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Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril

Os mundos

De longe, dava somente para ver os olhos grandes e arregalados. Um bico azul escondia a boca e fazia uma boa combinação com as bochechas rosadas. Eu estava do outro lado da rua, esperando a boa vontade de alguém parar e deixar que atravessasse na faixa de segurança.

Ele estava na parada de ônibus, no colo da sua mãe. Ela o sacudia e isso o deixava desconfortável. Queria ver o mundo, mas como fazê-lo subindo e descendo sem parar? Dava para notar que a jovem mãe não estava ali. Estava no mundo dela, pensando no trabalho, nas dificuldades e sonhos que não deram certo. Seu olhar perdido poderia também estar no futuro, imaginando seu filho crescido, naquele mesmo lugar indo para o trabalho, quem sabe com sua mesma tristeza. Nela, não havia brilho.

Poucos segundos depois ela parou e ele pode olhar o mundo. Olhos brilhantes vendo as pessoas que passavam, carros coloridos e, quem sabe, alguém o observando do outro lado da calçada.

Do pouco dos seus dois anos o mundo é uma novidade. Nessa idade não temos passado nem futuro e até respiramos diferente. Quando não estamos alucinando, o tempo é outro e dá até para esquecer quem e o que pensamos que somos.

A mãe com suas preocupações, eu com as minhas. Ambos querendo controlar a vida, medo que nunca acaba. Ele não tem nada para esquecer, nada para pensar a não ser ir juntando as peças desse quebra-cabeça que sempre muda a imagem final.

Estávamos ali, os três no mesmo lugar, ao mesmo tempo, em mundos diferentes.

Percebi um carro passando vagarosamente. O motorista maneia a cabeça ao me olhar. Provavelmente parou para que eu atravessasse e, perdido em outro mundo, não percebi.

“Gente louca”, deve ter pensado.

Agora, nossos olhares se cruzaram.

Outro carro diminui a velocidade, acende as luzes para avisar aos outros e a mim que chegou minha vez. Enquanto atravessava a faixa ele me olhava fixamente, só o bico fazia pequenos movimentos.

O que acontecia na cabeça dele? Curiosidade que nunca terá resposta, assim como tantas que insistimos em encontrar. Perda de tempo em um mundo que só tem graça pelas perguntas.

Vivemos cada um em seu mundo com nossa interpretação particular, onde um final feliz é questão de tempo, de sorte ou quem sabe de um sonho que finalmente se realizará. Sentimo-nos especiais, pensando que o mundo foi feito para nós em um enredo com oito bilhões de coadjuvantes.

Seu mundo está recém sendo construído, mosaico com peças que colhe da família, das alegrias e tristezas que fazem parte dessa contabilidade que poderá tornar o enredo mais ou menos doloroso. Um dia, de alguma forma, os significados que lhe deram não farão sentido quando confrontados com a vida real. Restará rever e refazer o enredo como todos que descobriram que a crueza dos embates no mundo é bem menos romântica e épica, comparados as histórias que crescemos ouvindo onde o tudo dará certo no final.

 Como todos, ele criará cenários ideais para finalmente poder relaxar. Poderá um dia dizer que perdeu a oportunidade de sentir-se feliz, assim como eu perdi a chance de atravessar enquanto estava em outro mundo.

A mãe nada percebeu. Estava no celular, entretida com as notícias e a vida espetacular dos amigos que, com certeza, tiveram dias perfeitos. Aquela manhã trazia sol e pouca nebulosidade, e  tudo estava mais colorido. Hora de postar fotos, enaltecendo a obra da criação e a graça por recebermos um dia tão lindo!

 Provavelmente, nesse mundo redondo e cheio de diferenças, em algum outro lugar uma chuva forte, vento ou tremor poderia estar desabrigando e matando, mas aí é a fúria da natureza que sempre divide o poder com cenários espetaculares, arco íris, praias ensolaradas e finais de tarde de tirar o fôlego.

Quando passei por ele dei um sorriso e quase balbuciei um “boa sorte”. Os olhos grandes apenas me acompanharam até que desaparecesse na esquina.