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Bom tempero

Crônica publicada na FolhaSC em 26 de Janeiro de 2016

O grande dramaturgo e cronista brasileiro Nelson Rodrigues foi quem mais escancarou nossas mazelas nos seus personagens. Em um deles, falando um vizinho da infância, dizia que o homem era um santo. Nunca soubera de alguma má ação do rapaz e descrevia que “ele caminhava com passarinhos nos ombros”. Quando casou, depois de algum tempo, sua esposa teria dito: “Eu queria um marido, não um santo. Se você não arrumar algum defeito vou me separar”.

Buscamos nos tornarmos pessoas cada vez melhores e isso, na nossa concepção, só chegará quando extinguirmos ou minimizarmos nossos defeitos. A esposa, desiludida com a perfeição do marido, nos mostra que alguém perfeito deve ser muito chato.

Nossos defeitos são na verdade nosso melhor tempero e os mais acentuados são os que nos aproximam e afastam das pessoas. Uma passada pela história mostra que muitos dos grandes vitoriosos só se tornaram conhecidos e admirados por estarem longe da perfeição. Ser totalmente bom traz uma sensação de assepsia humana, assim como uma sopa de hospital. Nutre, dizem que faz bem, mas, convenhamos, não tem graça nenhuma!

Na mesa, onde o que faz mal nos enche de prazer e culpa por nos fazer gulosos, mostra  que o bom e gostoso está muito ligado ao erro ou pecado.

Se pensarmos no orgulho, que, segundo alguns,  é o primeiro dos pecados capitais, fica um pouco misturado com autoconfiança e a certeza que os sonhos serão possíveis. Grandes vencedores sempre relatam que apostaram tudo em suas ideias e nem pensaram nas consequências. Quem pensa demais, normalmente é vencido pela dúvida e questiono se a prudência é mesmo uma virtude. Um mundo de pessoas cuidadosas e que pensam demais seria sem novidades. Olha quanto tempo demorou para a geladeira deixar de ser branca!

Flertamos com o mal ou errado todo tempo, nas diversas formas de arte. Ouvimos rock fazendo aquele sinal com a mão e as estampas de caveiras, demônios e bruxas não saem de moda. Somos uma agradável mistura de anjo e demônio, e expressamos ora um, ora outro, no espaço de poucas horas.

Ah, se nossos pensamentos pudessem ser ouvidos…

Temos a mania de comentar nossos defeitos e minimizar nossas qualidades como se elas fossem nossa obrigação. O limite entre a qualidade se tornar sem graça e um defeito trazer o que nos torna únicos é muito tênue. Pessoas que se mostram muito corretas mantêm o ambiente a seu redor sempre tenso. Todos se esforçam em não cometer erros diante de quem detém o ideal de como devemos ser. Dá um alívio quando o baluarte  da virtude  sai da sala ou vai dormir.

Parece que ser bom, de acordo com o padrão, exige um esforço doído e isso vem do medo de nos mostrarmos imperfeitos. Imagine o que seriam das festas se o álcool não desligasse o medo do nosso cérebro? Provavelmente desistiríamos delas, já que só sobraria solidão para podermos relaxar.

O sofá de casa ou mesmo a cama onde desabamos no final de um dia, pode ser o momento de nos aceitarmos inteiramente como somos, sem representações. É o que explica o profundo suspiro que nos acompanha quando nos permitimos relaxar.

Cumprir todas as regras de como devemos ser, vindas normalmente dos deuses, segundo dizem, deveria tornar a vida em sociedade perfeita.  Mas não é o que acontece e quando a noite cai, como uma metáfora, podemos, acobertados pela escuridão, buscar a inteireza de pecar sem ser visto. Nos desenhos animados a tentação fica de um lado e o anjo bom no outro ouvido. Como o olho brilha quando o diabinho fala!

Prazer e culpa se misturam, pois um leva ao outro. Isso pode ser a receita dos exageros que cometemos por todos os lados. Dizem os sábios que um exagero é um extremo, e nele o sofrimento está presente.

Justamente por isso os deuses gregos não saem de moda. Ao estudar sobre eles descobrimos desde o início que eles são imperfeitos e com os piores defeitos humanos. Por isso são lembrados com carinho, até para nos mostrar que a imperfeição nos acompanhará para todo sempre. Que alívio!

Talvez isso seja tão difícil de conseguir porque o caminho a ser percorrido está bloqueado pela ideia de certo e errado que ouvimos desde o nascimento. Tem uma frase de Mark Twain que diz: ”A única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer”.

O casamento do personagem de Nelson Rodrigues terminou logo depois e conta a lenda que ele nunca mais encontrou outra esposa. Parece que a perfeição está até hoje procurando entender o motivo de não ser feliz.

Quatro linhas

Crônica publicada no Jornal Folha SC em 19 de Janeiro de 2016

O bilhete ainda estava sobre a mesa no mesmo lugar que quando chegou em casa.

Já tinha lido dezenas de vezes na esperança de estar tendo um sonho. Agora sentia uma exaustão, como se tivesse participado de uma maratona sem nunca ter corrido antes. Esse cansaço, pensou, só pode ser o esforço desses últimos anos para que a relação desse certo. Sentia um misto de tristeza, mágoa e um alívio que parecia não combinar com os outros sentimentos.

O esforço terminou, mas de nada adiantou.

Quando começou o namoro ele havia prometido a si mesmo que dessa vez daria certo. Tinha aprendido nos relacionamentos anteriores a dar mais atenção e ser menos egoísta. Suas “ex” tinham as mesmas queixas e se deu conta que o problema era mesmo ele.

Mas e agora? Onde errou?

De uns tempos para cá, sentia que ela estava mais distante e desmotivada. Nada que fazia era suficiente, qualquer mínima coisa servia para uma insatisfação rancorosa. Procurou leva-la mais para sair, propôs viagens e percebia que quanto mais tentava, mais fria ela ficava. Quando ela começou com evasivas para não fazer planos para o futuro, uma sensação de perda começou a ficar cada dia mais forte.

Um amigo mais experiente com quem conversou, disse que ele estava exagerando com tantos cuidados e agrados,  e que isso fazia mais mal que bem. Lembra-se de ter argumentado que carinho e zelo demais não poderiam ser um problema e que essas atitudes eram provas de amor e ela saberia valorizar.

Parece que o amigo estava certo.

Só conseguia pensar agora que ele foi de um extremo a outro; se importava pouco e agora demais. O resultado foi o mesmo. Como é difícil?

Respirou fundo e ganhou forças para levantar da cadeira e foi na direção do quarto. As roupas, perfumes e bijuterias não estavam mais. Só um frasco de perfume, ainda na caixa, estava no centro da penteadeira. Foi o que ele havia dado de presente na semana passada, o preferido dela. Chegou à conclusão que nesse dia ela já tinha decidido ir embora.

– Mas por que não falou comigo? Gritou sozinho no quarto diante do guarda roupa vazio.

Lembrou-se do bilhete. A  resposta poderia estar lá, não diretamente, mas nas entrelinhas.

Voltou para a sala, pegou o papel e jogou-se no sofá. Leu novamente:

“Vou embora. Era para ter falado com você nos últimos dias e não deu, então vai por aqui mesmo. Já não sou mais feliz e não tenho esperança que isso mude. Espero que entenda e não me queira mal. Você é boa pessoa, mas preciso respirar. Tenho certeza que serás feliz no futuro.”

Nem assinatura havia. Como se o bilhete fosse apenas uma formalidade. Parece que ela precisava sair correndo. Na verdade ela não tinha motivos e esse foi o motivo; ele fez pelos dois e ela não precisou lutar por nada. Gostar só pode estar ligado a algum tipo de sofrimento, de luta e conquista.

Olhou em volta e reparou que todo apartamento havia sido decorado por ela. Não havia nada do gosto dele ali. Pensou nela o tempo todo e deixou que isso acontecesse para que ela nunca tivesse queixas, como um mundo perfeito. Perfeição é o que se persegue e só é conseguida com alguma espécie de erro. Mundos perfeitos fazem parte da fantasia.

Ligou para o amigo e contou-lhe o que aconteceu. Do outro lado da linha, um silêncio respeitoso esperou até que ele conseguiu controlar a emoção. O amigo apenas disse:

– Venha até aqui e vamos tomar um vinho. Saia de casa, ficar aí não ajuda em nada.

Desligou e foi tomar um banho e percebeu o silêncio que agora seria seu companheiro junto a toda essa decoração que teria que trocar. Sentiu raiva pela primeira vez.

Antes de sair pegou novamente o bilhete e só conseguiu pensar que todos esses anos terminaram em quatro linhas. Parece que sonhou sozinho todo tempo.

Apagou a luz e saiu.

Quando entrou no carro, lembrou que havia deixado o bilhete na mesa e se questionou do motivo de não tê-lo rasgado.

Aquela frase não saia da cabeça: “vai por aqui mesmo…”.

Ficou com raiva pela segunda e última vez.

Pior que o preconceito

Coluna publicada no Folha SC dia 12 de Janeiro de 2016.

Diz textualmente o jornal SINEPE/SC (Sindicato das Escolas Particulares de Santa Catarina) na sua edição de novembro 2015 na página 19: “O Sinep/SC manifesta o reconhecimento pelo trabalho de universalização do ensino e o esforço coletivo na consolidação de uma sociedade onde todas as pessoas sejam respeitadas, mas repudia com veemência quaisquer tentativas de descontruir o conceito antropológico de família, cujo fundamento é a união entre homem e mulher.” Como se não bastasse afirma pela escrita do professor Felipe Aquino:  “A genética prova, por nossos cromossomos, que só existem dois sexos: XX (mulher) ou XY (Homem).”

Depois, durante o texto, se contradiz ou busca amenizar, quando afirma que: “Discriminar uma pessoa em virtude de seus hábitos sexuais, origem étnica, religião ou qualquer outra característica análoga é não apenas estúpido como também imoral.”

Para começar,  a posição do Sindicato é claramente homofóbica, na medida em que afirma que a única união “certa” é entre homem e mulher. Essa é uma postura que não respeita os avanços sociais não só aqui, mas no mundo desenvolvido.

Qualquer pessoa minimamente informada e que viva no século XXI, sabe que a união afetiva não se dá por sexo, mas por psicologia. Qualquer casal é composto por um jeito de se expressar Masculino e Feminino,  não tendo a ver com o corpo. A expressão sexual é uma escolha, que, felizmente já é respeitada por lei. Discriminar um casal de pessoas do mesmo sexo é crime!

 A ideia de que uma família só pode dar certo com a presença de um homem e uma mulher não resiste a dez segundos de ponderação; se assim fosse os casamentos não terminariam, seriam eternos. Para procriar sim, você precisa de um macho e uma fêmea, como qualquer espécie. Mas uma olhada atenta mostra que a homossexualidade está presente na raça humana desde sempre e em praticamente todos os mamíferos, fazendo, portanto, parte da natureza. Tudo que existe, só existe por ser natural.

O problema é sempre a moralidade, normalmente ligada a crenças religiosas.

Imoral é ser infeliz, é não poder se expressar livremente.

 Imoral é abdicar das escolhas pessoais em nome de uma cultura que com seus “princípios” gera cada vez mais pessoas doentes, depressivas e angustiadas. E o pior; cada vez mais jovens.

Ser moral é ser feliz!

Ser homossexual ou heterossexual é uma escolha de como se sente melhor em relação ao ato sexual e de que companhia quer para viver ou para formar uma família. Casais homossexuais podem cometer os mesmos erros de casais de sexos diferentes, afinal somos humanos. Pensar que só um homem e uma mulher podem construir um lar saudável basta dar uma passada no Conselho Tutelar e dar uma olhada nos números que talvez mude de ideia.

Discordo do artigo quando diz que o governo quer impor para sociedade a força uma nova ordem, o que vejo é irmos à direção do que acontece nos países mais desenvolvidos. O ideal é olhar quem está na frente no IDH, onde ocupamos o “honroso” 85º lugar. Esse tipo de posição está mais para a “segunda divisão”.

E, se a religião está por trás desse tipo de posição retrógrada, podemos recorrer a Bíblia. Todos conhecem a passagem em que uma “pecadora” foi levada diante de Jesus e os que a trouxeram (os moralistas) perguntaram se ela deveria ser apedrejada, como mandava a lei na ocasião.

Jesus, perguntou em outras palavras, quem eram eles para acusa-la? Saíram todos com rabo entre as pernas.

Fico pensando; porque isso incomoda tanto? Qual o problema?

Sexualidade é escolha, e como tal deve ser respeitada. Se a justiça, que sempre anda mais lentamente, já reconhece em vários países a união entre pessoas do mesmo sexo, é natural que o Brasil, como país emergente, rume nessa direção. Essa posição preconceituosa está mais para Talibã do que para Noruega.

Recentemente nos EUA, uma cartorária, alegando questões religiosas (sempre isso), não quis homologar o casamento de pessoas do mesmo sexo. O que aconteceu com ela? Foi levada para a cadeia junto com sua crença. A Suprema Corte Americana deu a pá de terra que faltava para enterrar essa perversidade medieval.

Não cabe a nenhuma escola ou professor dizer para uma criança que só existe um jeito certo de se expressar sexualmente, uma religião melhor ou regime político ideal. A função da escola deve ser formar cidadãos críticos e isso é ensinar-lhes a pensar e dar-lhes liberdade de se posicionar como quiserem sobre qualquer assunto. Parece que existe um medo que nos “percamos”, como se todos fossemos homossexuais reprimidos e essa liberação acabaria com a sociedade. Sempre teremos hetero e homossexuais, porque isso é assim, naturalmente.

Precisamos de pessoas livres, não de ovelhas.

O historiador Leandro Karnal, uma das mentes mais lúcidas da atualidade brasileira, disse em uma palestra que a primeira grande revolução que a educação brasileira precisará experimentar é acabar com o preconceito dos professores.

Pelo que percebo, infelizmente, ele está certo!

A chance de sobreviver

            “É estupidez pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.”

                                                         Epicuro – Filósofo Grego

                                                                                                                                                                reencarnacao (1)

E se a teoria da reencarnação que tanto nos consola não for bem como pensamos?

Vivemos no maior país católico do mundo e mais da metade dos que se dizem cristãos frequentam religiões (algumas abrigadas com o nome de filosofias) que dizem que nasceremos de novo. Essa incoerência só pode ser explicada pela nossa busca de saídas fáceis. De um lado o condicionamento cultural, de outro a esperança de uma nova oportunidade para ser feliz, finalmente!

E se existir uma terceira possibilidade entre as religiões orientais e ocidentais? As primeiras defendendo vidas seguidas e a segunda com apenas uma existência, onde depois da morte rumaremos para “outra” casa.

Penso que o ser humano não é algo definível, conforme já escrevi em artigos anteriores. De um lado nossa biologia Darwiniana, muito fácil de ser constada pelos nossos instintos e de outro nosso potencial para o divino, que também vemos diariamente em ações solidárias e fraternas por todos os lados. Vivemos essa constante oscilação entre um e outro, e nosso potencial está mesmo em desenvolvermos uma consciência, conforme escrevi no texto “O terceiro fator”. O despertar dessa consciência, isso sim nos definiria enquanto humanos, um ser entre o animal e o divino, com uma vida própria, no sentido do contexto e identidade evolutiva.

Se esse corpo biológico precisa de uma mente que o faça ter medo e preocupações para garantir que sobreviva o maior tempo possível, também necessita do “espírito”, ou seja, um impulso para o novo, desconhecido, onde realmente podemos evoluir, já que no conhecido não se aprende mais nada.

Essa fricção entre o medo o e impulso é o que leva o ser humano a avançar ou permanecer estagnado em suas crenças e condicionamentos limitantes, outro nome para a palavra “medo”. Como já disse, nossa parte espiritual não está muito preocupada com as coisas desse mundo e se só a ouvirmos os problemas serão tão grandes quanto as alegrias, fora o risco que esses lampejos de liberdade impensada podem nos trazer. Os dois são impulsos, não fazendo parte da individualidade, como equipamentos de um carro fabricado em série, ou seja, mente e espírito são itens de série, sem vida própria, ambos finalizando junto com o corpo no momento da morte.

O desenvolvimento da consciência, que media e une essa dualidade em uma trindade só pode ser dada por dois caminhos; o primeiro é saber que ela existe em potencial e que pode ser desenvolvida. E o segundo, é a determinação, somada aos esforços corretos para obtê-la. Esse “querer” nada mais é do que  outra definição para a palavra “vontade”, que em última análise é o que nos move a enfrentar o medo, matéria prima da mente.

Essa consciência, se for desenvolvida, adquirindo portanto uma identidade, poderá sim, reencarnar. Não é nossa parte espiritual que passaria a ocupar outros corpos no futuro, mas nossa consciência, essa sim uma identidade conquistada pelo mérito de pôr o saber em prática, como uma forma de viver e entender a existência. O espírito nada mais é que um impulso, necessário para fazer oposição à mente puramente animal. Mente e espírito são claramente antagônicos, conforme citei acima, não sendo, portanto, a verdade.

Dentro dessa abordagem, a reencarnação só seria possível se essa consciência for desenvolvida, caso contrário, no momento da morte nada se desprenderia, como uma semente, que por nunca ter germinado, não chegou a nascer no sentido evolutivo.

Como na natureza nada se perde, essa essência retornaria à sua origem, um potencial de vida, sem forma, sem nada! De onde veio esse potencial que não tenha frutificado, para lá voltaria, mas sem uma identidade, já que o potencial de consciência não se oportunizou e a identidade não foi atingida.

É muito cômodo e pouco lógico que todos, independentes ou não de esforço, evoluam em direção ao divino. Em um universo onde o movimento e a impermanência são a verdadeira Lei, como entender a estagnação? Essa recusa precisa de um preço ou reação.

Sei que você, caro leitor(a), poderá perguntar como que as pessoas que moram em lugares miseráveis, tanto materialmente como socialmente e encaixariam nessa ideia? Minha resposta é que mesmo nesses lugares, e a história está repleta de exemplos,  há muitas pessoas que avançam consciencialmente. Sempre com muito esforço, remando contra uma maré muito mais forte que a dos outros lugares privilegiados. Na verdade é mais fácil de desenvolver ali, onde o sofrimento é epidérmico e a busca por compreende-lo, dar-lhe um sentido é quase uma necessidade.

Já, quem tem melhores condições, sofre justamente por uma fácil acomodação e uma crença em um deus “papai” que nunca vai deixar nada acontecer a seu filho, aquela eterna criança. Mas mesmo o conforto não impediu Sidarta de se tornar um Buda nem Francisco de Assis de atingir a santidade e poderia trazer outros exemplos.

Assim, de um jeito ou de outro, sempre sofremos com uma força contrária, que nos empurra para a estagnação (medo), nos desafiando a buscar o outro lado e, finalmente, encontrar o meio termo, esse sim a Verdade, por incluir os opostos.

Conta a história que quando Sidarta Gautama chegou à iluminação, disse ter se lembrado das suas últimas mil vidas, ou seja, depois de ter despertado essa consciência (terceiro fator), esse foi o tempo que precisou para encerrar sua jornada reencarnatória. Da mesma forma poderíamos falar de Cristo, por que não?

Como diz Osho em “Destino, Liberdade e Alma”, o que sabemos de Jesus foi sua última encarnação. Assim como Sidarta, ele deve ter vivido muitas vidas antes do seu clímax. Sei que para os cristãos, Jesus só nasceu essa vez e voltará. Mas se você gosta da ideia da reencarnação, na medida em que vidas seguidas nos levam à evolução, a ideia de Jesus ter vivido vidas anteriores deveria ser óbvia e fazer todo sentido.

O que constato é que mais de dois mil anos se passaram e esse retorno esperado não aconteceu. O planeta está morrendo pela exploração desenfreada e inconsciente de uma humanidade  ainda primária no aspecto evolutivo, como também comentei no texto “Verdadeiramente órfãos”, e Ele ainda não apareceu.

Não virá, por não estar mais ligado a essa etapa evolutiva. Ele se “salvou”, tentou salvar a todos como fizeram outros grandes Mestres da história, sem sucesso. Não há salvação fora da consciência, mesmo que ela esteja estampada na frente da pessoa, ela não poderá reconhecer. Como ela poderá ver algo que não tenha em si?

Vejo o processo como individual, precisamos desse “despertar” para que através do pensamento racional, de uma observação atenta à realidade e práticas pessoais se busque uma nova abordagem que não seja a dos dois impulsos que conhecemos. Estar em um extremos é estar com apenas meia percepção.

Quando se diz que Deus está dentro de cada um, vejo como esse potencial que precisamos  buscar de uma consciência mais desenvolvida que nos faz operar o maior dos milagres;  mudar a realidade  que cada um experiencia sua existência. O mundo nunca muda, só o que pode ser alterado é nossa relação com ele e isso só vem se morrermos para inconsciência e ressuscitarmos mais lúcidos, no “caminho do meio”.

Nossa reencarnação pode não ser garantida, para muito menos o paraíso. Podemos, porque não, abrir o leque de possibilidades para algo que nos motive a ir adiante. Do jeito que pensamos como cristãos ou reencarnacionistas de um jeito ou de outro tudo se resolverá um dia, seja vivendo infinitamente, seja indo morar no “céu”. Esse pensamento acomodado carece de lógica e é no fim das contas muito cômodo.

Como tudo são teorias e sempre serão, fique com mais essa. Nesse primeiro post de 2016 porque não começar o ano pensando diferente?

Sei que ela tem um problema, um desconforto que nos responsabiliza diante da evolução.

Mas vai que essa seja mesmo a certa?

O reencontro

Crônica publicada no Folha SC em 05 de Janeiro de 2016.

O cinema estava lotado. Eram os antigos e os novos participantes da saga Star Wars, que depois de alguns anos voltou com alguns dos heróis dos primeiros episódios que datam do começo dos anos 80.

 Ouviram-se murmúrios quando Han Solo entrou em cena, eram os pais contando para seus filhos que Harrison Ford estava no episódio lá detrás e que o tempo passa para todos. Da mesma forma, a  princesa mostrou que lá nas galáxias distantes, apesar de muita tecnologia,  as mulheres envelhecem e não tem mesmo jeito.

No mais é a boa e velha luta do bem contra o mal, mas isso não importa. O legal era nos reencontrarmos como quando éramos há décadas e o filme soube explorar isso muito bem. Já no começo as letras que situam os mais novos sobre toda história, afinal os antigos nunca esqueceram, começam a correr pela tela como nos velhos tempos e isso trouxe a sensação que estávamos em casa.

As naves, como se esperava, eram grandiosas e as lutas no espaço eram com as mesmas pequenas e ágeis dos episódios antigos, com pilotos heroicos e imortais. Só morrem os desconhecidos e imagino que os que assistiram em 3D aproveitaram cada tiro e explosão.

Nossa heroína se mostra mais homem e corajosa do que os protagonistas que servem de escada para sua astúcia e inteligência. O primeiro episódio da nova série em tempos de igualdade e fim de preconceitos deixa em aberto seu romance com um sub-herói negro e penso que a reação do público (afinal isso é um negócio), deverá decidir se vai ser namoro ou amizade.

Tudo que deu certo nos episódios anteriores foi preservado e talvez o maior mérito do diretor tenha sido de não abusar da tecnologia.  Parece que tudo foi gravado nos anos 80 e só os personagens antigos envelheceram. Como não poderia deixar de ser, o famoso bar com figuras estranhas e uma banda muito engraçada fazendo o fundo musical não poderia faltar. Talvez ninguém tenha pensado nisso, mas as cenas desse bar, onde habitantes de todas as galáxias se encontram para um happy hour, tenha sido o primeiro manifesto a favor da diversidade no cinema.

As espadas luminosas são as mesmas e a novidade é que o mal agora usa uma luz vermelha e o novo Darth Vader oscila entre o bem o mal com pinta de galã, mas perde em convencimento se comparado ao original, mais elegantemente cruel.

As críticas oscilaram do “cansativo” ao “adorei”, mostrando a clara diferença entre os antigos que encontraram exatamente o que queriam e os outros, que só foram assistir  a um filme como qualquer outro e nesse caso não tem como chegar a um acordo.

Imagino que, quem não tenha uma ligação afetiva com a história não deve ter achado nada demais, afinal temos filmes de dez anos atrás com mais efeitos especiais, mas isso só faz sentido para quem estava no cinema nos anos 80.  Um casal sentado uma ou duas poltronas ao lado, ficou falando das lembranças de quando assistiram os episódios na época do começo do namoro. Para eles se a história é boa ou não, está longe de ser o mais importante.

Para os jovens que não entraram no clima, posso assegurar que um dia os vampiros da saga Crepúsculo aparecerão com seus netos lobinhos e com certeza, arrancarão os mesmo momentos de nostalgia.  Mas para isso, precisa ser cinquentão e ter um passado para lembrar.

O setor do entretenimento já percebeu esse filão faz tempo e quantos remakes já tivemos? Os “lá de trás” já tem sua vida feita e não vão se preocupar em pagar o que for para reviver emoções e pensamentos que a vida já os fez esquecer. Basta ver as grandes bandas que nunca conseguem se aposentar, pois seus fãs simplesmente não deixam, lotando seus shows e usando camisetas pretas desbotadas ou de um tamanho bem menor que a barriguinha que a prosperidade trouxe consegue esconder.

Claro que tem muita coisa legal hoje em dia, mas para nós ninguém vai se comparar aos Rolling Stones, AC/DC, Pink Floyd, Led Zepellin e tantos outros. Os músicos já estão na casa dos setenta, que somado a “vida louca” os fazem quase verdadeiras aparições. Mas o que importa é que seja nos filmes ou na guitarra de quem teve uma cabeleira e hoje usa mega hair para não decepcionar os fãs, a grande viagem é podermos nos sentir jovens com a vida toda pela frente novamente.

Se você está na casa dos 20 a 30 anos, um dia vai me entender, é questão de tempo.

Mas a vida segue e os bons sempre voltam. Já soube que em janeiro volta o inigualável “Arquivo X”, e seja como for, não estou muito preocupado se a “verdade” virá à tona. O que quero é ver a cara de tédio do agente Mulder e o charme misterioso da Scully.

Já estou na expectativa!