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A vitória do mais fraco

“A fim de superar um sentimento de vazio interior e impotência o homem escolhe o objeto no qual projeta todas as suas qualidades humanas: seu amor, sua inteligência, sua coragem, etc. Ao submeter-se a esse objeto, ele se sente em contato com suas próprias qualidades; sente-se forte, inteligente, corajoso e seguro. Perder o objeto significa o perigo de perder a si mesmo.”

                                              Erich Fromm

                                                                                                                                                    Davi e Golias

Uma das coisas que chama a atenção nos esportes é a torcida a favor do mais fraco, mais pobre, menos favorecido em detrimento do mais qualificado, poderoso ou mais rico dos competidores.

Esportes que não ofereçam essa possibilidade não caem muito no gosto popular, já que torna a possibilidade da vitória heroica menos possível. Talvez possa ser interessante refletirmos sobre essa tendência e porque quando acontece nos emocionamos tanto.

Costumo sempre pensar que o encantamento da vitória do mais fraco seja a de nos mostrar que nossos sonhos também são possíveis. Projetamos no esporte, por exemplo, essa realização que nós mesmos achamos impossível em nossas vidas e é por isso que traz tanta emoção quando o mais fraco vence como nos mostra a metáfora da luta entre Davi e Golias. Transferimos nosso poder a um ídolo daquilo que não conseguimos concretizar em nossa vida.

Temos medo das mudanças que queremos, justamente por não termos a certeza que teremos sucesso. Nunca pensamos que nosso desejo se realizará, pelo contrário, esperamos sempre o pior e isso é que impede que muitos sequer façam uma tentativa.

Acostumamo-nos com esse jeito que queremos mudar e depois não conseguimos nos desapegar de parte de nós mesmos que sabemos que não está indo bem e está atrapalhando nossa vida. Isso nem é tão difícil de entender; somos como somos por muito tempo e mudar significa nos tornarmos algo desconhecido para nós mesmos. Pode parecer estranho, mas pare para pensar um pouco e verá que posso ter  razão.

Sonhamos com mudanças que, para acontecerem, necessitam que sejamos diferentes do que somos hoje e aí é que mora o perigo ou o medo. Essa mudança tão necessária para criar as condições para a transformação significa, em outras palavras, perdermos parte de nossa identidade (normalmente a que não está dando certo), e isso gera muita insegurança.

Como aprendemos que não devemos trocar o certo pelo duvidoso, tendemos a preferir ficar como somos a irmos em direção ao desconhecido, mesmo que essa pessoa esteja infeliz ou frustrada com sua vida hoje. Mesmo que seja claro que não haja quase nenhuma possibilidade das coisas melhorarem por si mesmas – quase nunca há, apesar de sonharmos com mudanças em que não precisemos nos esforçar – continuamos com a tendência de ficarmos onde já conhecemos.

Daí, adoramos ver as histórias de vida das pessoas que venceram dificuldades grandiosas, dos desprezados que se indignam com sua situação e transformam suas vidas, ou dos pequenos times que vencem os “grandes” e fazem história. Tendemos a não lembrar das vitórias comuns, onde o previsto acontece, mas tornamos verdadeiras lendas as vitórias consideradas impossíveis.

O leitor poderá argumentar que essas grandes vitórias contra o “destino” são em pequeno número se compararmos com as vitórias dos considerados “melhores” e é justamente aí que quero chegar. Porque sempre, ou na esmagadora maioria das vezes vence o melhor e mais preparado? Justamente por ser melhor e mais bem preparado!

Muito dos grandes de hoje, quase a maioria, foi pequeno antes de se tornar vitorioso e isso tem a ver com enfrentar o medo e acreditar que o impossível é possível. Até penso que muitos desses pararam para observar que, como isso acontece com certa frequência, nem deve ser tão difícil assim.

E aí eu faço uma pergunta: será que me sentir inferior,  achar que não consigo,  que o sucesso não é mesmo para mim ou que não nasci com a bunda virada para a lua, seja uma maneira com que me identifico e sobre a qual estruturei toda a minha vida e visão de mundo? Se for assim que me vejo ou me disseram que devo pensar, nunca mesmo vou conseguir. O mais perto que se chega, nesses casos, é chorar no cinema, no último capítulo do livro ou nos estádios pela vitória dos outros.

O grande sucesso que essas histórias fazem é justamente fazer-nos vibrar com a vitória dos outros, que venceram por “nós”. Tornamos esses vencedores nossos ídolos, compramos os produtos que eles anunciam, usamos suas camisas com orgulho, mas infelizmente, para a esmagadora maioria, não muda nada em suas vidas.

Esses vencedores parecem ser de outro mundo, onde o impossível acontece, não do nosso, das dificuldades e da esperança de uma recompensa no céu por todas as dificuldades que passamos.

Parece que a vitória dos “heróis” nos basta, ficamos preenchidos por elas e isso nos acomoda nas derrotas cotidianas. Vingar-nos-emos quando assistirmos outra superação ou quando algum Golias cair de cara no chão.

Palestras motivacionais estão sempre cheias porque nos dão uma dose de algumas horas de que é possível entrarmos para o Olimpo dos bem sucedidos, mas isso dura pouco e, em poucos dias, a rotina nos recoloca de novo na poltrona a espera do nosso milagre.

De outra forma, isso também pode ter a ver como as pessoas gostam de acompanhar escândalos com pessoas famosas, onde a queda é grande. Inconscientemente, isso pode mostrar como é bom ser um anônimo, desconhecido e desfavorecido. Quanto mais perto do chão estiver, a queda nem machuca. Preferimos acreditar que o “reino dos céus” será o pagamento por ser uma ovelha obediente, e com certeza, passaremos sem dificuldade pelo “buraco da agulha” que separa os que merecem daqueles que vivem bem e confortavelmente no pecado de serem bem sucedidos.

Estamos sempre transferindo nossos sonhos e frustrações em outros lugares, pessoas e situações com o objetivo de tirar o foco e a responsabilidade sobre nós mesmos. Como disse Willian Silverberg * em uma clássica definição psicanalítica da transferência:

 “A transferência indica uma necessidade de exercer um controle total sobre as circunstâncias externas com toda a sua variedade e multiplicidade  de manifestações. A transferência pode ser considerada como o duradouro monumento à profunda rebelião do homem contra a realidade e a sua teimosa persistência nos caminhos da imaturidade.”

Portanto, penso que ser Golias é melhor e dá mais resultado. Vez por outra ele encontra um Davi pela frente, mas isso chega a ser tão raro que vira história e a vida bem vivida é sempre feita de mais vitórias que derrotas. Perder faz parte e é do jogo, nos ensina os caminhos a serem corrigidos, para podermos continuar vencendo na maioria das vezes.

Como bem diz uma propaganda em voga durante a copa do mundo, o negócio é menos discurso (desculpas) e mais atitude. Nunca esqueça que o pior dos arrependimentos é o de não ter buscado sua realização, seja no campo que for.

Só assim teremos histórias para contar onde seremos os protagonistas. É muito melhor falarmos de nossas conquistas do que contar as vitórias emocionantes dos outros.

*Citado por Ernest Becker em “A negação da morte”.

A Educação essencial – 2a Parte

“O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos. Ser feliz é ser autossuficiente”.

                                                   Aristóteles

                                                                                                                                                   samsara-roda-bhavachakra

Você se lembra do que estava te preocupando no começo de junho do ano passado? Ou mesmo com o que problema sua mente se atormentava em março desse ano?
Para a grande maioria a resposta será “não”.

Já reparou também, que sempre que sua vida está tranquila, você mesmo acha muitas vezes ridículo o “problema” que passa a incomodá-lo? Chega até a dizer ao seu interlocutor: “você vai achar graça do meu problema”.

Por isso é importante entendermos que nossa mente vive de criar problemas, e como a maioria acredita ser sua mente, passa a vida se preocupando o tempo todo, esperando que, se o problema do momento for resolvido encontrará finalmente um pouco de paz. Nunca vai acontecer!

Justamente por isso, a maioria das terapias tende a ser de longo prazo, visto que, quem procura ajuda, faz isso com o objetivo de resolver seus problemas e eles jamais acabarão, pelo menos enquanto estivermos habitando esse corpo dotado de uma mente.

Lembre que a mente cumpre função de sobrevivência e isso fará com que ela sempre deixe você preocupado com alguma coisa, visto que se essa “coisa” acontecer poderá trazer sofrimento. A finalidade então é tomarmos as providências para que tal coisa não aconteça. Só que isso, por ser função fundamental da mente, nunca terá fim.

Já mencionei uns cem números de vezes que nossas mais antigas preocupações, justamente por serem antigas, nunca aconteceram. Pense no tempo e energia que se desperdiça, uma vida esperando que alguma coisa aconteça. Tudo isso é uma grande bobagem, mas continuamos o tempo todo assim, criando um vício de estarmos preocupados, seja com o que for.

Qual o seu medo de hoje, por exemplo? Ele é inédito ou por falta de coisa mais criativa é dos seus modelos vintage de preocupações?

Todo meu esforço em falar desse assunto muitas vezes e de forma diferente é justamente buscar entender a natureza da mente e diminuirmos, e por que não, extinguirmos todo o sofrimento desnecessário. Como já sabemos, nosso corpo sofre com isso, pois a pressão dos pensamentos negativos nos mantêm tensos e isso sempre termina em alguma doença.

Nosso principal vício é de ficarmos pensando em coisas irreais, projetadas para um futuro imprevisível, ou vindas de um passado tão ficcional quanto.

Quando acontece de estarmos em um momento de certa tranquilidade esse vício fica criando preocupações novas para atender esse jeito doente de viver. O fato de estarmos sempre preocupados é, em última instância, um comportamento que faz parte da cultura que vivemos e, no fim, é muito pouco inteligente.

Quem garante que a pessoa tal vai morrer?

Qual a real certeza de que uma doença virá?

É mesmo “certo” que ficaremos sozinhos e abandonados?

A pobreza ou uma vida miserável no futuro é mesmo uma certeza?

O sofrimento do passado nunca vai mesmo acabar ou se repetir? Tem certeza?

O futuro é uma possibilidade e termos algumas atitudes previdentes em relação a ele não é errado, mas agirmos como se elas fossem uma certeza, beira mesmo a psicose.

Enquanto nossas alucinações não se confirmam, continuamos bobamente esperando por elas, com cada vez mais certeza, afinal se ainda não aconteceu, é porque vai a qualquer momento. Reflita sobre se isso é ou não um absurdo.
Tudo que acontece sempre nos pega de surpresa mesmo quando estamos esperando e isso é uma grande ironia. Mas mesmo sabendo, isso não muda essa doença de preocupações com as quais se faz fortunas, girando bilhões de dólares em remédios, planos de toda ordem e bens de consumo que imaginamos ao tê-los, pararemos de nos preocupar.

Seria tão complicado ensinarmos as pessoas sobre o funcionamento da mente? Teria alguém, como disse na primeira parte desse artigo, dificuldade de entender isso aos doze ou quinze anos?

Nunca conseguiremos terminar com isso, já que essas preocupações tem a finalidade de nos manter mais tempo vivos, agindo previdentemente, mas podemos nos dar ao direito de não ficarmos o tempo todo acreditando nessas bobagens e nos acostumando a estarmos sempre com alguma “minhoca” na cabeça.

Esse jeito de viver termina se tornando parte de nós e noto como as pessoas se sentem estranhas e inadequadas quando não estão sofrendo por alguma coisa. Elas dizem se sentirem “frias”, como se estar preocupado, sofrendo situações que não são suas ou que não existem, mostrem nossa solidariedade e medem o quando gostamos ou não de alguém.

Guarde isso para quando for mesmo REAL, e aí se justificará. Fora disso, busque uma libertação, que será lenta e gradual. Não há como alguém, de uma hora para outra, parar de sofrer desnecessariamente, sem achar que enlouqueceu.

Nosso maior obsessor é nossa mente e esse vício idiota de estarmos sempre sofrendo por qualquer coisa, até mesmo pelo que viu na televisão ou leu no jornal, que nem parte da sua vida faz. Note como acontecimentos que nada tem a ver com você podem “estragar” seu dia. E o pior; saímos contando isso para todo mundo para mostrar como somos bons de coração.

Já ouvi referências que a palavra “psicologia” tem a sua raiz ou significado como ciência da alma, mas do jeito que está virou a ciência da “mente”, ou seja, trocou de finalidade e nunca chegará a lugar nenhum.

Afinal se entendermos como tudo isso funciona e pararmos de sofrer desnecessariamente, aí sobrará mesmo tempo para uma verdadeira psicologia, aquela que se preocupe em ajudar a evoluir, ampliar a compreensão, descobrir a liberdade de atribuir novos significados e não em resolver problemas, na sua maioria imaginados ou porque não resolvemos direito nossos traumas de nascimento ou da infância.

Se isso fosse verdade, como se explica pessoas que passaram por inúmeras dificuldades, sofrimentos e abusos tocarem sua vida normalmente? Talvez elas não tenham muito tempo para desculpas. Querem viver bem agora!

Não acredito em algo que dependa do passado como uma forma de entendermos completamente a pessoa que somos hoje, essa sim, que demarcará até onde poderemos chegar amanhã.

Estive pensando: perdemos um tempão tentando entender nossos problemas. Seria útil se eles acabassem depois de entendidos. Mas logo vem outro, seja novo ou dos ainda não entendidos e tudo começa de novo. Ou entendemos a mente e começamos a tratar as bobagens como bobagens ou então seremos consumidos por isso até a morte e, se houver mesmo reencarnação, na próxima vida também.

Não é mesmo à toa que os budistas dizem que precisamos nos livrar da ignorância, se não ficamos nesse “samsara*” sem fim.

*Samsara – que em sânscrito significa perambulação (devanagari), é o fluxo de incessantes renascimentos. É a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro, através dos seis ilusórios reinos: Inferno, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, Asura ou Demônios Belicosos, Ser humano, dos Deuses e da Bem-Aventurança. A menos que se adquira a perfeita sabedoria ou seja iluminado, não se poderá escapar desta roda da transmigração, ou Roda da Samsara. Aqueles que estão livres desta roda de transmigração são considerados lamas, iluminados (ou budas, em sânscrito). Fonte: Wikipedia