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A Educação essencial

“A faculdade de redirecionar reiteradamente e por vontade própria uma atenção dispersiva é a verdadeira raiz do discernimento, do caráter e da vontade. Ninguém é senhor de si se não a possuir. Uma educação que tivesse de aperfeiçoar essa faculdade seria a educação por excelência.”

                                 Willian James – Principles of psychology 

                                                                                                                                      planta

Sempre que estou falando, seja em uma aula ou palestra sobre a questão do sofrimento, é comum as pessoas me olharem com certa incredulidade quando lhes digo que, se aumentarem seu tempo de atenção ao presente em dez minutos por dia suas vidas mudarão em alguns meses.

Mas isso não é difícil de entender enquanto conceito teórico, o complicado é acreditar que algo tão simples (mas difícil de executar) possa fazer tanta diferença. Por isso é importante entendermos que, ao nascermos, está impressa uma individualidade que poderemos chamar de “eu”. Esse “eu” é tão único quanto o DNA e inclui talentos naturais, tendências comportamentais etc.

Com o tempo e a educação que recebemos vamos formando sobre esse “eu” uma crosta, que tem a finalidade de nos adaptarmos ao meio e sermos queridos e reconhecidos como bons. Além disso, e, principalmente, nos garante que seremos amados por pessoas importantes para nós, afinal somos o que elas esperam. A essa crosta, damos o nome de “ego”.

Como o ego é então formado por repetição, punição e outros artifícios, com o tempo vamos pensando que somos esse ego e normalmente nem lembramos, até porque isso não é interessante para quem condiciona, que temos um “outro” jeito de ser que nem chegou, coitado, a desabrochar.

Então a vida vai sendo vivida, se é possível que o falso realmente viva, e em determinado momento de crise pessoal ou época, quando nos damos conta que alguma coisa precisa estar errada, entramos em processo de mudança. Linhas mais antigas de psicologia irão procurar na sua infância essas causas, normalmente na boa ou má relação com os pais e outras circunstâncias. Pessoalmente acredito que o problema esteja mesmo lá na sua origem, mas não do modo que é normalmente tratado.

Simplesmente acredito que o verdadeiro problema é que esse “eu” verdadeiro clama por poder viver e se expressar. Se estiver certo, penso que perdemos tempo demais na infância, ou caso não seja suficiente, até em vidas passadas. Tudo para encontrarmos uma explicação para a infelicidade e frustração. Só que isso só fortalece a ideia de que o ego é o verdadeiro centro desse ser. Não dará certo porque não há como tornar um boneco de cera uma pessoa, mesmo que seja muito parecido.

Nada expressa melhor o ego que a mente. Essa loucura de estar o tempo todo pensando, seja no passado ou no futuro, nada mais é do que uma nova versão das preocupações de quem nos condicionou adaptada ao tempo e a tecnologia.

Assim, sair da mente e para isso basta apenas essa conexão com o agora, naturalmente fará com que o verdadeiro “eu” possa emergir. Com ele virá a nossa verdade pessoal e o que acompanho com alguns clientes no consultório são novas formas de ver a vida, gostos, pensamentos inéditos sobre temas antigos e o desejo de seguir caminhos nunca antes imaginados.

Confio bastante na teoria que diz que os sintomas e, consequentemente, doenças sejam um clamor desse verdadeiro centro para se manifestar. Mas como sofrer faz parte do nosso programa como algo bom (incrível), precisamos de bastante sofrimento para correr o risco da mudança. O mais maluco de tudo isso é que se demora muito tempo para isso, já que só um grande martírio que nos dá a justificativa para a mudança.

Então, se conseguirmos sair da mente – e só se conectando ao presente isso é possível – vai criando as condições para esse desabrochar de nossa existência. Infelizmente, a maioria das pessoas morre sem sequer terem nascido.

A grande dificuldade desse, digamos, despertar, é justamente ser um processo extremamente evolutivo, o que determina a necessidade de uma grande vontade e coragem. Só que isso não é possível sem conhecimento ou autoconhecimento.

A medida em que vamos ampliando o tempo que nos abstemos de pensar o que nos mandaram e isso é automático (mente), vamos pensando o que realmente é nosso jeito e posso garantir que é uma grande descoberta.

Para mim é isso que podemos chamar de RESSUSCITAR!

Sem entendermos que a mente é um processo subjetivo e que não é nossa última instância, não nos daremos conta da existência da consciência, essa sim, nossa verdade mais essencial. É justamente a consciência que discute com a mente quando estamos pensando ou falando sozinhos.

Quando por exemplo, você sente uma necessidade de mudança e claramente sabe como isso fará com que se sinta melhor, a mente vem e diz um sonoro “não”. Essa negativa vem dos condicionamentos que estão impressos pela educação. Dá até para perceber quem colocou na sua cabeça a frase: Não se troca o certo pelo duvidoso….

Eu digo: Sempre se troca a infelicidade certa pela possibilidade da felicidade!

Aceite bem sua agonia, a angústia que aperta seu peito. É uma maneira de seu verdadeiro “eu”, centro do seu ser, que lhe clama por deixa-lo viver. Claro que as mudanças sempre geram algumas perdas e arranhões, mas afinal não se cresce impunemente.

Só não caia na asneira de pensar que sua evolução virá sem que nenhuma atitude seja tomada. A época dos milagres já terminou e quem os fez nem teve um bom final.

Quando explico o funcionamento da mente, meus alunos perguntam por que isso não é ensinado nas escolas, onde uma criança de doze anos poderia entender perfeitamente como tudo funciona. A resposta é simples:

Quem atinge seu verdadeiro EU é uma pessoa livre, não manipulável, e isso obviamente não interessa. O que seria, por exemplo, da moda, dos carros, eletrônicos, etc. Até mesmo a indústria da saúde tenderia a falência, já que pessoas de bem consigo e a vida tem poucas chances de adoecer.

O que aprendemos na escola nos prepara para termos onde trabalhar e isso não é educar, é formar mão de obra.

Se educar é ajudar a transbordar a essência como diz Osho, concordo com Willian James; para ensinar a viver não precisa mais do que isso mesmo.

A foto que ilustra esse post foi tirada na minha casa. Ao ver essa planta lutar pela vida no meio do concreto, pensei em escrever o presente texto. Que ela nos inspire.

O ERRO

“Muitos de nós levam a vida presumindo que estão basicamente certos o tempo todo, sobre basicamente tudo…”

                                                     Kathryn Schulz

                                                                                                                                                        crenças

Lidamos mal com o erro, e penso que isso ocorra por não sabermos avaliar sua importância. Só o erro nos ensina e deveríamos ser mais gratos a ele. São justamente eles que nos mostram a melhor maneira de acertarmos e de entendermos o que está a nossa volta.

Mas é interessante o fato de pensarmos que, ao levarmos nossa vida cotidiana de forma natural, isso nos leva a pensar que estamos certos sobre quase todas as coisas. Partimos de pressupostos sobre quase todos os aspectos da vida, e são esses pressupostas que também chamamos de preconceitos, ou seja, temos conceitos que entendemos corretos e, a partir deles, tomamos nossas decisões.

Imagine, por exemplo, que você esteja fazendo uma viagem e não conheça o lugar onde esteja. Precisará pedir uma informação para chegar onde quer. Se muitas pessoas estiverem passando a sua volta, sua escolha sobre a quem pedirá a informação será totalmente baseada em preconceitos. Seja pelo tipo físico, roupa ou algum outro fator que será analisado em fração de segundo, sua escolha recairá sobre aquela pessoa que você pré conceba que poderá lhe dar a orientação correta.

O preconceito, portanto, é extremamente útil, mas ele é baseado em ideias que, na maioria das vezes, nem questionamos se são corretas para nós. Assim, nos dizemos contra os preconceitos raciais, por exemplo, mas vez por outra um ato ou outro pode deixar claro que isso ainda não está bem resolvido em nós. Isso porque os preconceitos agem inconscientemente em nós, o que quer dizer que são quase um movimento automático no nosso cérebro.

Mas, quando nos descobrimos errados, nos sentimos muito mal, e só nos “entregamos” quando não temos mais mesmo nenhuma saída. Até o último momento, lutamos pelo que acreditamos certo, dando justificativas que nos isentem de nos sentirmos mal por estarmos errados. Ao fim, antes de capitular, podemos dizer: tudo bem, estou errado, mas….

Para Kathryn Schulz, “em nossa imaginação coletiva, o erro não está associado apenas à vergonha e estupidez, mas também a ignorância, indolência, psicopatologia e degeneração moral. Longe de ser um sinal de inferioridade intelectual, a capacidade de errar é crucial para a cognição humana. Longe de ser um defeito moral, ele é indissociável de algumas de nossas qualidades mais humanas e honradas: empatia, otimismo, imaginação, convicção e coragem”.

Associamos nossa auto imagem a conceitos que acreditamos corretos e mudá-los não é mesmo fácil. Mas se o erro tem uma vantagem que devemos valorizar sempre é justamente permitir que nos atualizemos e possamos corrigir nossas ideias a respeito de tudo. Seria algum absurdo pensarmos que será sempre o erro que nos definirá mais verdadeiramente? Melhor que Descartes com seu “penso logo existo”, Santo Agostinho se saiu bem melhor com “fallor ergo sum”, ou seja: erro, logo existo!

O erro é sempre uma experiência própria, enquanto o preconceito será sempre uma experiência não adquirida por vivência, mas, normalmente, aprendida pela cultura ou educação que recebemos.

Poderemos passar pela ciência que é a que mais erra, sendo, portanto, a que mais busca o acerto. Seja em que ramo for, desde a terra ser o centro do universo às inúmeras vezes que o café fez mal e depois fez bem, quase todas as “verdades” científicas caíram por terra ao longo do tempo. Mas isso não tira o mérito da ciência, mas a eleva, na medida em que busca o acerto vendo que errou. Claro que isso não é tão simples, afinal, cientistas são pessoas e demoram a aceitar seus erros, que eram verdades para eles quando chegaram a suas descobertas.

Tendemos a associar todas as nossas crenças ao que entendemos moralmente certo, e por isso sempre será um ótimo exercício revermos nossos conceitos do que é certo. Isso é melhor do que somente reagirmos a situações e termos que nos desculpar depois, principalmente quando percebemos que erramos de forma nítida.  Mas pelo conceito estar arraigado em nosso inconsciente só percebemos depois.

Justamente por isso, o fato de errarmos é de grande importância; justamente por ser uma experiência. Como nos ensinou Sidarta Gautama, um dos Budas, a verdade só pode ser comprovada por termos vivido a experiência. De mais a mais, como seres tidos como imperfeitos podem acertar sempre?

Deveríamos aceitar melhor os nossos e os erros dos outros. Como psicoterapeuta, costumo dizer a meus clientes que o erro só é mesmo um problema quando não aprendemos nada com ele, e o pior, ainda repetiu e continuou a sofrer.

Podemos poeticamente dizer que quando estamos errados é como se tivéssemos uma verdade momentânea, que perdeu validade. Da mesma forma, como a evolução do homem tem mostrado em todos os campos, as verdades também são efêmeras.

De certa forma, todos estamos certos, pelo menos enquanto não somos “desmascarados” pela vida ou situações, e isso é uma boa maneira de pensar em como lidar com as pessoas que pensam diferente de nós. Tanto nós como o outro poderão a qualquer momento se perceber como errado, então por que se preocupar e pior; tentar impor aos outros nossas verdades transitórias?

Podemos ter a consciência socrática de que nada sabemos, e isso torna muito mais fácil  lidar com nossas crenças e com as dos demais. Para que discutir? Sendo o erro uma experiência individual, vai ser mesmo difícil convencer os demais do que achamos certo, não concorda? Lembre sempre que, para alguém tomar sua ideia como certa, ele terá que aceitar que a dele é errada e isso não é um exercício fácil, como já citei anteriormente.

A dúvida sobre tudo ou a certeza de nada saber, é um tipo de exercício extremamente evolutivo, afinal, para estar em dúvida e aberto a rever meus conceitos, preciso estar bem consciente e não estar muito preocupado em defender meu ego.

Nossos sentidos, que são nossa leitura de grande parte da realidade, nos enganam a todo o momento e isso é fácil de perceber. Mesmo nossa memória (ver artigo anterior sobre o assunto), já está mais do que provado que nos engana sempre, criando nossas lembranças, nos coloca diante do fato de errarmos como algo inerente a estarmos vivos.

Dizemos que gostamos e depois desgostamos, prometemos que nunca faremos algo e logo depois estamos com vontade de experimentar. Prometemos coisas que não conseguimos cumprir mesmo que na hora da promessa estejamos certos do que dizemos e assim por diante.

Aliás, penso que promessas e juramentos nada mais são que tentativas de permanecermos achando certo o que já descobriremos errado um dia, tornando o transitório definitivo.

Assim, sempre que ficamos surpresos ou espantados com algo é porque nossas expectativas e preconceitos estavam errados. Não é?

 

O presente texto teve como inspiração a leitura do livro:

Por que erramos? – Kathryn Schulz  ed. Larousse