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Primeira vez

 

Psicoterapia

– Então, em que posso ajuda-lo?

– Sei lá doutor, minha mulher insistiu que  precisava vir, diz que ando estranho.

– O que o está incomodando?

– Esse é o problema, não sei.

– É a primeira vez que faz terapia?

– Sim, por isso nem sei por onde começar.

– Pode começar por qualquer assunto, por exemplo, quando você me ligou para marcar esse horário estava pensando em que?

– Em nada e em tudo. Estou me sentindo totalmente perdido, mas, às vezes, irritado. Como se tivesse sido passado para trás.

– Desconfia da sua esposa?

– Não doutor! Na verdade não tem a ver com ela. Acho que meu problema é com a vida.

O terapeuta se ajeitou melhor na cadeira e pensou como esse tipo queixa é cada vez mais comum. É sempre a mesma história. Pigarreou para retomar a atenção e disse olhando por cima dos óculos:

– Como assim, com a vida? Poderia me explicar melhor? Diga exatamente o que sente, não procure palavras melhores. Estou aqui porque sou capaz de entendê-lo.

– Espero que sim. Se não der certo, nem sei o que vou fazer. Até me benzi na semana passada, tomei banho de ervas e até incenso já queimei em casa.

Suspirou longamente, pensou que precisava começar. Afinal, daqui a pouco o tempo acaba e queria sair do consultório com alguma resposta, pelo menos.

– Sempre fiz tudo certo. Quando era criança, sempre procurei ser um bom aluno para que meus pais se orgulhassem de mim. Lembro que deixei de fazer algumas coisas, brincadeiras ou travessuras que tinha vontade para não decepcioná-los. Parece que me alimentava dos elogios que recebia. Pensando hoje, parece que tinha medo que meus pais deixassem de gostar de mim. Isso é normal ou eu já era um problema desde criança?

– Mais do que você imagina, disse o terapeuta. Na verdade esse é um dos motivos que nos faz mudar sem nem termos tido tempo de sermos nós mesmos de verdade. E depois, me fale da sua adolescência.

– Bom, quando virei adolescente minha maior transgressão foi deixar o cabelo crescer um pouco e usar umas camisetas pretas. Na época não se falava em tatuagens nem brincos. Uma ou outra vez, fui ao cemitério com uns amigos na época do The Cure, lembra? O negócio era ficar triste e desencantado com a vida. Aquela coisa de gótico.

Depois de sorrir, continuou;

– Cheguei uma vez a usar uma maquiagem nos olhos, todos usavam. Mas só de imaginar a decepção que meu pai teria, limpei na hora. Sabe, nem era a surra, já que meu pai nunca me bateu, era mesmo desgostá-lo meu maior medo.

Quanto terminei o segundo grau, queria mesmo era fazer vestibular para oceanografia. Sempre adorei o mar, sabe? Quando falei disso pro meu pai, ele disse que estava surpreso com minha escolha. Que o certo era fazer vestibular para administração e cuidar dos negócios da família. Tínhamos um comércio e o sonho  dele era que eu tocasse o negócio.

– E sua mãe, disse o que? Perguntou o terapeuta.

– Disse que meu pai me amava e queria o melhor para mim. Confesso que tinha uma esperança que ela me incentivasse. Ali, percebi como ela sempre viveu a sombra do marido.

– Isso foi uma decepção para você?

– Acho que não aos dezoito anos. Pensando nisso hoje, vejo que era o que deveria esperar. Minha mãe era dona de casa, não tinha liberdade para discordar, era dependente.

– O que decidiu?

– Então, fiz o vestibular de Administração e cursei a faculdade até o final.

– Gostou?

– Não. Brincava comigo e pensava que um dia poderia ter algum negócio no fundo do mar.

Deu um sorriso amarelo, como se tivesse contado uma piada de humor negro.

– E depois?

– Conforme o script, comecei a trabalhar com meu pai e fui, aos poucos, assumindo a responsabilidade dos negócios. Ele decidiu se aposentar uns dez anos depois. Toco tudo sozinho faz quinze anos. Na verdade, não posso me queixar, me sinto até mal com esse desconforto. Mesmo não sendo o trabalho dos meus sonhos, vivo bem e pude comprar tudo que quis até hoje.

Notando que a frustração aumentava, o terapeuta resolver mudar o assunto:

– E sua vida afetiva? Teve muitas namoradas.

– Na verdade não. Como filho único, percebo hoje como eu tinha responsabilidades. Era a única chance de meus pais darem certo nessa função e tinha que atender as expectativas. Deve ser por isso que sempre fui meio quieto, na minha. Tive duas namoradas antes de conhecer minha esposa. Era a pessoa ideal para mim, lembrava muito a minha mãe em alguns aspectos.

O terapeuta sentindo o momento psicológico interviu:

– Assim você poderia “ser” seu pai?

Nunca tinha pensado por esse ângulo, e é incrível como hoje me vejo com os trejeitos dele. Será que se eu tivesse outro pai, teria me casado com outra mulher?

O terapeuta preferiu não responder, deixou que chegasse a suas próprias conclusões e pudesse, mais tarde, aprofundar a reflexão.

– Casei perto dos trinta anos,  tenho dois filhos e a mesma esposa, casa na praia, bom carro e as crianças estudam em boas escolas. Viajo para o exterior, vez por outra.

– Pelo visto sua vida é boa. Não é todo mundo que consegue o que você conseguiu.

– É boa e não é boa. Por um lado, posso dizer que tenho tudo. Por outro, parece que vivo uma história que não é minha. Na verdade, nunca quis nada disso. Nem minha esposa, que é ótima pessoa por sinal, realmente escolhi. Era só a pessoa certa com quem casar. Entende doutor?

O terapeuta não respondeu. Sustentou o olhar, dando a deixa para que continuasse.

– Quando digo que me sinto enganado é por isso. Fiz tudo que me disseram ser o certo, tudo! Só que não recebi o que esperava por ter aberto mão de um monte de coisas.

– O que você esperava? Não tem uma vida boa?

– Esperava me sentir bem, ficar feliz com o que faço, experimentar uma espécie de realização. Mas na verdade sou uma fraude, é assim que tenho me sentido ultimamente.

Depois de alguns segundos pensando, cobriu o rosto com as mãos, respirou fundo para segurar o choro.

– Não me sinto realizado, nunca vibrei com meu trabalho e tenho tido sonhos em que caio em buracos enormes, como se fossem precipícios. Minha mulher acha que devo procurar um psiquiatra e tomar uns remédios. Já não estou dormindo bem faz tempo.

– Mas você sabe o que gostaria de fazer, para se sentir melhor?

– Esse é na verdade o grande problema. Por ter fingido toda uma vida, não sei onde posso me encontrar. Tudo ao meu redor é falso, das paredes da minha casa ao saldo no banco. Nunca fui “eu” mesmo, nunca! Não quero morrer assim, desde criança nunca fui honesto comigo. De que valeu todo esse esforço? Por onde posso começar doutor?

O terapeuta não respondeu. Baixou os olhos e sentiu que havia um silêncio que precisava ser respeitado. Depois de algum tempo, fez uma pergunta:

– Que tipo de pai você é com seus filhos?

– No fundo doutor, acho que estou repetindo meu pai, dando indiretas para eles  continuarem o negócio. Ainda mais agora, depois da nossa conversa. Porque estou fazendo isso?

– Porque você está tendo com eles a mesma preocupação que seu pai teve. Esperando que essa “receita” faça com que o conforto material possa compensar o que abrimos mão.

– Vendi meus sonhos e minha identidade, não é?

– Não penso ser justo você se tratar assim, afinal, quando esse “negócio” foi feito, você não tinha condições de decidir, era uma criança ou adolescente.

– Mas não funciona, eu sou a prova disso!

– É verdade. Pense em começar sua busca  por eles.  Quem sabe, eles não têm o mapa que o leve até o lugar onde você se perdeu, onde sua identidade foi trocada, simbolicamente.

– Eu tenho cura doutor?

– O tempo acabou, infelizmente. Podemos continuar na próxima semana?