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O dom

Não importa se é uma canção com a voz de Adele, uma poesia de Pessoa ou Drummond, muito menos uma pintura de Dali ou Klee. Quando se ouve, lê ou vê, nota-se que existe algo em comum entre essas pessoas e outras tantas que vivem de arte; elas fazem o que vieram para fazer!

É algo que não se possa descrever, mas apenas sentir. A emoção que a obra transmite não só nos muda, mas também nos afasta das distrações e nos coloca em um momento de profunda inteireza. Somos alimentados, mesmo na nossa alma, justamente porque nos desconecta de tudo que é físico ou material. O interessante é que muitas pessoas não captam exatamente o que o artista queria dizer no momento da criação, mas transporta essa percepção para sua intimidade, sua vida, história e dá a obra um novo sentido. Afinal, como disse Michelangelo, uma obra precisa de quem a crie, mas e principalmente de quem a aprecie, que a julgue bela.

Fico pensando se eles seriam “eleitos” ou se tiveram mesmo determinação para buscarem fazer o seu talento se transformar em trabalho. Há quem diga que todos temos esse dom de fazer algo tão bem feito que faz bem a si e aos demais. Seguidamente ouço histórias de contadores ou engenheiros que tocam em bandas de rock aos finais de semana, de empresários que fazem dos seus jardins ou hortas seu descanso mental nas folgas e outros exemplos, mesmo que para isso cansem muito seu corpo.

Não imagino que todos precisem se tornar famosos, reconhecidos ou mesmo viverem de seu prazer criativo, mas exercê-lo já é suficiente para ajudar a lidar com as preocupações do dia a dia e dessa vida insana a que estamos submetidos.

Parece que o dom comum a todos é o sofrimento, seja lá pelo que for. Teimamos em criar inúmeras condições para nos sentirmos bem e para que isso aconteça não é fácil. Parentes próximos, o trabalho, o relacionamento afetivo e tantas outras situações precisam estar perfeitos para que nos permitamos um sentimento de tranquilidade. Mesmo que essa improbabilidade ocorra, imagino que já vem o medo de que tudo acabe e a preocupação volte.

Pessoas andam pelas ruas em constante conversa com suas preocupações e isso parece bem visível em suas caretas ou mesmo posturas corporais. Pensar demais parece mesmo um inferno, justamente por que não podemos escolher os pensamentos que queremos ter, pois os bons precisamos forçá-los. Já os ruins nos perseguem como uma obsessão. Somos atormentados por nós mesmos e isso seria muito engraçado se não fosse tão trágico.

Religiões e filosofias buscam trazer o conforto com alguma explicação plausível para o inexplicável, com o objetivo de buscarmos algum nexo nessa interminável tempestade de absurdos que ocorrem a cada minuto por todos os lados. Uns dizem que o mundo piorou, mas acho que só temos mais informações e os absurdos de sempre agora são conhecidos em tempo real acrescidos da tecnologia. Tempos atrás ficávamos mais restritos aos que nos rodeavam, em casa, na rua ou na cidade.

O dom de cada um é uma tábua de salvação, um alívio, mesmo que seja pelo tempo em que se está fazendo o que se gosta. Descansarmos dos pensamentos e olharmos tudo com olhos desligados do que acontece que só tem mesmo um sentido de expiação.

Quando o mal faz bem

O que mantém um comportamento são os resultados.

pessoas espertas

“Ganho secundário” é o nome que se dá quando alguém se beneficia de algum problema, ou seja, o mal que está acometendo a pessoa está sendo útil de alguma forma.

Certa vez conheci uma cliente que chegou ao consultório com um histórico antigo de depressão. Passadas algumas sessões percebi que ela estava claramente sabotando o trabalho da terapia, encontrando uma série de desculpas para não tomar as novas atitudes. Perguntei a ela qual era a diferença na vida dela antes e depois da doença e ela respondeu sem pensar:

-Naquela época ninguém se preocupava muito comigo…

Obviamente não era do interesse dela melhorar, afinal, se isso ocorresse o nível de atenção que ela estava recebendo iria diminuir, até porque curada, não precisaria de tantos cuidados.

Muitas vezes os ganhos secundários são mais explícitos; quando, por exemplo, uma determinada doença ou incapacidade temporária afasta a pessoas de atividades que claramente não gosta ou a mantém com remuneração em casa. Pode ocorrer de um determinado sintoma ou mesmo doença ser o motivo para se adiar compromissos desagradáveis. Quantos de nós, na infância, já não apresentamos uma febre ou dor de barriga para não irmos à escola quando nos esperava alguma prova ou por ser a data de entrega de algum trabalho que não fizemos? Além é claro, de imaginarmos como uma doença nos ajudaria em determinadas situações, sendo a solução fácil de um problema.

Isso é muito mais comum do que se pode imaginar e ocorre em vários níveis. Nem sempre é um processo consciente, mas mesmo quando ocorre abaixo do nível de percepção, quando confrontada com o problema, a grande maioria das pessoas reconhece que isso está ocorrendo, apesar de negar no começo, já que isso não é uma atitude que faz bem à autoimagem.

A doença ou o problema se torna um aliado e quando isso ocorre sempre a pessoa tem um aumento de seu poder e influência sobre os demais. Quem já não ouviu alguém encerrar uma discussão alegando que se o assunto continuasse poderia fazer “mal” ou causar algum problema grave?

Por mais duro que possa parecer, toda a relação em si é uma troca de interesses, seja de que nível for. Negar isso é esconder a cabeça no buraco, como bem faz o avestruz.

Só nos relacionamos baseados em algum tipo interesse, que pode ser de transformarmos o outro no que achamos correto (pais e filhos), ou de termos vantagens e seguranças sejam afetivas, comerciais ou mesmo de poder, simplesmente. Mesmo quando estamos apaixonados ou dizemos que amamos alguém, temos o interesse (necessidade) dessa pessoa ao nosso lado para sermos mais felizes; em outras palavras, “precisamos” desse relacionamento e isso também é um tipo de interesse. Dai a usarmos as armas disponíveis para isso nem precisa se pensar muito. No final, é a luta pela felicidade que impulsiona o ganho secundário.

Só que isso vai muito além e abrange também os comportamentos. Pessoas, depois de construírem determinada imagem passam a usufruir de benefícios. Poderemos usar como exemplo aquela pessoa que criou fama de agressiva. Ela passa a ser poupada de uma série de assuntos, justamente por ser assim. Ninguém conversa com ela para tentar demovê-la de seu ponto de vista, já que ninguém quer se incomodar. O que normalmente ocorre é tudo se encaixar no jeito dela, justamente por ter esse tipo de atitude que tanto desagrada às pessoas. Isso só reforça esse tipo de comportamento, afinal, porque ela mudaria se tem vantagem e controla situações sendo assim?

Também não podemos esquecer que muitas doenças, sejam emocionais ou físicas, mudam a vida da pessoa, no começo para pior e depois para “melhor”. Imaginem, por exemplo, o caso de alguém que se afasta do trabalho por motivos emocionais que o estejam incapacitando, independente da origem do problema. No começo a pessoa se sente mal pela situação, mas não tem mesmo forças para retomar suas atividades e precisa mesmo do repouso. O problema é que passado algum tempo, a própria família se adequa a situação e tudo vai se encaixando com a ideia de que essa pessoa não poderá contribuir com o orçamento por algum tempo. Se a situação perdura por alguns meses (o que no caso da depressão, problemas graves de ansiedade e acidentes é comum), essa pessoa tem sua vida readaptada dentro dessa nova perspectiva e se percebe com suas necessidades atendidas e sem a necessidade de trabalhar.

Quero deixar bem claro que isso acontece, na maioria das vezes, inconscientemente, ou seja, não existe uma premeditação. Ninguém gosta dessa situação de dependência, já que a autoestima também acaba, mas por ser um processo de acomodação, termina se consolidando pela repetição dos dias. É aquela história; acostumamo-nos com tudo até mesmo com o que não concordamos ou gostamos, basta repetir.

Imagino que a essa altura da leitura, você deve estar se perguntando o que fazer para lidar com isso?

A resposta é simples e tem seu fundamento em um princípio: todo comportamento só é mantido enquanto dá resultado.

Assim, se a pessoa não conseguir mais ter controle das situações, seja pelos seu sintomas, seja pela sua doença, ela, obrigatoriamente irá mudar. Isso porque ela tentará manter seus resultados, só que terá de agir de outra forma e isso abre a possibilidade de uma mudança positiva, que poderá ser negociada. É como fazer um novo acordo de convivência.

Assim, a questão “ganho secundário” é muito ampla e pode ocorrer de diversas formas pelos exemplos que dei, não envolvendo apenas doenças como se pensa normalmente. Imagino que lendo esse artigo você tenha pensado em várias pessoas que conhece que se encaixam nesse tipo de comportamento e elas não são mesmo difíceis de serem encontradas.

Porém, a finalidade desse texto, muito mais do que ajudar a entender o “ganho secundário” e identificar pessoas da sua relação que se utilizam dele de alguma forma é também, e, principalmente, trazer a reflexão de se cada um de nós também não se aproveita de alguma forma.

A melhor maneira de conhecer qualquer pessoa é aumentando cada vez mais o autoconhecimento. Inicie, portanto, sempre por você mesmo!