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O Ponto Certo

“Um homem foi procurar um Mestre Zen e perguntou:

– Como você fez para chegar a esse ponto?

O Mestre Zen respondeu:

– Como quando tenho fome. Não como quando não tenho fome. Falo quando tenho algo a dizer e nada falo quando não tenho algo a dizer. Assim para tudo.

O Homem disse:

– Mas isso todos fazem, é o caminho comum.

Ao que o Mestre responde:

– Você não faz isso. Se fizesse, não tinha vindo a mim.”

Caminho do meio

O equilíbrio e bem estar tem uma receita simples. Precisamos pensar porque ela é tão difícil de ser conseguida, afinal todos poderíamos fazer isso. Pessoas que frequentam o “caminho do meio” encontraram o que se pode chamar de felicidade, palavra tão falada e muito pouco definível.

Mas como tudo em nosso mundo é dual, poderemos dizer sem esforço que não sofrer é estar feliz, concorda?

Todo problema é que a mente funciona baseada em extremos, trabalha sempre com a pior e mais sofrida possibilidade. Imediatamente esse pensamento se manifesta em reações físicas de tensão que precisam ser amenizadas e esse é o caminho dos excessos; a busca de rápido fim para o sofrimento.

O que vejo é as pessoas indo de um extremo a outro e nunca conseguem sucesso porque a oscilação do pêndulo é constante. Se estiverem, por exemplo, acima do peso, entram em uma dieta agressiva abrindo totalmente mão das coisas que gostam e isso gera sofrimento. Depois de atingirem seu objetivo na balança, voltam a seus prazeres (isso é normal) e o peso volta. Sempre os extremos.

Se a pessoa gosta de fumar, por exemplo. Não fuma uma ou mais carteiras em um dia porque gosta, mas porque precisa da nicotina para abrandar sua ansiedade. Para de fumar, e aumenta de peso, já que o problema continua e só foi trocado de escape. Sofre anos de saudade do “cigarrinho”. Extremo.

A pessoa é um apreciador de cerveja. Quando bebe todos os dias “um pouco” e muito aos finais de semana ou em alguma festa não está presente o apreciador, o degustador, mas o alcoólatra. Ele precisa de algo que o relaxe da tensão física advinda dos seus pensamentos angustiantes e de lembra-lo dos problemas que não consegue resolver.

Poderia citar ainda os usuários de drogar ilegais (a maioria é usuário das drogas patrocinadas pelo Estado), as compulsões por compras e jogos. Mas penso ter sido compreendido na essência do problema.

Assim as pessoas vão sempre de um extremo a outro o tempo todo e isso sempre é sofrimento, seja pelo excesso ou pela ausência do que gosta.

Não conheço nenhum apreciador de bebidas, seja qual for, que tenha  se tornado alcoólatra. O alcoolismo é excesso ou necessidade. Dá na mesma. Nunca vi ninguém se tornar dependente químico tomando algumas doses por semana. A questão é sempre de CONSCIÊNCIA. Se a pessoa aprecia, percebe as nuances, ela nunca consegue ficar bêbada, simplesmente porque o estado de embriaguez é resultado de inconsciência, ou seja, bebo os meus pensamentos e angústias e não a bebida em si. O tratamento mais popular do alcoolismo (quero deixar claro que não sou contra) é baseado no medo. Assim, a pessoa que está há, por exemplo, dez anos sem beber se diz um alcoólatra. Isso é no mínimo uma mentira, afinal como que alguém que não bebe é alcoólatra. A pessoa se mantém longe pelo medo de voltar a beber do jeito que bebia e pelo sofrimento que isso trazia a ela e sua família, mas de novo foi de um extremo a outro, e se está em um extremos, sofre!

Vamos para o caso da alimentação que é o mais comum. A pessoa não ganha peso pelo que come, mas pela quantidade que come. Quem come o que precisa nunca engorda, afinal o corpo tem uma inteligência e não quer morrer. Agora, quando a caloria e o doce viram anestésico emocional, a quantidade precisa ser grande e o aumento de peso é questão de matemática e tempo. Nunca vi quem come uma “fileira” de pequenos quadradinhos de chocolate virar chocólatra ou engordar mesmo que faça isso com frequência. Quem gosta, aprecia, conscientemente sente o gosto e a qualidade e recebe o sinal de satisfação no mesmo tempo de quem está angustiado. A diferença é a seguinte: um apreciou um pedaço conscientemente (lentamente), o outro comeu a barra toda, inconsciente e rapidamente e nem importa que marca seja. Estava sofrendo e queria algum prazer. Isso também vale para as comidas calóricas.

Já em relação ao fumo eu pergunto: O leitor (a) já conheceu alguém que teve problemas de tabagismo por ser fumante exclusivo de cachimbo?

Imagino que a resposta seja “não” e é simples de entender. O cachimbo exige um certo ritual e dá algum trabalho fazer aquele artefato funcionar. Os bons fumos custam caro, o que faz o fumante apreciar seu investimento e isso é estar consciente. Seja pelo trabalho de fazer tudo de novo, mas tenho certeza que pela consciência de ter apreciado, depois de utilizá-lo uma vez o cachimbo é limpo e guardado. Ninguém terá enfisema pulmonar assim ou problemas cardíacos advindos do fumo. Agora, quem está ansioso, tenso e sofrendo precisará de inúmeros cigarros para ter os vinte minutos de paz que a nicotina fornece por peça. O fumante inveterado nem percebe que acendeu o cigarro de tão inconsciente que está mergulhado em seu sofrimento mental.

Assim, toda  a série de doenças advindas dos excessos alimentares, álcool e tabagismo que estão matando cada vez mais e serão responsáveis pelo aumento geométrico nos casos de câncer nos próximos anos, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) advém da falta de equilíbrio. O uso desses recursos para suprir problemas emocionais e não por cada uma das  substâncias em si.

Não sou usuário nem defendo o uso de entorpecentes, mas faça uma pesquisa e veja se a maconha não mata muito, mas muito menos que o álcool e o cigarro, por exemplo, no mundo. Muitos países já descriminalizaram seu uso por saberem que, como os demais entorpecentes legais, o que faz mal é a quantidade.

O Mestre Zen de nossa história, mostrou que tudo que é feito conscientemente não leva ao desequilíbrio, pelo contrário. A questão toda sempre termina no mesmo lugar: se estamos conscientes ou não do que fazemos. Nos extremos sempre está a ausência do outro polo e o pêndulo está ganhando força para voltar. Assim a oscilação nunca termina e o sofrimento é certo.

Como já escrevi anteriormente o caminho do meio contempla os dois e porque não termos o que se gosta? Seja um bom fumo, uma bebida de qualidade ou apreciar uma iguaria calórica nada vai lhe fazer mal desde que você saiba (esteja consciente) do que faz.

Já tive o privilégio de profissionalmente conhecer pessoas que encontraram seu “ponto certo” a partir de um vício ou compulsão. No começo, precisaram se afastar do excesso para encontrar o equilíbrio. Hoje, porém, voltaram a poder usufruir do que gostam, mas não precisam mais disso para se acalmarem. Isso é mais do que se chama de cura pelo afastamento, é evolução!

A natureza vive dando os seus sinais e só vê quem tem olhos, como diria Jesus a seus cegos seguidores. Assim, observe ou pesquise no Google quais os animais que tem a vida mais longa. Dê uma olhada na lista e veja se lá tem algum rápido ou que faça tudo velozmente. A receita é a lentidão ou seja consciência. Não estou dizendo que uma tartaruga marinha seja um sábio ou um molusco* que vive quatrocentos anos tenha a receita da iluminação.

Apenas digo que se você estiver consciente poderá ter tudo, mas sem excesso e isso contempla os dois extremos  do sofrimento que é ter e não ter.

Certa vez, Sidarta Gautama resumiu isso como só um Iluminado poderia:

“Tudo existe, é um dos extremos.

Nada existe é o outro extremo.

Afasta-te dos extremos.”

Só isso.

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* O molusco Arctica islandica vive em média 400 anos. Há registro de um com 410 anos.

 

 

 

 

O terceiro fator

           “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe”

Oscar Wilde

 

  “ Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.

     Vivo em uma dualidade dilacerante.

     Eu tenho   uma aparente liberdade,  mas  estou presa dentro de mim.

      Clarice Lispector

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Muito se fala desse mundo de dualidade, do bem e do mal, da saúde e da doença, alegria e tristeza, etc. Todos já cansamos de ouvir que o caminho do meio é a solução para o sofrimento desse paradoxo. Sempre que estamos fixos em um dos polos estamos sofrendo, justamente por excluir o outro. Assim, por exemplo, sofremos se estamos doentes, mas também sofremos quando estamos saudáveis pelo medo da doença chegar. Isso vale para tudo.

A sabedoria do caminho do meio é inclusiva, nada despreza e atende o equilíbrio pela interação dos opostos. Ainda alguns pensam que estar “bem” é estar livre de problemas, pura ilusão! Estar “bem” é lidar com os problemas de forma evolutiva e pouco sofrida. Ansiamos por um dia em que nada nos preocupe. Se esse dia chegar (peça para o Papai Noel), estaremos preocupados pensando que preocupação teremos em seguida e qual será.

Mas existe ainda a, talvez, mais profunda e enigmática dualidade: entre a mente e o espírito (Self, ou qualquer outro nome que designe o imaterial ou eterno em nós). Qual seria então o caminho do “meio” entre esses antagônicos?

Em numerologia dizemos que o Três é o número perfeito, já que traz em si a completude ou a expressão da ideia. Assim os cristãos dizem “Pai, Filho e Espírito Santo”, os egípcios “Isis, Osíris e Hórus”, os Indus “Shiva, Brahma e Vishnu”. Fora da religião, temos o dia que se manifesta no amanhecer, entardecer e anoitecer. Da mesma forma temos o alto e médio e o baixo, o quente o morno e o frio e assim por diante.

Falta então para o entendimento da dualidade seu terceiro elemento, que  abrange e elimina o contraditório pela síntese.

Como sabemos, a mente se caracteriza pelo medo com objetivo da manutenção da vida. Isso explica sua função de nos manter constantemente negativos e apreensivos, mesmo nos melhores momentos. De outro lado, temos aquela “voz” interior que nos pede o novo, o arriscado, ou em outras palavras, a evolução. Para a mente o conhecido, para o espírito o desconhecido, afinal como crescer sem avançar? Avançar é ir além e buscar mais, vencer desafios e correr riscos, como consequência óbvia.

Nossa vida sempre é resultado dessa fricção entre os opostos e o destino é o outro nome que damos as nossas decisões. Poderia então haver algo mais do que a mente e o espiritual? Haveria esse meio termo que abarcasse ambos e nos aliviasse do sofrimento?

Se formos  pelos conselhos da nossa mente, ficaremos sempre na mesma. Ela precisa do conhecido e quer nos manter vivos, independente da qualidade dessa vida ou se estamos crescendo ou não. Mudança, só na necessidade quando não tem mais jeito.

Já o espírito, eterno e  “imagem e semelhança” da criação, não está muito aí para os cálculos e receios e quer mais que vivamos intensamente, pedindo novidades, que o leve para novos caminhos e descobertas, seja qual for.

Assim, imagine-se como um empresário que tem dois assessores, um extremamente conservador e cuidadoso e outro completamente “louco” que só pensa em arriscar e inovar. Todas as decisões desse empresário passam por ouvir seus dois assessores e ele sempre busca a melhor escolha.

Se os dois assessores são a mente e o espírito, quem será o empresário, aquele que dá a palavra final?

Precisa ser alguém que não seja nem um nem o outro, ou os dois ao mesmo tempo, buscando o acordo.

Esse grande chefe chama-se, para mim, nossa Consciência, o terceiro elemento que completa o Humano.

Tenho certeza que já foram muitos momentos em que todos  internamente já ouvimos nossos “assessores” discutindo sobre nossa vida, se deveríamos ou não fazer isso ou aquilo. Quanto mais a discussão fica acirrada, mais vamos achando que vamos enlouquecer ou que entramos em um beco sem saída. Cabe lembrar que eles nunca chegarão a um acordo. Isso não é possível pela total oposição, deixando o entendimento entre ambos, impossível.

Atualmente com um alto nível de decepção com as religiões e seus resultados, e aqui cabe afirmar que elas não têm culpa, o problema é a expectativa ou essa transferência que fazemos para “alguém” resolver nossas questões, experimentamos um mundo cada vez mais ansioso. Essa ansiedade e suas consequências, como aumento das compulsões alimentares, álcool e drogas e tudo mais se dá para os que só ouvem a mente, procurando estancar o sofrimento, está adoecendo a humanidade. O medo advindo dos pensamentos negativos sem fim bloqueia o processo criativo e evolutivo, já que ficamos acuados por medo de que as mudanças que ansiamos não deem certo e viemos a passar necessidades ou privações. Quem tem na mente sua única maneira de viver, trata os pedidos do espírito com desdém, chamando-os de “viagem”, bobagens e outros nomes pejorativos.

Para os que só ouvem o espírito, muitas vezes as decisões são pouco trabalhadas, baixa persistência e mudanças constantes que também têm suas consequências, como por exemplo, a perda da capacidade de se ir até o final dos processos e correr riscos desnecessários. Tudo atrás das constantes mudanças imaginando cada uma como o que falta para atingirmos essa felicidade. Para eles, as precauções que a mente solicita são consideradas como covardia ou receios, a quem  não se deve dar ouvidos.

Assim, cabe ao grande gestor interno, a Consciência, saber avaliar e escolher o melhor caminho, dando razão ora a um, ora a outro e às vezes contemplando ambos.

Porém isso só é possível se entendermos ou soubermos qual assessor está falando e qual é a sua natureza. Lembre que um nunca trará pensamentos do outro. Esse exercício de observação não é difícil de ser feito, mas exige atenção a si mesmo e, principalmente, tomar essa posição de neutralidade e observação.

Nossa ligação com o corpo que habitamos nos empurra de forma natural e instintiva para a mente, afinal ela nos mantém vivos e isso é muito importante. Pode-se começar prestando mais atenção aos pedidos de novidade do espírito, permitindo que se manifestem livremente. Não os julgue, apenas observe a mensagem até o final. Nunca exclua pensamentos ou intuições que fazem seu coração vibrar de emoção e imaginar a sensação de realização. Aliás, sentir-se realizado é outro nome para a coragem de ter vencido as precauções da mente.

Depois, procure conciliar levando em consideração a natureza dos conselhos e encontre esse caminho do meio que nos recomenda Lao Tse.  Busque seu crescimento sem desprezar ou analisar as circunstâncias e tome a decisão como um juiz ou o empresário. Como essa sentença (escolha) afetará a sua vida, responsabilize-se por ela e não se lamente pelo que não fez.

 Mudança sempre dá medo, mas é sempre necessário avançar. Tudo que chega ao seu limite inicia o processo de estagnação e é questão de tempo para começar o protesto da nossa parte que precisa avançar se mostrando em angústia e um vazio interior que nenhuma recompensa material consegue suprir. Nos alimentamos espiritualmente de sonhos e conquistas que nos façam melhores que somos. O que não quer dizer não refletir, ponderar e saber, vez por outra, esperar.

Lembre que tudo que está em processo de mudança cresce e está vivo, mas esse mundo material que vivemos exige ponderação misturada com coragem. Pratique e quando isso for uma experiência verá que na verdade não existem opostos, mas uma coisa só que se manifesta de duas formas.

Essa percepção da unidade só se dará pelo olhar do terceiro e decisivo elemento, a consciência.

Ao findar esse texto, é lícito pensar que tínhamos um problema quando começamos a leitura que era dar fim a essa divisão e agora o problema pode parecer maior, já que um novo integrante precisa ser ouvido. Não é isso.

A consciência não precisa ser ouvida, é ela que ouve!