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Os ovos de páscoa e a vida

Crônica publicada no jornal FolhaSC em 23 de fevereiro de 2016

Semana passada, andando pela rua percebeu que estava acontecendo alguma coisa errada. Na hora, ficou na dúvida entre ligar para o psiquiatra ou neurologista e ali percebeu que precisaria definir melhor as competências.

Diante de um obstáculo que só aumentava a angústia, procurou simplificar e ligou para o amigo que tinha o melhor bom senso que conhecia para ajudá-lo a entender sua situação.

O amigo atendeu o telefone solícito:

– E aí? Tudo bem? O que você conta?

– Estou com um problema.

– Mas o que houve?

– Penso que perdi parte da minha vida.

– Como assim?

– Estamos em fevereiro, ainda no horário de verão, certo?

– Sim.

– O natal foi praticamente ontem, tanto que tem uma camisa polo que ganhei do meu cunhado que ainda nem tirei do pacote.

– Não estou entendendo, o que tem a ver tudo isso que você está me contando?

– A vida…

– O que tem a vida?

– Tá passando muito rápido, muito rápido!

– Mas isso é normal, todo mundo fala. Você tem dormido direito? Teve algum estresse em casa ou no trabalho?

– Não, nada muito importante. Tenho dormido até bem.

– Então seu problema é a velocidade da vida, é isso?

– Não, pior. Não estou vendo a vida, devo ter perdido alguma coisa depois do ano novo.

– Como assim perdido?

– Os ovos de páscoa.

– O que é que tem os ovos de páscoa?

– Eu os vi. Estão por todos os lados.

– Você está vendo ovos de páscoa por todos os lados? É um delírio, você está tendo alucinações?

– É o que acho que esteja acontecendo comigo.

– Só um pouquinho, aguarda na linha.

O amigo coloca a mão no bocal do telefone e chama a secretária. Quando ela entra na sala ele pergunta:

– Dona Cleusa, a senhora que anda pela rua me diga uma coisa; já tem ovos de páscoa para vender?

Dona Cleusa sem hesitar respondeu:

– Já, vi no supermercado e o senhor não tem ideia dos preços. Se estivéssemos mesmo em uma crise não haveria esse abuso!

– Tudo bem dona Cleusa, obrigado.

Esperou a secretária sair da sala e voltou a falar;

– Onde você viu os ovos de páscoa?

Respondeu sussurrando:

– Eu estava no shopping na primeira vez. Depois vi no calçadão.

– Fala mais alto! A ligação está ruim.

– Não, sou eu quem está falando baixo.

– Por que?

– Se estiver louco não quero que ninguém saiba.

– Mas pelo que acabei de consultar, isso é verdade, os ovos de páscoa já estão por todos os lugares do comércio. Você não está ficando louco.

– Mas e o tempo?

– O que tem o tempo?

Começando a chorar disse:

– O que aconteceu entre o natal e os ovos de páscoa? Eu nem vi passar!

– Como assim não viu passar, você perdeu a memória?

– Acho que sim, foi como se fosse ontem, sempre demorou entre o natal e a páscoa.

– Mas você ficou em casa, de cama?

– Não, minha mulher disse que fui trabalhar todos os dias. Que chegava em casa todo dia normalmente e até sexo a gente fez por esses dias?

– E você não lembra?

– Não, mas aí pode ser por ser sempre do mesmo jeito. Não acha?

– Bom, isso é.

– Você acha que devo procurar um neurologista ou um psiquiatra?

– Acho que neurologista, afinal você não está “vendo coisas”. Liga para o doutor Carlos Alberto, falam que é muito bom.

– Ok amigo, obrigado por me ouvir.

Depois de colocar o telefone no gancho, voltou a chamar a secretária:

– Dona Cleusa, liga para o doutor Carlos Alberto, aquele que é neurologista e marca uma consulta para mim.

– Sim senhor, mas o senhor está com algum problema?

– Sabe dona Cleusa, acabei de falar com meu amigo e descobri que ele não está nada bem. E o pior é que percebi que também não estou.

– Mas por quê?

– São os ovos de páscoa, eles estão me mostrando que não estou vendo a vida.

Enquanto dona Cleusa ligava para o neurologista, ficou pensando; o que tinha mesmo acontecido entre o natal e os ovos de páscoa?

Todas as quintas

Crônica publicada no jornal FolhaSC em 16 de fevereiro de 2016.

 Cheguei a perguntar para o barman se ele vinha todos os dias, com um sorriso, respondeu que ele vinha sempre as quintas, como eu.

A mesa que ele escolhe é uma de canto, daquelas que se vê quem entra e sai do lugar, e quase não se é visto. Uma leve escuridão o encobre, e o que posso ver é a manga da camisa branca que aparece no pulso, por baixo de paletó. Sim, ele está sempre de terno.

Quando vou ao banheiro passo por ele, mas evito olha-lo diretamente, sei lá o que ele pode pensar. O copo de destilado está sempre lá, enquanto na outra mão um cigarro parece eterno.

Imagino que tenha uns setenta anos e usar terno deve ser uma questão de hábito. Vai que pode ser ainda mais velho e chegou a viver no tempo dos chapéus, como nos filmes dos anos 50, aqueles com gangster e clubes noturnos onde só mulheres elegantes acompanhavam os mocinhos e bandidos. Na época todos fumavam e as cenas nas mesas tinham uma leve bruma dos cigarros, sinônimo de elegância. No palco, as orquestras animavam as danças e o charme era ser durão, mas até os homens maus tinha um estilo e brilhantina no cabelo.

Fico pensando o que alguém que já viveu tanto tempo pensa. O que ainda pode esperar da vida e sem ter algum plano que não seja, quem sabe, poder vir ao bar na próxima quinta? Interessante o fato de acender um cigarro no outro, surpreende que ainda esteja vivo. Ninguém começa a fumar nessa idade e nem para. Muitas vezes o cigarro pode ser o único amigo que ainda resta, uma companhia silenciosa e compreensiva, daquelas que o único preço a pagar pode ser uma falta de ar ou uma tosse aqui e ali.

Muitos médicos já devem ter dito para parar, mas do jeito que o vejo fumar o mais provável é que ele ainda esteja procurando por um que lhe diga que fumar não faz tão mal assim. Depois de tanto tempo e ainda podendo andar por aí e tomar sua bebida, nem precisa que ninguém lhe diga isso, ele é comprovação que a estatística não funciona para todos.

Na mão que segura o copo nenhuma aliança denuncia um casamento ou compromisso. Pode, pela idade ser viúvo, ou quem sabe nunca tenha se casado? Quantas mulheres conheceu? Pensei em sentar e pagar uma dose e falar do meu casamento, mas ele poderia me dizer que isso é problema meu, e é verdade. Se a bebida pode aproximar as pessoas, também pode deixa-las sincera demais. Melhor não arriscar.

 Viemos para beber nossos pensamentos e sonhos, nem que seja o de ter os problemas resolvidos com algum passe de mágica. O álcool faz parecer que as soluções podem ser fáceis e imaginar-se mais feliz já é possível na segunda dose. Quando passa o efeito a situação não mudou e está acrescida de dor de cabeça. Mesmo sabendo disso, venho aqui para poder, pelo menos, me sentir calmo e corajoso. Sempre saio do bar sentindo um vigor que sei mentiroso, mas ter algumas horas de descanso, ainda compensa os problemas e reclamações quando chego em casa.

Nunca o vi com um celular nem jornal ou coisa parecida na mesa. Ele fica lá, horas, praticamente imóvel e os movimentos são sempre os mesmos, levar a bebida e o cigarro à boca. Até já contei; a cada três tragadas, um gole.

Será que ele percebeu que o estou observando?

O barman disse que ele nunca puxou assunto, sempre toma a mesma coisa e que sempre dá uma boa gorjeta, quando a próxima dose é levada à mesa sem que ele tenha que sinalizar. Quando o copo chega, ele sorri com a canto da boca, como um reconhecimento pela presteza do serviço.

Ninguém sabe o seu nome, onde mora e sempre está sozinho.

Imagino que a quinta que ele não aparecer o pessoal do bar comente e sinta sua falta, mas em seguida a mesa será ocupada por outra pessoa e daqui a pouco ninguém mais lembrará dele, afinal a vida segue.

Esse pensamento me deixou melancólico. Parece que a vida das pessoas que passam por nós, na sua maioria não deixa marcas e nem as notamos. Nosso corpo vive aqui nesse mundo, mas nosso pensamento sempre está flutuando em expectativas e lembranças. Estar assim, quem sabe só, deve ser terrível! Como será comigo quando chegar nessa hora?

Quantos amigos e familiares já terão partido e a vida se resumirá a lembranças que esmagam um futuro cada vez mais curto?

O celular mostra mais uma mensagem perguntando se vou demorar. Pago a conta e quando estou na porta volto meu olhar e só o que vejo é o copo sendo colocado, lentamente, na mesa.

O cavalo e a carroça

“A felicidade é inacreditável. Parece que o homem não pode ser feliz. Se você fala da sua depressão, tristeza, amargura, todo mundo acredita, parece natural. Se você fala da sua felicidade ninguém acredita, parece antinatural”.

                                                                      Osho – O Homem que amava as gaivotas

A religião é comparável a uma neurose da infância”.

                                                                     Freud

“ Conhecimento sempre nos expulsa de algum paraíso”.

                                                                     Melaine Klein

                                                                                                                                                                                         carroça e bois

Freud é considerado o pai da psicologia moderna, note que falei “moderna”. A psicologia existe desde que alguém teve um pensamento. Evoluiu quando esse pensamento foi compartilhado. Portando, a psicologia existe a milhões de anos. Você pode argumentar que a ciência fala de 30 ou 40 mil anos do Homo sapiens, mas alguns estudos de paleoantropologia (sim, isso existe) datam artefatos descobertos que exigiram inteligência para serem feitos há, pelo menos, dois milhões de anos.

Antes de Freud a filosofia acumulou a função de psicologia nas reflexões dos gregos de 600 anos AC ou dos textos védicos, muito mais antigos ainda. Essa pequena introdução serve para dizer que o homem pensa sobre si e a vida faz tempo, e pelo visto ainda sem um resultado concreto.

O que está faltando ou estamos fazendo de forma errada?

Vivemos em um mundo tecnológico, praticamente sem fronteiras físicas e o que vemos é a humanidade cada vez mais angustiada e doente.

 Depois de mais de quarenta anos de pesquisa, Freud chegou à conclusão de que o homem não consegue ou não seria da sua natureza a felicidade. Chegou a dizer que: “A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”.

Nosso medo da morte pela sua falta de sentido e de uma explicação que nos conforte, criou as religiões. Desde daí, passamos a aceitar o sofrimento como algo inerente a vida e que a felicidade é uma utopia, ou feita de raros momentos, que “duram pouco” como diz a cultura popular. Já o sofrimento pode ser diário e é encarado como fazendo parte da vida.

Incrivelmente, muitas pessoas tem até vergonha de dizer que estão bem ou felizes. Parece que é um “peixe fora d’água”, e traz até constrangimento diante de tanta infelicidade e sofrimento por todos os lados.

Ninguém que está feliz precisa de uma religião, ou sente a necessidade de buscar algum deus, apesar de sempre dizer que seu estado positivo é “graças a Deus”. Pensando assim, a única coisa que podemos conseguir por nosso próprio esforço é estar mal, o bem vem de uma graça ou dádiva divina.

As religiões que conhecemos vivem dos nossos medos e angústias, principalmente no ocidente. Uma criança, que vive plenamente não precisa acreditar em deus ou em algum anjo da guarda de plantão e vê-las correndo e brincando nas igrejas nos deveria fazer pensar. Pedimos para que elas se calem, falem baixo ou se comportem diante da introspecção e melancolia que se respira dentro de um templo. Igrejas são feitas para ritos de pecados, culpas, dores e muita tristeza.

A tristeza precisa de um templo, a felicidade faz da vida como um todo seu templo. Você já viu alguém feliz entrar em uma igreja e ficar orando, pedindo um milagre ou intervenção divina?

Enquanto continuarmos ignorantes em relação a nós mesmos e nossas possibilidades, viveremos como crianças, pedindo proteção aqui e ali nesse grande supermercado que virou a fé hoje em dia. Aliás, a fé possível é a que cada um carrega em si, acreditando e confiando nas suas capacidades de realizar seus sonhos apesar das dificuldades. Pedimos o que já temos, afinal somos humanos e deveríamos ser mais conscientes de como somos, funcionamos e, portanto, entendendo de onde vem nossas limitações e dos potenciais criativos que dispomos, naturalmente.

Se pararmos para refletir, veremos que os momentos de felicidade que experimentamos, ou de uma gostosa gargalhada que relaxa todo corpo tem em si apenas uma coisa em comum: o não pensamento!

Pensar é angustiar-se com as perspectivas de um futuro sombrio ou de lembranças de um passado de sofrimento. Não conseguimos lembrar de bons momentos e trazer de volta a alegria, mas das tristezas que passamos, choramos novamente e a dor é como se estivesse acontecendo agora. Isso é a mente funcionando e a falta de autoconhecimento faz pensar que só somos nossa mente. Qualquer libertação parte do pressuposto da percepção que se está preso.

O homem é o único animal que pensa e isso deveria nos fazer o único ser desse planeta a ser plenamente feliz, pois temos a possibilidade de termos consciência do fenômeno da vida e de apreciá-la. Mas ficamos somente com a parte do pensamento que é automática, negativa. Ser automático não tem a ver com inteligência, mas o contrário.

 Estar consciente é um esforço que nos afasta do lado sombrio e pode nos fazer sentir a felicidade, que só é possível se dissociando ou se afastando da nossa parte animal, que busca apenas sobreviver. Nos preocupamos em saber de onde viemos, o que acontecerá depois da morte, se temos algum “carma” de vidas passadas a cumprir, se quando fomos concebidos nossos pais se amavam ou estavam brigando e algumas outras bobagens que nos mantêm em constante tensão.

Quem está consciente no “aqui e agora” não tem nenhum carma para pagar e sai dessa roda de inconsciência, onde um sofrimento leva a outro como a sombra segue o corpo. Não há futuro, afinal nada sabemos sobre o que virá, já que a vida é constante movimento e imprevisibilidade. Passado também não existe, já que mudamos e nunca realmente passamos pelo  que a pessoa que já fomos  fez.  Até nossa memória, já está comprovado pela ciência, é composta de coisas que imaginamos, muito mais do que realmente aconteceu. Só pode mesmo ser assim, afinal, como disse anteriormente, não fomos nós.

Portanto, me permitam a ousadia, quero dizer que não existe “carma”, já que não é a mesma pessoa que cometeu algum ato no passado. São conceitos que sustentam religiões, muitas que se acobertam com o nome de filosofia, que nos mantêm eternamente culpados e com medo da punição divina de algum deus que nem se sabe se existe. Isso sem falar que pode alguma entidade estar perseguindo-o por algo que, uma pessoa que você hipoteticamente foi e nem lembra, ter cometido algum ato bárbaro na idade média. Por favor!

Todas essas crenças são possibilidades e existem tantas que deveríamos, pelo menos, usando a razão, duvidar de todas. Enquanto isso deixamos a vida real se esvair enquanto “viajamos” o tempo todo nas nossas preocupações.

Temos um potencial de felicidade inesgotável, mas nosso subconsciente foi programado por pessoas que também foram vítimas dessas bobagens e não há tecnologia que nos salve desse desconforto existencial. Isso sem falar na cultura, que inclui o senso comum e as religiões que só faz nos sentirmos em dívida. Ouço pessoas que me perguntam se o mal que lhes está acometendo tem a ver com alguma punição divina ou cármica por eventuais erros do passado. Isso não existe! Se existisse, seríamos marionetes e o livre arbítrio não teria nenhuma razão.

As melhores crenças que conheço (e respeito todas), são aquelas que conseguem resistir a, pelo menos, cinco minutos de análise racional.

Quem está consciente de si e se compreende de forma ampla já pagou os seus “pecados”. O maior sofrimento é a inconsciência e estar vivendo sob condicionamentos e medos que foram passados por pessoas também inconscientes. Devemos avaliar se quem nos educou ou ensinou é alguém que atingiu um bom patamar de desenvolvimento. Se não foi, desconsidere e esqueça tudo!

Só podemos ensinar o que sabemos e vivenciamos. Quem leva uma vida de tristeza e sofrimento só pode ensinar isso, mais nada. Não posso ensinar raiz quadrada se nem somar direito sei. Isso vale para tudo. Fico pensando no valor de algum conselho sobre relacionamentos, por exemplo, de quem nunca teve um ou conviveu com alguém tempo suficiente para saber, pelo menos um pouco do que está falando.

Estar consciente é a única forma de atingirmos essa felicidade, afinal só assim temos escolha, que até pode ser de sentir-me mal. Na inconsciência só a infelicidade é possível, já que a mente nunca nos presenteará com algum bom pensamento e existem muitos textos nesse blog falando e explicando isso.

Muitas pessoas procuram a meditação, por exemplo. Isso só acontece por estarem infelizes e procurando um remédio não farmacológico para seu problema. Osho diz que meditação e medicina tem a mesma raiz e isso é muito interessante. A meditação é, de certa forma, um remédio que se busca para uma mente agitada que já está trazendo doenças para o corpo.

Não é necessário meditar quando estamos bem, pois estar bem requer consciência e é isso que a meditação busca trazer. Estar em paz com você e com a vida, com toda sua loucura, já o torna alguém meditativo, não precisa fazer mais nada, apenas viver e isso inclui tudo: trabalho, aprendizados novos e das experiências que tivemos e até pensar no futuro como uma possibilidade, afinal, quem sabe? Mas ficar tenso ou sofrendo quando nada realmente está acontecendo nos coloca abaixo de onde deveríamos estar na hierarquia desse planeta pouco importante e até mesmo no nosso discreto sistema solar.

Muitos comentam que não sabem o que querem fazer nas suas vidas, que nunca se encontraram. O motivo é simples: estão vivendo a vida e fazendo as escolhas que lhe mandaram fazer, nunca as suas. Fazer as próprias escolhas é ser desobediente às vezes, é fazer o que se quer, sendo o que se é. Se somos cópias, como descobriremos quem somos? E o pior; na maioria das vezes, cópia de pessoas infelizes.

Não existe nenhum paraíso ou inferno para ir, afinal a vida é aqui e não em algum outro lugar. Estamos querendo garantir uma próxima vida ou um lugar em algum paraíso e abrimos mão de viver o que temos hoje. Isso supera qualquer tipo de insanidade.

Pode ser que não haja outra vida. E se não houver ou for de outro jeito que ninguém descobriu ainda? Essas respostas nada mais são que crenças que visam trazer algum sentido o nos dar alguma perspectiva, mas isso ninguém pode afirmar.

Quem está apostando no futuro para viver melhor,  em outra encarnação ou viver em alguma nuvem tocando harpa está esperando, evolutivamente, que uma carroça colocada na frente de um cavalo vá sair do lugar.

Se for, é só para ir para trás.

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Para saber mais:

O Homem que amava as gaivotas – Osho ed. Versus

A história secreta da raça humana – Thompson, Richard L, Cremo Michael – ed. Aleph

O Futuro de uma Ilusão – Freud S. –  ed. L&PM pocket

A festa pagã

Crônica publicada no jornal FolhaSC em 9 de fevereiro de 2016.

Toda cultura historicamente tem seu carnaval ou algo que chamam de festa pagã, que se fôssemos resumir, seria um tempo para que soltemos nossos “bichos”. A ideia é afrouxar a rigidez social para que as pessoas possam se soltar. Desde sempre, as condutas sociais e morais ficam deixadas de lado nesses dias. Alguns dicionários as definem como festas imorais, onde os preceitos cristãos são contrariados e a bebida, a nudez, palavrões e demais más ações são liberadas.

Décadas atrás, quando havia uma rigidez maior sobre as condutas morais, nos dias do reinado de Momo, a alegria era total, já que, depois desses quatro dias tudo voltava ao normal. As antigas músicas de carnaval contavam as histórias dos boêmios casados que, durante esses dias, saiam de casa e só retornavam na quarte feira de cinzas, com olhares arrependidos e saudosos do convívio familiar. Esse enredo sempre foi uma metáfora, dizendo que nos dias de carnaval, tudo poderia ser aceito ou permitido em nome da alegria.

Uma das festas mais sofisticadas acontece na bela Veneza, onde os foliões ostentam máscaras caríssimas e roupas de séculos atrás em uma tradição que mantém seu fôlego pela elegância e é um daqueles momentos em que a ostentação ganha olhares de admiração. A origem das máscaras provém do antigo teatro grego, onde os atores entravam em cena com uma máscara na mão que tinha o nome de “persona”. Daí vem a palavra “personalidade” que pode ser muito bem entendida como as máscaras que todos precisamos usar para viver em sociedade. Como atores, uma boa dose de fingimento se faz necessária para o convívio com outras pessoas.

Mas por aqui, nos trópicos, o calor nos encaminha para poucas ou já quase nenhuma vestimenta, favorecendo, junto com grande consumo de álcool e outras drogas em geral, uma sexualização que podemos testemunhar atingindo seus limites.

O governo faz campanhas, distribui preservativos em grande escala, porque sabe que os custos das possíveis consequências que vão desde nascimentos pouco planejados à doenças de prognóstico sombrio, ver os custos dos atendimentos, medicamentos e internações estourarem o seu já combalido orçamento.

Nos últimos tempos, pelo relaxamento das condutas sexuais e morais que nossos avós conheceram bem, o carnaval ou sua finalidade já acontece todos os dias do ano. Para quem viu os de “antigamente”, as festas atuais perderam muito da graça. As músicas já não são carnavalescas e só as escolas de samba mantém na tradição do samba enredo um pouco do que foi a origem do carnaval brasileiro. Hoje, até música eletrônica toca nos dias carnaval e se os antigos sambistas saíssem de suas tumbas e vissem o que acontece, voltariam correndo para o cemitério ao se depararem com o axé e o sertanejo embalando a folia.

Mas uma das  únicas coisas que tem se mantido são os blocos de “sujo” ou, em outras palavras, os homens que se vestem de mulher para extravasar sua alegria. Em um mundo que vive sob o pensamento masculino há, pelo menos, quatro mil anos, sabemos que essa conceituação do feminino como errado e frágil, tem causado muita repressão nos homens. Não precisa ser um grande entendedor de psicologia para saber o motivo de tantos homens se maquiarem e exagerarem nos trejeitos, enquanto quase não se vê nenhuma mulher vestida de homem para brincar na folia. Como dizem que todos somos homens e mulheres ao mesmo tempo, parece que se o feminino crescesse de influência, teríamos um pouco mais de paz. Homens gostam de violência e são objetivos demais. Isso pode ser bom para os negócios, mas muito ruim para se viver em paz. Não sei se mulheres declarariam alguma guerra em que seus filhos pudessem morrer em batalhas estúpidas.

Depois da festa, manda o cristianismo que está por trás de toda a cultura ocidental, que se respeite a quaresma. Deveriam ser quarenta dias sem festa ou exageros onde os bichos interiores acalmados pelos excessos que foram permitidos, descansariam em reflexão para a chegada da semana santa. Da liberação dos instintos ao conceito do sacrifício de Cristo, a ideia é encontrarmos mais tempo para sermos bons e corretos em nossos comportamentos até chegar o próximo carnaval. Dos 365 dias do ano, são quatro para o sermos quase bichos e os restantes para buscarmos um lugar no paraíso.

Nietzsche dizia que o ser humano poderia ser comparado a uma corda. De um lado, estariam os instintos que nos aproximam dos animais e é só observar o comportamento sexual dos macacos para entender, e, de outro, podemos atingir a santidade, como alguns conseguiram, poucos é verdade.

Vivemos em constante oscilação, entre esses extremos e parece que isso nunca vai ter fim. Mas se um dia conseguirmos, enquanto civilização um equilíbrio, poderemos, quem sabe, voltar a atirar confete e serpentina como fazem as crianças nos quase já extintos bailes infantis.

 Essa sempre foi a ideia do carnaval, mas as crianças um dia crescem e os problemas da humanidade sempre foram causados por adultos mal resolvidos.

O Paranóico

Crônica publicada no jornal FolhaSC dia 2 de fevereiro de 2016.

– Doutor, minha mulher disse que estou paranoico.

– Relate detalhadamente o que está acontecendo Sr. Waldemar.

– Seguinte Doutor, eu vou contar, mas preciso que o senhor me ouça com atenção. Pode parecer banal, mas tenho certeza que existe um complô organizado contra mim.

O médico psiquiatra não pode evitar arregalar os olhos. Afinal, estava diante de um cara aparentemente normal, que trabalha em uma empresa há muitos anos e tem dez anos de casamento e dois filhos. Expressava-se corretamente, sem exagero na roupa e bem educado.

– Ok, pode começar, estou ouvindo.

– Bom doutor, tudo começou quando dei início a construção da minha casa, faz um ano. O primeiro sinal foi com a equipe de pedreiros. Eu ia à obra de manhã cedo e perguntava se estava tudo bem e se tinha material para o dia. Eles diziam que sim. Quando era dez da manhã o pedreiro ligava para dizer que o cimento tinha acabado.

– Como pode? Será que ele não sabia que ia acabar? E isso não foi uma vez, foram várias e eram assim com as madeiras, ferros, pregos e tudo mais. Só podia ser perseguição!

– Depois que a casa estava erguida, teve o cara que ia colocar o piso. Ele marcou várias vezes e nunca ia. E o pior, o que me deixou certo que isso era um plano,  era o fato que ele nem avisava que não ia. Deixava-me esperando. Quando eu ligava, ele dava uma desculpa e dizia que iria dia seguinte e faltava de novo.

O médico não se conteve e perguntou:

– Mas por que o senhor não chamou outro para fazer o serviço?

– Aí é que tá doutor, chamei. Adivinha? Também não foi! Tá na cara que era um complô. Foi aí que minha mulher começou a dizer que eu estava com esse negócio de paranoia. Mas deixa-me continuar, tem mais:

– Foram umas quinze transferências até que consegui que um colocador, esse era bom, só desmarcou duas vezes e fez um serviço direito. Daí eu pensei que podia ser tudo coisa da minha cabeça. Foi quando veio o eletricista.

O médico prontamente interrompeu:

– Esse foi?

– Também não doutor.

 Nesse momento o Waldemar já tinha lágrimas nos olhos e parecia que estava passando por tudo novamente.

– Acredita que ele sempre precisava ir embora antes de terminar o serviço? A impressão que dava era que ele tinha marcado com outros clientes na mesma hora. A desculpa era que tinha trazido o fio ou a canaleta errada. Como, se eu havia passado as especificações do engenheiro por email? Nessa hora, o que “eles” queriam era que eu cometesse uma loucura doutor. Cheguei mesmo a pensar em dar uma surra nele. Mas quando eu percebi que tudo era armado, mudei de tática.

– Como foi que percebeu que era tudo armado Waldemar?

– Porque fui no Google e coloquei meu nome e cpf lá. Não tinha nada, era como se eu não existisse doutor!

– Mas Waldemar, você usa internet, tem email?

– Não, mas meu filho de cinco anos disse que tudo está no Google. Ele não mente doutor, ele sabe! Todo mundo está no Google. “Eles” já tinham começado a querer dar um fim em mim, só pode!

O médico ainda precisava de mais dados para o diagnóstico. Como a consulta era pelo convênio, precisava encurtar para não demorar muito. Buscando ir ao final da história disse:

– Ok, entendi. Mas e depois? Conseguiu terminar a casa sem atropelos?

O Waldemar arregalou os olhos, enxugou as lágrimas e olhou em volta, como se outras pessoas estivessem na sala. Sussurrou:

– Claro que não doutor! Preciso contar sobre a colocação do gesso e dos móveis sob medida.

Impaciente e vendo os 10 minutos da consulta serem insuficientes, o médico quis abreviar:

– Também não foram?

– Pior doutor, foram. Só que me enganaram na entrega. O cara do gesso ligava todo dia para dizer que as placas estavam vindo e nunca chegavam. Já a empresa dos móveis, prometeu entregar em trinta dias e levou três meses. Isso que tinha dado uma entrada de metade do valor. Tá na cara que todos estavam unidos contra mim. Queriam que eu cometesse uma loucura ou sumisse. Agora me diga doutor; tenho alguma doença?

O médico coçou o queixo e suspirou interrompendo o Waldemar quando ele ia falar da empresa que instalou o portão eletrônico.

– Waldemar, antes de dar o diagnóstico preciso fazer uma pergunta: Você nasceu em Jaraguá, sempre viveu aqui na região?

Com cara de quem não tinha entendido o motivo da pergunta respondeu:

– Não doutor, vim transferido pela empresa para cá. Morava em outro estado.  Quando cheguei, logo em seguida comecei a construir. Mas isso interessa no meu problema?

O médico foi levantando da cadeira e com um sorriso disse batendo nas costas do Waldemar:

– Você não tem nada Waldemar. Fique tranquilo! Se isso fosse problema, seríamos todos paranoicos nessa cidade.