A Alegria

diversão

“Deveríamos estar sempre embriagados.

Tudo depende disso é a única questão.

Para não sentirdes o terrível fardo do tempo, que vos abate e empurra para o chão, embriagai-vos incessantemente.

Mas com que?

Com vinho, com poesia, com virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos!”

                                                                                            Charles Baudelaire

Esse trecho que ilustra a abertura desse artigo foi escrito em 1857 e fazia parte do livro “As flores do mal” e causou um escândalo na época. Poetas são assim mesmo; eles conseguem ver além da realidade, e, normalmente, só são mesmo entendidos muito tempo depois. Portanto, se você achou que nosso poeta estava pregando a embriaguez pura e simples é um engano. Na verdade ele nos clama a trazermos alegria a nossa vida, já que sem ela, tudo fica realmente muito chato!

Hoje a ciência pode comprovar isso desde que passou a estudar o funcionamento do cérebro. Cada vez que sentimos prazer, e isso vai desde uma boa comida, um banho relaxante, sexo, etc, esses estímulos obedecem aos mesmos mecanismos de funcionamento, e são os mesmo circuitos cerebrais que estão em funcionamento, independente de onde eles vem, seja de um prazer gustativo, táctil, uma leitura, troca de afeto ou qualquer outro. O que realmente importa, é que ao chegarem ao cérebro esses estímulos produzem uma sensação de bem estar.

Além do relaxamento, tão importante para o descanso dos músculos e sistema nervoso as sensações prazerosas trazem o grande benefício de nos conectarem ao “agora” nos tirando das preocupações que não param de nos afligir, principalmente em relação ao futuro e que mantém nosso sistema orgânico em constante tensão. Estamos formando novas conexões cerebrais a todo o momento e criando novas. Tudo que repetimos reforçam as já existentes e, quando estamos tensos demais, vamos fazendo disso nosso jeito de ser, já que nossas percepções são sentidas pelas nossas conexões mais fortes.

Momentos de alegria e diversão podem ser encarados como verdadeiros remédios naturais que nos mantém saudáveis, então não fica difícil nós estabelecermos uma relação muito curiosa: nos desgastamos, trabalhando muito, nos preocupamos demasiadamente para chegarmos ao ponto de nos permitirmos esses momentos com mais frequência, de termos essa alegria, só que para isso, muitas vezes não nos damos o direito desse relaxamento, de simplesmente fazermos aquilo que nos dá prazer até que cheguemos a esse ponto. Estabelecemos que para podermos “relaxar” precisamos alguns números expressivos em nossa conta. A pergunta que fica é se mesmo quando esse valor estiver lá, finalmente descansaremos um pouco, nos permitindo “viver”, ou continuaremos com medo?

Hoje já sabemos que essas substâncias produzidas pelo cérebro durante os momentos de alegria (endorfinas e encefalinas) são as que nos permitem ver as “cores” da existência. Sem elas tudo seria cinza, exatamente como as pessoas com depressão definem como sentem a vida. Não existem remédios para isso, já que os antidepressivos apenas atenuam os sintomas mais graves desse processo e só mesmo uma mudança de atitude e novas maneiras de se encarar o dia-a-dia podem trazer uma cura, se assim podemos chamar.

Infelizmente buscamos essa alegria em atalhos que nos levam para lugares piores, como álcool, drogas e excesso de comida. O cérebro tem a plena capacidade de produzir essas substâncias agradáveis de forma natural, para isso basta apenas que nos permitamos, e para começar, respeitar nossos tempos internos também ajuda. Nossa cultura diz que todos temos que acordar cedo e trabalhar até o entardecer, mas já sabemos há tempos que cada pessoa tem um horário do dia em que é mais produtiva, também nos dizem quando devemos comer, dormir e qual o dia certo para descansar. Assim realmente fica difícil e não é a toa que a Organização Mundial de Saúde afirma que até 2020 a depressão será a doença que mais incapacitará as pessoas para o trabalho.

Sei que as coisas são como são e não estou dizendo que devemos abandonar tudo e viver de prazeres sem fim. O que estou dizendo, baseado nos estudos da neurociência, é que temos a obrigação, de em prol de nossa saúde, nos proporcionarmos bons momentos. Se você estiver esperando que alguém faça isso por você, esqueça!

O prazer indica que estamos bem! Tudo na sua hora, sem stress. No calor, uma sombra, na fome se permita comer o que realmente tiver vontade, mesmo que de vez em quando. Transgredir normas, pequenas, médias ou grandes, de vez em quando, não antecipará sua morte muito menos assegurará uma passagem sem volta para o inferno. Essa ideia de que devemos sofrer para nos purificar faz parte do conjunto de bobagens ainda não discutidas que vigoram por séculos.

Sempre que puder, aproveite de suas portas (cinco sentidos) e se beneficie de alegria e prazer. Faça das coisas inevitáveis que nos cansam, mas das quais não podemos nos livrar, aquilo que aumentará ainda mais sua sensação de alegria depois. Pesquisas mostram que a quinta-feira é o dia que as pessoas mais se sentem bem, afinal, o final de semana está chegando, já as segundas-feiras são recordistas em acidentes cardiovasculares, já que começa mais uma semana de tensão e problemas… Certa vez ouvi uma propaganda no rádio que dizia que, para o otimista, para cada cinco dias de trabalho tem dois de férias! Esse é um exemplo de reinterpretarmos as coisas, tornando-as mais leves. Como já escrevi anteriormente, só as pessoas realmente livres tem a capacidade de dar novos significados às situações.

Ninguém nasceu para sofrer, ou só para trabalhar de sol a sol. Nos fizeram acreditar nisso e olha como estamos. Veja uma criança e lembre que uma época você não precisava de quase nada para rir e estar bem! Nesse aspecto, é interessante observar que as pessoas dizem que a infância é uma ótima fase não porque se brinca, mas porque “não nos preocupávamos”!

 Nascemos para Ser, e isso inclui muita alegria, divertimento, trabalho, compromissos e prazer. Aliás, já reparou que tudo que é bom é pecado ou engorda?

Você pode estar dizendo que já sabe tudo isso, que já refletiu sobre o assunto ou leu em algum outro lugar. Só que se isso ainda não se transformou em atitude, significa que você não sabe nada!

Somos nossas atitudes, o resto é informação que se consegue até de graça, como nesse artigo, por exemplo…

Para saber mais: “A fórmula da Felicidade” Stefan Klein ed. Sextante

1 Comentário

  1. Sandra Lima   •  

    Meu tio dizia que se ele fosse dono de uma fábrica de cerveja, o nome da dita seria “Atitude” e a propaganda seria:”tome uma atitude todos os dias!”.Aproveito a deixa para lembrar aquele velho,mas atual bordão:todos os dias, ao acordarmos, vamos tomar uma atitude e escolher sermos alegres e felizes naquele dia, afinal é para isto que vivemos……

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