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Terapia, para quê?

“O principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.”

                                                                       Carl G. Jung

Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco”

                                                                      Irvin D. Yalom

                                                                                                                                                            terapia

Afinal, para que serve a terapia?

É natural que a motivação de alguém a procurar a psicoterapia seja um problema, novo ou antigo, que de alguma forma esteja importunando sua vida e dificultando seu processo de crescimento.

Mesmo que pareça simples, esse movimento inicial de buscar ajuda ainda é obstaculizado por um preconceito antigo que liga a terapia a doenças mentais ou a loucura, como incrivelmente ainda hoje se escuta.  Salvo que alguma pessoa importante incentive, com o exemplo pessoal de ter tido uma experiência verdadeira e gratificante com a terapia, existe uma demora motivada pelo preconceito que faz com que essa procura seja adiada até o ponto limite de sustentar ou suportar a situação aflitiva.

O passo seguinte ainda depende de um golpe de sorte; que o terapeuta procurado tenha uma linha de atuação que se encaixe com a pessoa e, de alguma forma, atenda sua expectativa sobre o “como funciona” o processo terapêutico  ou a surpreenda de tal forma a mudar positivamente seu conceito anterior. Infelizmente, muitas pessoas não têm a sorte desse primeiro encontro ser agradável ou atender seus anseios e faz com que, por desconhecimento, coloque a terapia em um novo preconceito; onde todos os terapeutas são iguais e só existe um tipo de terapia, aquela que experimentou e não gostou.

Costumo dizer que existem tantas terapias quantos terapeutas no mundo e isso é fácil de explicar; mesmo os modelos mais ortodoxos, que impõe aos profissionais rigorosas formas de se conduzir e de interpretar os conteúdos trazidos pelo cliente, não deixam de serem pessoas com sua própria individualidade, em que esse modelo que aprenderam sofreu alguma mudança ao ser assimilado. Dessa forma, cada um dá o seu toque pessoal e interpretação individual ao que aprendeu e isso se mostra na sua conduta profissional.

Portanto, se você que me lê está pensando em fazer terapia, saiba que faz parte do processo a procura pelo profissional que se encaixará com seu jeito de ser. Quando essa procura termina? Quando se sentir entendido, profundamente entendido pelo profissional e que a abordagem, ou seja, o jeito de conduzir a terapia faça com que se sinta confortável e seguro. Isso passa também e principalmente, pela  visão que ele tenha do seu problema e da maneira de encarar as circunstâncias que envolvem o cliente, fazendo com que rapidamente uma nova visão da situação venha  e com ela saídas e soluções ainda não vislumbradas surjam no horizonte.

A partir desse momento, o caminho da mudança começa a se definir e, esse relacionamento entre o terapeuta e o cliente, vai sendo a base desse processo, onde os pensamentos, inquietações e dificuldades de se chegar ao objetivo vão sendo avaliadas em todos seus aspectos,  até que o novo quadro se cristalize.

Assim, não existe um tempo definido para terapia. Quando esse processo é bem entendido e vivenciado o resultado obtido teve como ingrediente principal um aumento do autoconhecimento, que tornou o cliente uma nova pessoa e essa nova pessoa foi que conseguiu o sucesso. Quanto mais nos conhecemos, mais diferentes vamos ficando e os problemas que levaram a pessoa a procurar a terapia, no final, foram um aviso de que uma mudança precisaria ocorrer, para que, só assim, o obstáculo fosse transposto.

Em uma terapia bem sucedida nenhum dos dois que começa no processo permanece o mesmo. Essa troca entre terapeuta e cliente sempre traz mudanças dos dois lados, inevitavelmente. Assim, é normal que um vínculo forte de confiança se estabeleça, o que permitirá que o cliente vá cada vez mais profundamente em si mesmo. Como não existe limite para o autoconhecimento, não há para a terapia.

Sei que existe ainda outro preconceito muito forte, vindo da linha mais famosa e antiga da psicoterapia, de que esse processo precisa ser obrigatoriamente demorado, que leva anos. Pode ser verdade, para essa linha especificamente, mas está longe de valer para todos. Nunca esqueça que existem muitas maneiras diferentes de se ver e entender o ser humano, seu comportamento e o funcionamento de sua mente.  Nada impede, absolutamente, que em pouco tempo, as condições de mudança se cristalizem o os resultados venham. Cada pessoa é um universo particular, logo não existe um padrão.

Algumas linhas, mais voltadas à questão do que o ser humano pode tornar-se (e isso sempre é diferente do que ele é hoje), são baseadas em autoconhecimento podendo mesmo nunca ter um fim, já que se estamos sempre mudando. Então,  conhecer-se é um trabalho a ser feito sempre. Claro, que o começo é motivado para resolver um problema, e essa solução pode representar o fim da terapia e não há nada de errado nisso. Porém, esse tipo de abordagem pode continuar pelo tempo que o cliente se dispuser, e posso garantir que os problemas serão percebidos com antecedência e até deixam de ser problemas em si, já que essa ampliação do senso de Eu, onde a pessoa se percebe mais completa, também amplia e, em muito, seus recursos para enfrentar todas as questões que a vida lhe impõe.

Durante algum tempo procurei encontrar um nome para esse momento, porque o termo “terapia” está vinculado à resolução de conflitos e dificuldades. Passei a ver esse processo com o nome de “Psicoterapia evolutiva”*, onde o passado tão valorizado por outras linhas passa a ter uma importância relativa, mas onde a base é o conhecimento de si, as novas atitudes que, com certeza, trarão novos resultados.

Entender os motivos e os processos que nos levam a agir de determinada forma e o vislumbre de novas possibilidades de, com um novo olhar, reinterpretar e dar um novo sentido ao que nos ocorre é a busca que se empreende. Essa visão não é nova nem inédita, mas sempre contemplará uma transformação. Deixar que o antigo se vá para que o novo possa surgir, essa é a questão.

Todos padecem da falta de autoconhecimento, muito pouco incentivado desde sempre, já que pessoas que não se conhecem ou recebem “de fora” suas definições são sempre mais fáceis de serem controladas.

Independente da linha, do jeito e dos conceitos, a terapia é um espaço onde a pessoa pode ser sincera consigo mesma, onde não será julgada nem avaliada e só por isso já vale muito a pena. Ter um tempo para si, para ser verdadeiro, inevitavelmente ampliará os horizontes pessoais e compreensão de si e do mundo que o cerca.

Com certeza, existe uma terapia que se encaixará com você. Portanto, procurar e experimentar não são tempo perdido, mas um grande investimento.

 Quanto custa viver melhor? Existe mesmo um preço para isso?

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  • A visão não é “evolucionista” no sentido dos nossos ancestrais e dos costumes, mas como desenvolvimento de uma consciência ampliada.

Uma possibilidade chamada Deus

“Eu ansiei  profundamente e busquei durante longo tempo por Deus, mas não pude encontra-Lo. Então, certo dia, abandonei aquele anseio, aquele desejo, aquela busca, e desde tal momento Ele vem me seguindo. Ele está sempre comigo. Na verdade, Ele esteve sempre comigo, mas eu estava tão ocupado pela busca que jamais O via.”

Kabir

                                                                                                                                                   interrogação

Deus é algo que só existe na mente das pessoas, por isso é  que precisa ser alcançado, ou para quem nos dirigimos nas preces, sendo, portando uma “outra” entidade, ou um Tu.

É atribuída a Jesus uma fala onde ele teria dito que o caminho (ponte) é direto e estreito e que só uma pessoa passa. Interpreto essa passagem como que não há espaço para o “eu” e o “tu”. Só quando  se fundem, Deus poderá ser encontrado. Assim, o ego, representado pela mente, é o que impede a clara percepção. Fora disso é a escuridão  que Sidarta falou ter se libertado quando atingiu a iluminação.

Assim, Sidarta negou a existência de Deus, e ele está correto, já que Ele não é possível enquanto existir esse “eu” que separa de tudo, praticamente colocando-se fora do mundo e desconectado, mergulhado em seus pensamentos.

Outros como Pantâjali*, diziam ser Deus apenas uma hipótese, que não traz nenhuma verdade em si, mas pode ser usada como um caminho na meditação, como uma espécie de mapa que leve a algum lugar onde esse ego seja suplantado e o sofrimento termine. Esse pensamento não é necessariamente uma afirmação da inexistência de Deus, mas apenas uma forma de dizer que poderemos usar Deus como uma desculpa para conseguirmos suplantar o diversionismo da mente e encontrá-Lo atrás dela.

Na verdade, essa liberdade de viver sem medo é o que os budistas chamam de Nirvana, mas que também é traduzido por “esquecimento”. Mas que esquecimento? Poderíamos dizer que é esquecer do meu Eu?  Atrás da mente está a eternidade propagada por muitas religiões, mas que, estranhamente, mantém as pessoas aprisionadas em seus mandamentos e punições, trazendo a culpa e o medo que, em essência, é a verdadeira definição de mente.

Trata-se de uma espécie de estelionato espiritual, já que diz que existe, cobra a passagem, mas nunca leva ao lugar prometido. E isso se explica pelo fato de que todos que lá chegaram atingiram a verdadeira religiosidade.  Esse nível de compreensão e liberdade, obviamente dispensa a necessidade de uma religião que lhe diga como deve agir, pensar e o que deve fazer. Essa é, na verdade, a conduta que temos com as crianças que não sabem o que fazem e precisam ser guiadas.

Kabir, o místico sufi que abre esse texto, parou de procurar e encontrou. Pode parecer um paradoxo, mas é assim que as coisas funcionam e isso vale também para Deus. Quem já não ouviu alguma história de uma mulher que de tanto querer engravidar nunca conseguia. Ao desistir da ideia, seja por resolver adotar ou outro motivo, quando já não mais se preocupava com isso terminou engravidando.

Esse “querer”, seja o que for, traz embutido em si o medo de não conseguir e todo o processo é paralisado. Aliás, sobre isso Deepack Chopra** conta que um Mestre disse a seu discípulo:

“Se você passar cada momento transformando todo o pensamento e ação em bem, continuaria exatamente tão distante da iluminação quanto alguém que usou cada momento para o mal”.

Por mais estranho que pareça isso é muito lógico. Sempre que estou me esforçando para fazer o bem, demonstro que  mal está presente e esse vai e vem estre os opostos mantém um nível de tensão que inviabiliza esse estado de paz. Existe uma tendência de igualarmos bondade e Deus, mas o bem é cármico como diz Chopra. Isso quer dizer que o bem é resultado de ações e não é nada que seja a priori ou apareça do nada. Assim, o” bem” é resultado de evolução e não algo que nos seja natural. Da mesma forma a ação errada também gera seus resultados.

Bem e mal fazem parte de uma mesma dança como disse no post   “a importância do mal”. Assim sempre que desejo o “bem”  isso me levará ao mal e vice versa. Para ilustrar vou usar aqui o mesmo exemplo de Chopra:

… desejar A ou B sempre levará a seu oposto. Se eu nasci rico, posso ficar maravilhado no começo; posso satisfazer qualquer desejo, atender a qualquer capricho. Mas no fim o tédio se instala; ficarei desassossegado e, em muitos casos, a minha vida ficará sobrecarregada.”

Isso nem é tão difícil de perceber, afinal quem já não ouviu ou disse que “daria tudo” para… Esse “tudo” é algo que se imaginava antes de se ter que resolveria todos os problemas. Mas por ser um extremo, traz o outro em si, assim como a mais profunda escuridão na noite antecipa o dia que ira raiar, em questão de tempo. Como dizem os budistas, minha mente sempre desejará o oposto que tenho. Entender isso pode até ser como achar o endereço de Deus.

Portanto, se Deus existe, é uma possibilidade, ou algo que precisamos para não nos sentirmos abandonados no mundo. Na verdade,  pouco importa. O que é possível de tornar verdade é ampliarmos nossa compreensão para sairmos dessa situação mental de angústia, sempre atrás de alguma coisa, inclusive de Deus.

Como diz no Gênesis, tudo, no princípio era escuridão, logo Deus já existia, então era lá que ele morava.

Imagino que Deus esteja escondido em um lugar escuro, dentro de nós esperando que possamos iluminá-lo com alguma compreensão e, principalmente, atitude de quem busca ultrapassar os limites do ego.

Muitos para isso buscam renunciar a tudo e isso já traz o outro extemo que é o apego. Só posso querer renunciar a algo que para mim é valioso e isso já mostra como, seja o que for, é importante.

Na verdade, a sugestão é abandonar. A própria palavra já soa mais leve e não traz a separação que está implícita na renúncia. Você pode ter as coisas que abandona sempre perto, foi sua relação com elas que mudou. Na renúncia isso não é possível. Não é um jogo de palavras, experimente e constate por si mesmo.

Noto quando em prática de relaxamento como as pessoas se sentem bem, em paz e isso dura dias. A resposta para isso é que relaxar é, em primeiro lugar manter a mente focada na prática, impedindo suas viagens sofridas, mas principalmente, porque a pessoa se abandona, se entrega totalmente e o bem estar físico e mental é uma consequência natural.

Essa sensação de leveza, paz e serenidade nada mais é que Deus. Quando se está assim, não se pensa em problemas, dificuldades, futuras doenças e outras bobagens. Simplesmente se “está”. Alguns até relatam que nos primeiros segundos enquanto retomam a mente, chegam até a esquecer de quem são, enquanto “eu” ou ego.

Depois da primeira experiência, todos querem novamente  esse estado. O que já pode gerar uma tensão que atrapalha a próxima tentativa e o relaxamento pode ter resultado inferior. Já está de novo o problema; o medo (mente, ansiedade, sofrimento) de não conseguir atingir o resultado esperado.

Kabir, Sidarta e outros chegaram lá, sem a ajuda de Deus. Eles não estavam procurando por Ele, e só por isso conseguiram compreender tudo tão profundamente. Foi assim que Deus passou a ser um detalhe.

E é mesmo!

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*Pantâjali ou Pátañjali – Se dá o nome de Pátañjali ao mítico codificador do Yoga Clássico, autor do Yoga Sútra. Tudo sobre esta figura histórica é um verdadeiro mistério. Para começar, a data em que ele teria vivido é fonte de discrepâncias. Há autores que afirmam que viveu no século IV a.C. e outros que pensam que tenha vivido entre os séculos II e VI d.C.

Disponível em: http://www.yoga.pro.br/artigos/334/3022/quem-foi-patanjali

**Como conhecer Deus – Deepack Chopra  ed.Rocco