A Ceia

Todos ainda estavam sentados em torno da mesa.

Como sempre, comida de sobra, com a velha desculpa que será consumida nos dias seguintes. Ao lado da mesa, papeis de presente rasgados depois da revelação do “amigo secreto” estavam amontados em um pequeno monte. Sentia-se um desconforto no ar.

Quando se come mais que o necessário, o corpo precisa se ajustar ao fastio. Uma sensação desagradável e um arrependimento obrigatório, como uma ressaca moral. O preço que o metabolismo cobra é uma certa tristeza, um ânimo rebaixado pelo prazer em excesso. Tudo tende ao equilíbrio, como um elástico, quando solto depois de esticado, fica menor por ter estado grande demais.

O rito já tinha sido cumprido. Oração, brincadeiras que se repetiam e, por fim, antes do jantar, a lembrança dos que já morreram. Alguém havia sugerido inverter a ordem, começando pela tristeza e depois rumar para a alegria. Voto vencido pela tradição que diz que a tristeza é mais importante, precisando, portanto, ficar para o final em respeito aos mortos. Fala-se como se estivessem ali, mas a reação é como se tivessem desaparecido para sempre. Primeiro a morte, depois a vida. Quanto encantamento por uma expectativa!

A matriarca passava os olhos em torno da mesa. Filhos já mais do que maduros, netos adolescentes contando os minutos para poderem ir para outro lugar. Percebia pelos olhares que trocavam. Como isso deve ser maçante para eles, pensava. Ela sabia que, quando morresse, tudo iria acabar. Nenhum dos seus filhos tinha sua determinação para manter a família unida, ou porque não gostavam desse tipo de encontro familiar. Na verdade, ela nunca havia permitido que escolhessem.

 O que a mantinha com força de continuar apesar do corpo cansado e dolorido era o próximo natal. Ver todos juntos, resultado de um encontro fortuito transformado em família ocorrido a sessenta anos atrás. Ninguém estaria ali, se ela não tivesse que se abrigar em uma loja durante um forte temporal. O rapaz simpático do balcão virou pai de seus filhos. Estaria tudo “escrito” ou um mero acaso causado por uma tempestade de verão? Pensou muito sobre isso, depois descobriu que era perda de tempo.

Chegou a pensar em perguntar se todos gostavam dessa reunião na noite do dia 24, mas desistiu. Sabia que diriam que sim, mas não estava com vontade de ver rostos com outras respostas. Melhor esperar estar enganada. Nunca conseguimos nos iludir completamente, mas existe a velha e imortal esperança de que o que está diante dos olhos e da razão seja mentira.

Faltavam crianças. Noite de natal sem elas não é a mesma coisa. O brilho nos olhos pelo esperado presente é um sinal de espanto com a vida que vamos perdendo com tempo. Crianças e velhos curtem mais esses momentos. Os pequenos estão descobrindo um mundo que vai ficando maior a cada dia. Poucas decepções, só as que os pais zelosos não conseguem evitar. Já os mais velhos, curtem tudo com ar de despedida, chegando cada vez mais perto da grande pergunta. Querendo evitar descobrir a resposta, esticando a vida, mesmo com limitações.

O filho mais velho cochilava. A esposa, ao lado, fazia bolinhas de papel com pedaços de guardanapos. Estavam todos esperando que ela levantasse para irem dormir enquanto os netos teclavam nos celulares.

Amanhã estaria sozinha de novo. Desde a morte do marido, percebeu, que a cada ano um dos filhos ficava com ela para o almoço do dia 25. Um revezamento, que a fazia sentir-se um estorvo. Como de costume, as sobras da noite ganhariam vida no almoço do dia seguinte, já em pratos do dia a dia.

No ano novo, um dos outros filhos viria buscá-la para a virada. Depois, uns dias na praia com o encarregado da vez.  Lembrou-se da Santa que passa três  dias em cada casa durante o mês, levando proteção e bênçãos, ficando, a cada visita, mais pesada na gaveta debaixo da minicapela, com mais moedas e menos notas. Sinal dos tempos.

Levantou-se da mesa com dificuldade. Todos “voltaram a vida” e fizeram os pequenos comentários habituais; “já é tarde”, “estava tudo ótimo mãe!” e o mais comum de todos: “Mais um natal se passou…”. Dias de preparativos e combinações para um jantar que misturava alegria, melancolia e constrangimento cada vez em doses mais desproporcionais. Teatro familiar obrigatório, determinado por uma data. Preferia cada vez mais comemorar seu aniversário, nesse dia ela tem certeza que estão felizes por ela ainda estar viva.

Enquanto todos se levantavam, a velha senhora desejou a todos um “Feliz natal” e saiu sem que percebessem seu nó na garganta.

Sentiu um alívio ao deitar e percebeu que estava cada vez mais cansada sem motivo, já que tudo que fazia era viver preocupada com todos e da saudade dos tempos que as crianças corriam pela casa.

As imagens dos seus cinco netos lhe vieram à cabeça e percebeu que chegará uma hora em que eles também estariam contando os dias para o próximo natal.

No ano seguinte, como a velha senhora imaginou, cada filho fez seu natal particular e a noite do dia 24 foi trocada por um almoço dias antes onde nem todos puderam participar.

 Final de ano é sempre tão corrido…

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