problema” que passa a incomodá-lo? Chega até a dizer ao seu interlocutor: “você vai achar graça do meu problema”.

Por isso é importante entendermos que nossa mente vive de criar problemas, e como a maioria acredita ser sua mente, passa a vida se preocupando o tempo todo, esperando que, se o problema do momento for resolvido encontrará finalmente um pouco de paz. Nunca vai acontecer!

Justamente por isso, a maioria das terapias tende a ser de longo prazo, visto que, quem procura ajuda, faz isso com o objetivo de resolver seus problemas e eles jamais acabarão, pelo menos enquanto estivermos habitando esse corpo dotado de uma mente.

Lembre que a mente cumpre função de sobrevivência e isso fará com que ela sempre deixe você preocupado com alguma coisa, visto que se essa “coisa” acontecer poderá trazer sofrimento. A finalidade então é tomarmos as providências para que tal coisa não aconteça. Só que isso, por ser função fundamental da mente, nunca terá fim.

Já mencionei uns cem números de vezes que nossas mais antigas preocupações, justamente por serem antigas, nunca aconteceram. Pense no tempo e energia que se desperdiça, uma vida esperando que alguma coisa aconteça. Tudo isso é uma grande bobagem, mas continuamos o tempo todo assim, criando um vício de estarmos preocupados, seja com o que for.

Qual o seu medo de hoje, por exemplo? Ele é inédito ou por falta de coisa mais criativa é dos seus modelos vintage de preocupações?

Todo meu esforço em falar desse assunto muitas vezes e de forma diferente é justamente buscar entender a natureza da mente e diminuirmos, e por que não, extinguirmos todo o sofrimento desnecessário. Como já sabemos, nosso corpo sofre com isso, pois a pressão dos pensamentos negativos nos mantêm tensos e isso sempre termina em alguma doença.

Nosso principal vício é de ficarmos pensando em coisas irreais, projetadas para um futuro imprevisível, ou vindas de um passado tão ficcional quanto.

Quando acontece de estarmos em um momento de certa tranquilidade esse vício fica criando preocupações novas para atender esse jeito doente de viver. O fato de estarmos sempre preocupados é, em última instância, um comportamento que faz parte da cultura que vivemos e, no fim, é muito pouco inteligente.

Quem garante que a pessoa tal vai morrer?

Qual a real certeza de que uma doença virá?

É mesmo “certo” que ficaremos sozinhos e abandonados?

A pobreza ou uma vida miserável no futuro é mesmo uma certeza?

O sofrimento do passado nunca vai mesmo acabar ou se repetir? Tem certeza?

O futuro é uma possibilidade e termos algumas atitudes previdentes em relação a ele não é errado, mas agirmos como se elas fossem uma certeza, beira mesmo a psicose.

Enquanto nossas alucinações não se confirmam, continuamos bobamente esperando por elas, com cada vez mais certeza, afinal se ainda não aconteceu, é porque vai a qualquer momento. Reflita sobre se isso é ou não um absurdo.
Tudo que acontece sempre nos pega de surpresa mesmo quando estamos esperando e isso é uma grande ironia. Mas mesmo sabendo, isso não muda essa doença de preocupações com as quais se faz fortunas, girando bilhões de dólares em remédios, planos de toda ordem e bens de consumo que imaginamos ao tê-los, pararemos de nos preocupar.

Seria tão complicado ensinarmos as pessoas sobre o funcionamento da mente? Teria alguém, como disse na primeira parte desse artigo, dificuldade de entender isso aos doze ou quinze anos?

Nunca conseguiremos terminar com isso, já que essas preocupações tem a finalidade de nos manter mais tempo vivos, agindo previdentemente, mas podemos nos dar ao direito de não ficarmos o tempo todo acreditando nessas bobagens e nos acostumando a estarmos sempre com alguma “minhoca” na cabeça.

Esse jeito de viver termina se tornando parte de nós e noto como as pessoas se sentem estranhas e inadequadas quando não estão sofrendo por alguma coisa. Elas dizem se sentirem “frias”, como se estar preocupado, sofrendo situações que não são suas ou que não existem, mostrem nossa solidariedade e medem o quando gostamos ou não de alguém.

Guarde isso para quando for mesmo REAL, e aí se justificará. Fora disso, busque uma libertação, que será lenta e gradual. Não há como alguém, de uma hora para outra, parar de sofrer desnecessariamente, sem achar que enlouqueceu.

Nosso maior obsessor é nossa mente e esse vício idiota de estarmos sempre sofrendo por qualquer coisa, até mesmo pelo que viu na televisão ou leu no jornal, que nem parte da sua vida faz. Note como acontecimentos que nada tem a ver com você podem “estragar” seu dia. E o pior; saímos contando isso para todo mundo para mostrar como somos bons de coração.

Já ouvi referências que a palavra “psicologia” tem a sua raiz ou significado como ciência da alma, mas do jeito que está virou a ciência da “mente”, ou seja, trocou de finalidade e nunca chegará a lugar nenhum.

Afinal se entendermos como tudo isso funciona e pararmos de sofrer desnecessariamente, aí sobrará mesmo tempo para uma verdadeira psicologia, aquela que se preocupe em ajudar a evoluir, ampliar a compreensão, descobrir a liberdade de atribuir novos significados e não em resolver problemas, na sua maioria imaginados ou porque não resolvemos direito nossos traumas de nascimento ou da infância.

Se isso fosse verdade, como se explica pessoas que passaram por inúmeras dificuldades, sofrimentos e abusos tocarem sua vida normalmente? Talvez elas não tenham muito tempo para desculpas. Querem viver bem agora!

Não acredito em algo que dependa do passado como uma forma de entendermos completamente a pessoa que somos hoje, essa sim, que demarcará até onde poderemos chegar amanhã.

Estive pensando: perdemos um tempão tentando entender nossos problemas. Seria útil se eles acabassem depois de entendidos. Mas logo vem outro, seja novo ou dos ainda não entendidos e tudo começa de novo. Ou entendemos a mente e começamos a tratar as bobagens como bobagens ou então seremos consumidos por isso até a morte e, se houver mesmo reencarnação, na próxima vida também.

Não é mesmo à toa que os budistas dizem que precisamos nos livrar da ignorância, se não ficamos nesse “samsara*” sem fim.

*Samsara – que em sânscrito significa perambulação (devanagari), é o fluxo de incessantes renascimentos. É a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro, através dos seis ilusórios reinos: Inferno, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, Asura ou Demônios Belicosos, Ser humano, dos Deuses e da Bem-Aventurança. A menos que se adquira a perfeita sabedoria ou seja iluminado, não se poderá escapar desta roda da transmigração, ou Roda da Samsara. Aqueles que estão livres desta roda de transmigração são considerados lamas, iluminados (ou budas, em sânscrito). Fonte: Wikipedia

1 Comentário

  1. Jeanine de Moraes   •  

    Olá Eduardo, irei parabeniza-lo mais uma vez pelo teu blog. Adorei tê-lo encontrado! Muito bom, ótimos artigos, ótimas citações. Só não sei se lendo eu encontro mais respostas ou perguntas! Um abraço, Jeanine

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