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A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

Ambição e Necessidade

“ Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”.

                                                    Maquiavel

 

“O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

                                                     Nietzsche

“Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho.”

                                                     Ambrose Bierce in Dicionário do Diabo

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Maquiavel foi um dos muitos injustiçados da história. Ter seu nome vinculado a atos de maldade e interesses escusos é no mínimo uma constatação de que não foi lido. Seu grande mérito, em meu entender, foi transformar Reis e Príncipes que, em sua época, só prestavam contas a Deus, em políticos. Políticos são pessoas comuns, como eu e você, que querem o poder e, para tanto, fazem o que deve ser feito. E aqui cabe já uma curiosidade: Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Essa frase famosa nada mais é do que uma interpretação ou tradução malfeita. Poucos em tão poucas linhas (seu livro O Príncipe é pequeno) desnudou a natureza humana com tanta precisão e sem afetamentos. Maquiavel nunca falou de um homem idealizado mas do real, que quer atender seus desejos e busca a felicidade pelo caminho que sua capacidade de percepção permite.

Aliás, é nesse ponto que podemos começar: existe mesmo uma “natureza humana”?

Alguns, como Heidegger, dizem que não; que nossa natureza se faz na medida em que vivemos, que somos sempre uma possibilidade muito moldada pelo contexto onde estamos inseridos. Que o fato de vivermos em grandes conglomerados nos empurram para sermos muito parecidos uns com os outros e isso se dá pelos limites de expressão cada vez menores que temos como condição de podermos viver junto a uma grande quantidade de pessoas. Heidegger diz que o homem que vive mais junto a natureza e com menos pessoas a sua volta consegue uma originalidade maior em seu Ser, na medida em que está menos pressionado. Poderemos, para apoiar essa ideia, nos perguntarmos se existe um número menor de doenças emocionais em quem vive em lugares menores em comparação a centros urbanos mais povoados.

Seria lícito observarmos que, à medida que a sociedade se “desenvolve”, cada vez mais aumenta o número de pessoas com doenças ligadas a ansiedade, visto que o cerco está se fechando cada vez mais em termos de expressões individuais. Cada vez precisamos seguir mais um padrão de normalidade, o que negaria a biologia, já que para esse ramo da ciência não existem duas pessoas iguais.

A ansiedade, conhecida como o “mal do século”, é definida como um sentimento de apreensão em relação ao futuro, um medo constante de que algo que tememos venha a acontecer. Aqui poderemos, usando da liberdade, dar mais um passo e dizer que em um nível mais profundo, a ansiedade é o medo de nunca sermos únicos em relação aos demais, da originalidade que nunca se expressa.

Para quem entende que existe uma natureza comum a todos os humanos se apoia na ideia que temos semelhanças entre os homens, e isso só poderá acontecer se houver algo em comum.  Podemos, em tese, sermos tudo que outros seres humanos já foram, colocando até um toque pessoal. Mas mesmo que possamos ser qualquer coisa, não quer dizer, necessariamente, que realmente seremos isso ou aquilo. É como se a ideia de uma natureza comum se baseasse em um potencial que todos temos, mas sabemos que um potencial não quer dizer sua efetiva realização.

Esse é um assunto polêmico que não chegaríamos a uma conclusão, mas Maquiavel faz uma dura assertiva que nos coloca dentro de um padrão comum; que os seres humanos só agem por ambição ou necessidade. Se ele estiver certo, mais do que termos algo em comum, além da constituição física, somos todos prisioneiros.

Quando agimos por necessidade não temos escolha. A necessidade está ligada a sobrevivência e isso tem vários níveis, não só não morrer de fome. Necessidade também está ligada a um desejo que precisa ser atendido rapidamente, sob pena de nos trazer sofrimento. A necessidade não nos dá muitas escolhas e o que muda é a categoria: urgente ou emergência. Assim, não temos muita liberdade e nossas ações são mais reativas, já que estão sendo impulsionadas por uma pressão interna. Agir por necessidade não é um ato livre ou proativo já que é um desejo extremo a ser satisfeito que está na origem do ato.

Já ambição, ah…a ambição! Maquiavel diz que somos todos ambiciosos, e até querer não ter ambição alguma não deixa de ser uma espécie de ambição. Quando quero ser visto, por exemplo,  como alguém “superior”, que é desapegado da materialidade, quase um santo, a ambição de ser admirado e elogiado é o desejo a ser satisfeito.  Aqui também está presente uma necessidade que se ambiciona.  Afinal o homem é um ser desejante, age por desejo, busca realizá-los e é isso que o move na vida. Quando dizemos que não desejamos algo é somente por dois motivos: não entender que aquilo possa fazer-nos mais felizes ou não nos achamos em condições de obter tal desejo. Temos uma forte tendência de dissimular nossas ambições, até como uma condição para que elas possam se realizar um dia. Ambicionar viver longe de todos em uma praia deserta ou em um bosque lindo é simplesmente um desejo de fugir de constatações sobre nós mesmo que, por não serem muito agradáveis, projetamos sobre os outros.

 Ambição é tão institucional em nossa sociedade de consumo que não pega bem em uma entrevista para auxiliar de escritório de uma multinacional dizer que você não almeja ser o CEO no futuro.

Júlio Pompeu, em seu ótimo livro sobre Maquiavel diz com precisão:

“Nossos desejos são ilimitados. Eles não são uma demanda do corpo pelo que lhe falta, mas muito mais do que isso, são demandas por tudo que não possuímos. Se os desejos fossem apenas uma demanda do corpo físico, uma busca pelo que ele necessita para viver, como água, alimento, etc., então a saciedade do corpo seria o limite dos desejos. Mas nosso desejo não tem limites. Eles são a demanda do homem como um todo. De sua inteireza: corpo físico e psíquico. Desejamos não apenas o que falta ao corpo, mas também o que falta ao espírito, como riquezas, prestígio, honrarias, poder, etc.

O corpo físico é saciável, o espírito não. ”

E arremata dizendo que “a ambição é apenas uma valoração cínica ou alienada do desejo.” E nunca podemos esquecer que junto com a ambição nasce a esperança de que ela se realize. Para Maquiavel, essa combinação leva o homem para o abismo, já que ele pode perder a capacidade de avaliar seus riscos.

Assim, ambição e necessidade são como tijolos unidos pelo desejo. Essa para Maquiavel é a nossa natureza comum e isso não deve ser visto como bom ou ruim, simplesmente é assim.

A ambição nos faz maus, já que não queremos ser assim e os desejos nos enfraquecem por não os conseguir, todos.

Ter essa consciência é o que pode mover o homem para evitar que seja arrastado como tantos outros já foram, e são diariamente, por atitudes que os desonram. Se Maquiavel fosse vivo em nossos dias ele seria muito previdente contra essa fúria que pede a execução em praça pública dos corruptos. Ele simplesmente diria que os que desejam a execução sumária nunca tiveram milhões à sua frente para poder recusar.

As ideias de Maquiavel sobre como somos não são o que nosso ego gostaria de ouvir. Mas a atualidade dos seus pensamentos, tantos séculos depois, mostra que poucos foram tão efetivos e objetivos em nos desnudar. Muitos outros, falaram de um tipo de homem idealizado, potencialmente bom, piedoso e com outras qualidades difíceis de encontrar na realidade. Kant com seu imperativo categórico de uma ação universalmente boa e totalmente desinteressada ou Rousseau, com uma certa ingenuidade, quando diz que o que nos torna maus é a sociedade e que é ela que devemos mudar para que nossa natureza piedosa aflore, falam de utopias. Nossa capacidade de fazer o bem é a mesma de fazermos o mal, e isso, para Maquiavel, serão ações sempre tomadas por desejo ou necessidade.

Somente nos aceitando como somos que poderemos ir além ou, apesar de ser como somos, sermos melhores.

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Para saber mais:

Somos todos maquiavélicos – Júlio Pompeu. Editora Objetiva, 2011.

O Príncipe – Maquiavel – obra de domínio público.