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O último dia

“…e o indivíduo que se dedicou a vida inteira à Filosofia, terá de demostrar-se confiante na hora da morte, pela esperança de vir a participar, depois de morto, dos mais valiosos bens.”

“Embora os homens não o percebam, é possível que todos os que se dedicam verdadeiramente à Filosofia, a nada mais aspirem do que a morrer e estarem mortos. Sendo isso um fato, seria absurdo, não fazendo outra coisa o filósofo toda a vida, ao chegar esse momento, insurgir-se contra o que ele mesmo pedira com tal empenho e em pós do que sempre se afanara.”

        Platão – Fédon

“É incerto onde a morte nos espera, aguardemo-la em toda parte. Meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar. Não há nenhum mal na vida para aquele que bem compreendeu que a privação da vida não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e imposição.”

“Filosofar é aprender a morrer.”

       Montaigne

O julgamento de Sócrates

A execução de Sócrates

Fédon conta como foi o último dia de Sócrates, condenado à morte. Reunidos com seus amigos e seguidores, Sócrates reflete sobre a morte e a imortalidade da alma. Demostra estar tranquilo, horas antes de ter que ingerir a sicuta fatal. Diz que sua alma se libertará do corpo e poderá, livre dos desejos, da precariedade e transitoriedade física encontrar a “Verdade”, que só a alma pura pode reconhecer.

Fédon é um belíssimo texto e mesmo que você não concorde com as ideias metafísicas de Platão merece ser conhecido. É um dos grandes momentos da filosofia, delicioso de ser lido. Filosofia, infelizmente muitas vezes tratada com tanto esmero por alguns autores que torna os livros maçantes e de difícil entendimento. Escreve bem quem se faz entender facilmente e não há nada tão complexo que não possa ser escrito de forma simples. Por traz de uma tentativa de elitizar o pensamento e rebuscar o texto, está, muitas vezes, um mau escritor. Saber transmitir é uma arte diferente de saber pensar.

Em determinado momento, Sócrates diz que o filósofo e o religioso lidam diferentemente com o fenômeno da morte. O primeiro busca entende-la pela razão e o segundo com a explicação imposta pela fé que segue.

Quando buscamos entender a morte pela via da religião, é como se escolhêssemos (normalmente depois de adulto, já que a criança tem isso imposto) a “explicação” que melhor nos conforta, que traga alguma lógica e que, de preferência, a torne melhor do que a vida física. Quando nos cultos e eventos patrocinados pela religião nos reunimos com pessoas que adotaram essa explicação, isso traz conforto e a esperança de que, por tantos pensarem assim, essa é realmente a verdade. O problema é que, junto com a explicação sobre a morte vem toda uma metafísica sobre os mundos celestiais e o como devemos viver seguindo as normas estipuladas pelo deus a quem se presta culto. A não observância da conduta, levará o transgressor a momentos desagradáveis depois que abandonar a vida física. Dessa forma, essa morte com sentido e bela tem um preço: aceitar as regras. Quando as explicações sobre a vida aqui nesse mundo não dão muito certo, o buscador volta a prateleira do supermercado da fé atrás de um novo produto mais completo e que atenda a sua expectativa mais atual.

Além disso, tem um problema; a explicação sobre a morte é aceita por adequação ou atendimento de expectativa, estando, portanto, longe de passar pela reflexão. Fica assim, durante todo tempo a dúvida de se será realmente assim, como prometido. São vários elementos que fogem a razão que precisam ser aceitos como verdadeiros. A medida que a reflexão avança, o “pacote pronto” vai ficando cada vez mais inverossímil, e só pode encontrar abrigo no campo da metáfora, com muito boa vontade.

Também o pensador (filósofo) poderá criar seu enredo com final feliz ou não, como faz Platão e tantos outros. Tudo, por outro lado, será fruto da sua própria reflexão, o que o tornará o único crente da sua ideia. Ao compartilhá-la, buscará mostrar a outros sua lógica e, se novos adeptos surgirem, pode trazer a seu autor a ideia de que tenha encontrado a resposta a essa grande pergunta.

Já outros encontraram suas razões na via inversa da história com final feliz. Tudo simplesmente acaba, como diriam os estoicos e nossos átomos se dispersam no ar e o corpo apodrece em um renascimento mais provável no reino dos vegetais do que dos humanos.

Não sei se Sócrates conseguiu chegar com sua alma ao mundo suprassensível e encontrou a verdade; aquilo que é imutável e eterno, escondido de nós, aqui nesse mundo que vivemos pelas aparências que sempre estão em processo de mudança. Filósofos desde sempre procuraram essa força ou essência que dá origem a diversidade do mundo e aí, como não podemos comprovar (nunca saberemos), vale tudo!

Alguns, mais modernos, preferiram não perder tempo com isso e se dedicaram mais a vida real do que a do outro mundo. Esses, muito mais interessado na evolução aqui, preferem não ligar muito para outros mundos, já que eles são tão “outros” que é uma perda de tempo preocupar-se com eles, além da possibilidade que nunca pode ser descartada de que não exista mais nada do que imaginamos, justamente por estarmos imaginando.

Pode ser que o filosofar ensine a morrer por simplesmente chegar à conclusão que pensar na morte só serve para trazer alguma pressa, para essa vida aqui ser melhor do que é. Vai ter uma hora, se tudo der certo e a vida for longa por tê-la vivido bem e não mais poder fazê-lo pela deterioração, que a morte passa ser uma boa saída e vista com bons olhos como disse Simone de Beauvoir.

Para encerrar, tem uma pequena história, descrita por Sallie Nichols*:

“De uma feita, descontente como progredia seu trabalho na Terra, o Diabo reuniu seu conselho, pedindo voluntários para uma missão na terra e solicitando sugestões sobre o que se poderia dizer a humanidade que viesse a favorecer sua obra. Um espirito mau sugeriu que dissesse aos homens que Deus não existia. Outro sugeriu que se propalasse o boato que não havia alma. O diabo não gostou.

Finalmente, outro sugeriu que se dissesse aos homens: Não há pressa.

A esse a missão foi confiada.”

Pensar na morte, só mesmo se for para termos mais pressa de uma vida que valha a pena. Mais do que isso é procurar o que nunca será encontrado, desviando a atenção sobre o que realmente interessa e é real.

Pela razão e reflexão só poderemos três coisas: validar enredos já existentes, criar novos ou simplesmente deixar para lá por descobrir que o pensamento não abarca a sua própria não existência.

De um jeito ou de outro, o cansaço chegará e a morte também. Melhor descobrir o que virá vindo de uma boa vida; exatamente como quando nos deitamos para dormir depois de um ótimo dia…

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Platão – Fédon – Coleção “Os Pensadores”

* Sallie Nichols – Jung e o Tarô – ed. Cultrix