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O peso da Solidão

“ Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é um Deus.”

Aristóteles

“ A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.”

Arthur Schopenhauer

“ A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

Fernando Pessoa

 

solidao

 

Um estudo recente promovido pela Universidade de Virgínia*, nos Estados Unidos, publicado na revista Science, traz interessantes conclusões sobre a solidão.

Os voluntários eram colocados em uma sala, sozinhos, por 15 minutos, sem fazer nada, sem seus celulares ou qualquer outra distração. Não havia televisão, som ou qualquer estímulo que pudesse dividir a atenção. A pessoa ficava acompanhada apenas dos seus pensamentos.

Mas havia uma saída, caso apertassem um botão poderiam usar o que quisessem como pegar seu celular, por exemplo. O detalhe era que esse botão, que possibilitaria voltar a ficar conectado dava um choque elétrico. Em outras palavras, para sair da solidão o preço era levar um choque, que, segundo a pesquisa, era dolorido o suficiente para, em princípio, desestimular essa iniciativa.

Os resultados foram surpreendentes: 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram a dor do choque a ficarem os 15 minutos completamente sós. Alguns, inclusive, preferiram tomar mais de um choque nesse curto período.

O resultado não deixa dúvidas;  o ser humano (na sua média, afinal toda a regra tem exceção) vê a solidão como algo negativo. O simples fato de estar conectado a internet, já abranda essa angústia. Isso explica muito bem como os celulares modernos ocupam muito do espaço que antes era da televisão, ou seja, de nos entreter e evitar que a pessoa se perceba só.

Alguns estudiosos como John Cacioppo que é diretor do centro de neurociência da Universidade de Chicago, defendem a ideia que a solidão trabalha em nosso cérebro da mesma maneira que percebemos a dor, fome ou sede. Isso quer dizer, que, quando sozinhos nosso cérebro entende que corremos risco de vida, afinal os estímulos citados acima têm a ver com sobrevivência.

Todos os estudos mostram que as pessoas sozinhas, ou que assim se sentem, têm, em média,  um aumento da pressão arterial e o processo de envelhecimento acelerado, se comparado com pessoas não afetadas. Já as pesquisas sobre suicídio dão conta de que as pessoas consideradas “cronicamente sós” atentam mais contra sua vida do que as que não pertencem a esse grupo.

A explicação para o resultado dessa pesquisa tem suas raízes em nosso processo evolutivo. Nos primórdios, mesmo antes da podermos dizer que havia algum rudimento de civilização, a sobrevivência do “bicho” homem só era possível em bandos, ou seja, estar com mais pessoas ajudava a manter a vida. O grupo proporcionava essa segurança de uns defenderem os outros, a conseguir alimento e dividir tarefas.

Mas, pelo visto, nem todas as mudanças nesses muitos milhares de anos trouxeram grandes acréscimos em relação ao nosso modelo original. Talvez porque a própria teoria evolucionista mostra que temos em nossos genes contato com esse homem das cavernas, de quem somos descendentes.

O fato de sermos animais sociais, não tem a ver com não podermos estar sós. A solidão é um problema que a pessoa tem consigo, é interior. É de alguma forma sentir-se a parte, desconectada da vida. Quantos se dizem sós, mesmo rodeado de pessoas?

Hoje, com toda a tecnologia disponível a maioria das pessoas teme a solidão como uma doença letal. A mente sempre agitada e negativa deixa a pessoa atordoada com suas maquinações de medo em relação ao futuro ou culpa pelo passado e, na verdade, o outro ou algo que prenda minha atenção cumpre a tarefa de  salvar desse inferno de ficar ouvindo esses pensamentos ruins o tempo todo.

Não vejo como possamos estar realmente bem com alguém sem que tenhamos a experiência agradável da solidão. Parece que as pessoas não entendem que não “são” sua mente e  não há nada que faça essa negatividade acabar, afinal essa é a sua natureza. Ter medo ajuda o bicho homem a sobreviver, como já enfatizei em artigos anteriores.

Mas isso não impede que minha companhia me seja agradável, que possa curtir a solidão como algo prazeroso e profundamente evolutivo. Quem fica bem sozinho transcendeu ao bicho que também faz parte de si, e, provavelmente, entendeu sua mente e convive bem com ela, apesar de tudo.

A solidão será um problema na medida em que pensamos que esse “vazio” só pode ser preenchido por outra pessoa ou por estar em contato com outras. Aí, já entramos no perigoso terreno do apego e da dependência emocional que sempre é facilmente confundido com amor. Se dependo da presença de outra pessoa para me sentir bem, é porque me falta algo, que espero que seja preenchido pelo outro. Nunca será, e é por isso que muitas pessoas pulam de relacionamento em relacionamento atrás de si mesmas e  nunca sossegam. Procuram  no outro o que falta em si e isso nunca será possível.

Assim, vamos imaginando nas outras pessoas ou esperando em um futuro relacionamento “perfeito” a peça que falta no quebra cabeça do meu autoconhecimento.

A grande vantagem de encontrar essa paz em si mesmo é nunca cobrar do outro essa responsabilidade, além de facilitar e nivelar sempre “por cima” as escolhas que fazemos, não só afetivamente, mas em todos os campos de relacionamento. Se não preciso, escolho melhor e sempre me relaciono de forma mais saudável. Parece óbvio, mas,  infelizmente, não é.

Os choques que as pessoas preferiram levar nesses apenas 15 minutos, mostram que preferem sofrer a ficar sós com seus pensamentos. Daí é bem fácil entender porque também sofrem em suas relações. O outro é alguém que me salva dessa sensação de inadaptação que nos faz sofrer e ativa nosso sistema como um perigo letal.

É claro que se estou morrendo qualquer um que me salve resolve meu problema, mas ninguém está doente ou morrendo por estar só. Hoje, com a internet, temos milhares de contatos na palma da mão e ter a possibilidade de conversar com pessoas on line e saber o que ocorre um tempo real virou também um substituto para a convivência.

É tão mais seguro se relacionar atrás da tela, já que nos isenta das frustrações possíveis de ocorrer em relacionamentos reais. Sempre será importante lembrar que dificilmente um relacionamento entre pessoas emocionalmente saudáveis dará errado. Vamos de um extremo a outro, sempre fugindo da dor e buscando a felicidade.

Como nosso lado instintivo é  forte!  Somos ainda mais bichos que humanos.

Pelo visto, evolutivamente, a pré-história ainda não terminou.

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*Os resultados dessa pesquisa foram publicado no Jornal de Santa Catarina na edição de 21/07/2014

Palestra sobre ANSIEDADE

Aqui, em vídeo, a palestra sobre Ansiedade que ministrei dia 1 de agosto em Blumenau encerrando a semana de jornada espiritual da FLV. A vantagem com a edição é a presença dos slides que normalmente não aparecem nas gravações. Parabéns ao Nassau pelo trabalho! A palestra dura 100 minutos. É que o assunto assim exige. Pode ser vista com pipoca ou não…

 

Imagem de Amostra do You Tube