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O gene do mal

” A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe […] É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.”

Freud

” É evidente que a maldade e a crueldade são inventos da razão humana, da sua capacidade para mentor, para destruir.”

                                                                   José Saramago

                                                                                                                                                                                          maldade

Thomas Hobbes (1588 – 1679) foi um dos filósofos que se debruçaram sobre o difícil tema da natureza humana. Segundo ele, o homem em seu estado natural está sempre em guerra, movido por dois objetivos; manter-se vivo e fugir da dor, indo sempre que possível na direção do prazer.

Diferente de outros, Hobbes defendia que em sua natureza o homem é solitário, na medida em que seu interesse individual sempre vem em primeiro lugar. Conviver, ou ser um ser “social” é apenas uma conveniência para atingir seus objetivos, que nunca são alcançados, afinal, depois da satisfação de um desejo vem outro, logo a seguir.

Instintivamente isso é bem fácil de observar, afinal a defesa da vida não pertence à esfera do pensamento, mas da ação imediata. Depois se pensa sobre o que ocorreu, e se for o caso, podemos nos arrepender de não ter sido solidário.

Ao observarmos o comportamento do homem primitivo, os estudiosos dizem que só se agrupavam com o objetivo de estarem aptos a enfrentar invasores de seus territórios, ou seja, juntos somos fortes; sós nem tanto.  Dessa forma, o convívio social que muitos defendem como natural, só ocorre para defender interesses.

O filósofo defende a ideia de que a violência humana não tem limites, desde que seja para defender o que lhe pertença ou conquistar algo que o torne mais poderoso e o ajude a viver por mais tempo. Como podemos observar, não só homens agem assim, mais políticas de governo se explicam pela teoria de Hobbes, afinal, o governante é a média da maioria do pensamento de seu povo.

Mas quando o “outro” é necessário?

Precisamos uns dos outros para não somente cumprir um instinto de sobrevivência,  mas também para validar nossa percepção de mundo. A realidade existe no convívio, na troca e nos ajustes que precisamos fazer para conviver. Justamente por isso os relacionamentos tendem ao desgaste.

Depois de quatro séculos, Freud também via o homem da mesma forma  e dizia que só um rígido sistema de punição nos permitia viver uns com os outros. Quantas vezes a lembrança do prejuízo que um ato pode trazer impediu que ele fosse cometido? A resposta é: muitas,  sempre que ocorre o ato impensado, dizemos que “perdemos a cabeça” ou que algo se apossou de nós. Na verdade é essa natureza má que nos “possuiu”  e os freios que a educação, religião  e sociedade nos impuseram não foram suficientes, naquele momento, para pensarmos nas consequências.

Desde pequenos, precisamos educar nossas crianças para aprenderem a compartilhar e respeitar o outro.  Muitas vezes é a punição ou castigo que as esperam que impedem de agirem como realmente querem.

Muito mais do que um pessimista sobre como realmente somos, Hobbes percebeu nossa natureza mais primitiva. Todo tempo decorrido de seus escritos não mudaram sua validade. Observem os países que invadem e destroem populações inteiras pelo domínio de riquezas naturais, ou em ataques de fúria movidas pelas crenças religiosas e políticas.

Precisamos de esforço para nos tornar bons, sociáveis e preocupados com o ser humano. Por mais que as religiões cumpram seu papel de nos afastar da animalidade é muitas vezes em seu nome que se mata e a história antiga e atual está recheada de exemplos.

Nossa humanidade é um potencial que precisa ser desenvolvido, tem a ver com evolução e não ocorre naturalmente.

No meio de tudo isso, as exceções que comprovam a regra buscam colocar peso no outro lado da balança. Mas se fossem pelo menos metade da população mundial nossa convivência seria outra e não veríamos do conforto dos nossos sofás milhares padecerem de fome diariamente enquanto se produz alimento para se jogar fora em grande quantidade, por exemplo.

Essa minoria de voluntários do bem, que dedica sua vida a minorar o sofrimento dos semelhantes, animais e natureza são sempre motivos de notícia, pois são espécimes raros de uma raça que destrói em nome de satisfazer seu ego.

A criminalidade avança e um dos motivos é a distância cada vez maior entre os que têm e nada tem. Esse abismo empurra os que ficam de fora para buscarem seu direito à sobrevivência e a violência é o caminho natural, como bem já nos avisaram Hobbes e Freud.

Cada ser humano que nasce tem um potencial infinito e uma pergunta a responder:

Tornar-se-á verdadeiramente humano, ou viverá para atender suas necessidades e desejos sem fim a custa do sofrimento e exclusão de muitos outros?

Tudo começa com a ideia, que precisa ser questionada, de um mundo  escasso, que precisamos ser competitivos, que não há para todos e a luz do sol é uma conquista a ser feita e não um direito.

Os jornais nos mostram diariamente que esse modelo faliu, mas o mais fácil é aumentarmos o tamanho das cercas e colocarmos alarmes por todos os lados, para nos avisar que tem um ser humano por perto.

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Crônica publicada no jornal Folha SC em 21 de Abril 2015