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O Fim

Fiquei sabendo quase um mês depois que o Marcos havia morrido. Na hora, acho que todos somos assim, trouxe a minha mente a imagem do seu rosto e com isso o que pensava dele. Parece que arquivamos em nós não só o rosto das pessoas que conhecemos mas também nossos julgamentos. O grande problema disso é que conseguimos, com o tempo, atualizar a imagem, sempre ficando com a última, mas não fizemos muito esforço em rever nossas opiniões.

O Marcos, nos seus bons tempos, gostava de conversar e contar seus feitos, do tempo do exército, da famosa universidade onde estudou e demonstrava que tinha boas soluções para tudo, desde como fazer melhores banheiros públicos à política da educação. Com o tempo, talvez tenha se tornado um pouco mais amargo e isso ficou com jeito de certa arrogância. Assim, os ouvintes foram se afastando, já que não mais conseguiam falar. Só ouvir não é fácil, afinal todos gostamos de contar nossas proezas.

Sempre o via caminhando pela cidade, de uns tempos para cá, com as costas curvadas, como se carregasse sobre os ombros o peso, não só de uma vida que já o ameaçava com problemas de saúde, mas também de estar se conformando de chegar ao fim sem ter encontrado o que procurava. Sabe-se lá se a tristeza não era de sequer não saber o que precisava mesmo ser encontrado.

No final do ano passado, tive por dois dias um contato mais próximo em função de estarmos participando de um evento de final de semana. Lá consegui perceber que estava magoado, como se a vida o tivesse decepcionado. Falava de seus tantos namoros que não deram certo, de quase ter atingido a cátedra na juventude com um título de “doutor”, mas, principalmente, da sua decepção com seus filhos, de quem se sentia distante. Reclamava que eles se preocupavam onde ele gastava sua boa aposentadoria, sua tristeza ficava estampada e as lágrimas que talvez nem existissem mais eram substituídas por um sorriso amargo, de uma inevitável constatação de que era isso mesmo, sem ilusões.

Não sei se tudo era realmente assim, afinal temos sempre nossas versões para os acontecimentos e mudamos de lado, de mocinho a bandido, dependendo de quem conta a história. Eduardo Galeano disse certa vez, que precisávamos de um livro escrito pelos leões, já que estava cansado de ler o que os caçadores contavam.

Um dia, tempos depois, o encontrei em uma parada de ônibus como se estivesse perdido. Penso que entraria no primeiro que chegasse independente para onde fosse. Precisava se mover, se parasse, pensaria e isso era o que precisava ser evitado.

Não se fica mais sabendo das mortes e isso mostra que a cidade cresce. Talvez muitos ainda não saibam da morte do Marcos e cada um a seu jeito lembrará dele e o arquivará em sua memória pelos julgamentos que fez. Nesses quarenta e poucos anos anos que viveu nessa cidade, trazido por um de seus amores eternos, passou por aqui e quando foi embora, não foi reverenciado sequer pelo dia, que, pelo que sei, amanheceu lindo na manhã seguinte, por alguma nota de jornal ou comentário no cafezinho do bar da esquina.

Todos que ainda estão aqui, alheios ou não a sua morte, levantaram no dia seguinte e continuaram escrevendo cada um sua própria história, mesmo sem se dar conta disso. Sinceramente, não sei a vida dele foi mesmo assim ou apenas a minha versão, montada por recortes daqui e dali, mas pouco importa agora. Cada um fez o que poderia ter feito quando conversou ou mesmo quando cruzou com ele nas poucas esquinas de uma cidade pequena, mesmo dando um “bom dia”, vez por outra.

É incrível nunca lembrarmos que as pessoas podem morrer amanhã.

Quem me contou o último ato do Marcos, disse que ele estava sozinho e morreu em casa, na garagem, como se estivesse procurando por algo. Foi encontrado por uma vizinha, pelo que se sabe, dois dias depois.

Parece que nossos finais são uma metáfora de nossa vida.

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Crônica dedicada a A.M.

Mentalidade doentia

“Mentes brilhantes provocam ações que causam sofrimento e dor. É preciso, também, educar os corações”.

                                               Dalai Lama, 1999

O ser humano ao longo da história tem sido educado (condicionado) pelo  paradigma da escassez. Quem de nós não ouviu o que nossos antepassados sempre disseram para seus filhos, que depois disseram para nós:

 hipocrisia

“Dinheiro não nasce em árvores!”

“Não acho dinheiro na rua”

“A vida não é fácil”

E tantas outras frases que impregnam nossa maneira de ver o mundo de forma limitante. Esse conceito de miséria traz sérias consequências, afinal, se manifesta na forma como vivemos, nos relacionamos, administramos o tempo e até mesmo como tratamos o planeta. Nossa exterioridade é reflexo do que pensamos.

Já que, dentro dessa mentalidade,  tudo é escasso, significa que vai faltar, então preciso cuidar primeiro de mim. Logo, pela mesma escassez, preciso competir, com isso, criam-se padrões de divisões sociais onde há vencedores e perdedores, ou seja, a exclusão. Também, se vai faltar, preciso acumular e isso leva ao consumo exacerbado, o que significa que vai sobrar para mim e faltar para o outro. Parece básico, mas na verdade o que está por trás da ambição é o medo da escassez.

Esse círculo vicioso da miséria tem como resultado o processo de violência instaurado hoje, não só entre países, mas também na porta de nossas casas. Com isso sempre desconfiamos das pessoas e precisamos de muita atenção para não sermos “passados para trás”, ou seja, alguém quer tirar vantagem e sairei perdendo. Será?

Pode ser conveniente lembrar a oração mais famosa do cristianismo que nos convida a pedir apenas o “pão que nos dai hoje”, sem a necessidade exagerada de ter tanto pão que nem conseguirei comer. Quero deixar claro que não sou contra qualquer tipo de poupança ou investimento, mas falo aqui de uma questão conceitual de como vive e pensa  a sociedade.

Precisamos mudar o paradigma da escassez que gera medo e sofrimento. Isso significa que preciso parar de pensar de forma pobre e medrosa. Se assim fosse, em muitas  áreas de atuação não poderiam formar novos profissionais, já que o mercado estaria esgotado. O que vemos é que quem é bom no que faz e tem talento sempre consegue um bom lugar ao sol e prospera. Portanto a escassez não existe!

Constam nos livros bíblicos, que Moisés levou quarenta anos para levar seu povo que era escravo no Egito para a terra prometida. Ocorre que se observamos em um mapa, temos um trecho de poucos quilômetros que poderiam ser percorridos em alguns dias apenas. Isso é a representação simbólica da mudança de mentalidade. Afinal, o povo que ele levava à terra prometida era composto de pessoas acostumadas à escravidão, ao sofrimento e escassez. Por isso esse tempo de quarenta anos (uma metáfora, já que o número quatro está ligado a uma mudança de ciclo), significou que nenhum dos que saiu do Egito chegou à terra prometida. Essa era a condição para ser entendido quando disse: “O Manah vem dos céus e não haverá escassez”. Precisava ser outra geração para sua mensagem poder ser não só absorvida, mas vivenciada. Já que os filhos dos escravos não tinham vivido a escravidão, não estava neles essa ideia de que sofrer e passar dificuldades fosse normal.

Em outro momento bíblico, quando Jesus fez a “multiplicação dos pães”, foi uma lição de divisão e solidariedade. Quando ele disse que haveria o suficiente para todos, que não se preocupassem, cada um pegou apenas o que necessitava, sem ganância nem egoísmo e a quantidade existente foi satisfatória.  Dessa forma, o verdadeiro milagre não foi “multiplicar” o alimento, foi a mudança de paradigma, da escassez para a abundância, ou se preferirem, de perder-se o medo de que faltaria alimento. Nunca me canso de repetir que a necessidade de acumulação sempre tem como motivação o medo, mas no fim o medo passa a ser outro: de perder o que se acumulou.

Uma mentalidade mais saudável pode nos levar  a uma sociedade pacífica, muito menos violenta e dividida, mas para isso será necessário mudar como pensamos o que seja, afinal, viver. Isso é possível? A resposta pode ser “sim” se for uma atitude individual, que pelo poder do exemplo pode multiplicar-se, mas será “não”, se esperarmos essa mudança de pensamento venha pelo status quo, afinal isso mudaria o sistema de competição que alimenta todo o mercado de produção e acumulação que experimentamos.

A cultura dominante, devido a essa mentalidade de escassez, se estrutura ao redor da vontade de dominação da natureza (riquezas), dos outros povos e do mercado. Essa é a lógica que criou a cultura do medo e da guerra, modelo antigo, que desenvolve cada mais tecnologia, separando o mundo em dois: os que podem usufruir e os excluídos e que precisam lutar, usando bons e maus métodos para continuar a sobreviver. Enquanto isso, temos armamentos de última geração que podem destruir o mundo centenas de vezes e cada vez mais pessoas vivendo em imensa miséria.

Leonardo Boff nos mostra com clareza essa situação quando diz: “A manutenção desse modelo nos levará em pouco tempo, a uma divisão cada vez mais abissal entre ricos e pobres, a quem tem acesso e não tem.  Surgirá então uma ruptura biológica na espécie humana, uns vivendo mais, com mais saúde física e inteligência e outra parcela, a maioria, vivendo menos, fisicamente debilitada e sem educação. O resultado será a tragédia moral da exclusão aceita, pelo sentimento de dessemelhança, que já conhecemos pelas discriminações raciais, só que agora, muito mais do que antes,  entre ricos e pobres. Os primeiros (ricos), livres para a violência do desprezo de usufruir riquezas e do avanço tecnológico sem solidariedade, e os outros, livres também, mas para se rebelarem sob todas as formas de violência, como já acontece hoje”.

Vemos um planeta que está se esgotando pela ganância e morreremos todos. É simplesmente inacreditável que o homem ainda se veja à parte do planeta, como um ente separado. A Terra (gaia) é um ser vivo e fazemos parte dela. Os rios e mares são o sangue, as florestas os pulmões e nós, seres “humanos” seu cérebro. Como nosso pensamento está doente estamos matando o corpo. As células de câncer querem crescer, mesmo que isso as leve a morte também, por isso são uma doença.

Dos mais de 3.000 anos de história da humanidade que podemos datar, praticamente em todos presenciamos povos em guerra. Se observarmos bem, veremos que todos os países em suas festas nacionais, a grande maioria de seus heróis e monumentos das praças são de heróis de guerra, ou seja, onde comemoramos conquistas territoriais, e, consequentemente, muitas mortes do “inimigo”.  Como bem diz Maurício Andrés Ribeiro: “Nessa cultura, o militar, o materialista o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. É evidente que nesses processos de socialização formal e informal, a cultura da violência não cria condições para uma cultura de paz”. Estamos há milhares de anos em conflito interno, mas é bem mais fácil projetá-lo no “outro” que vive diferente ou que tem um deus que não combina com o meu.

Ainda vivemos uma educação  patriarcal (masculina) que criou instituições assentadas sobre mecanismos de opressão como o Estado, o exército, a guerra e meios de produção vinculados à destruição da natureza. Um dos filósofos mais famosos da história, Francis Bacon em momento de rara infelicidade (ou porque não foi devidamente entendido), disse que deveríamos submeter a natureza ao nosso domínio. Hoje, nos invernos e verões rigorosos, no ar sem qualidade, na escassez de água, para não estender demais, são o pagamentos que todos, enquanto carma coletivo, estamos assumindo pela ignorância de “técnicos e especialistas” que esquecem a mais elementar verdade: não somos mais do que a natureza a ponto de dominá-la, mas parte dela e deveríamos nos esforçar para entende-la.

Pense que essa maneira doentia de viver não se aplica a nenhum lugar longínquo ou a uma profecia, mas já faz parte do dia a dia de todos nós. E o pior, vamos nos acostumando e, como tudo que se repete, vira “normal”.

 Afinal, como já nos ensinou Sua Santidade o Dalai Lama, a educação voltada somente para a mente ao longo da história da humanidade é um sistema que teve como resultado ações que significaram milhões de mortes, misérias, sofrimento, dor e depredação ambiental. Precisamos entender que educar a mente é  importante, mas  educar nossos corações é a única solução.

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Fragmentos de discursos de: Leonardo Boff, Dalai Lama, Maurício Andrés Ribeiro que constam do livro “ A paz como Caminho” tendo Dulce Magalhães como organizadora editado pela Qualitymark, com o patrocínio da Unipaz.

O encontro

Era tudo tão novo, o lugar, o jeito das pessoas e como se comportavam. Na verdade ainda estava meio tonto, sem saber direito sobre tudo que tinha acontecido com ele e resolveu  dar-se um tempo, encostado na parede imaculavelmente branca.

Enquanto tentava colocar suas ideias em ordem, alguém que trabalhava ali (pelo menos parecia) se aproximou e perguntou se havia recém chegado. Respondeu que sim, mas que estava ainda meio sem saber até porque estava naquele lugar. O funcionário deu um sorriso e disse que era assim mesmo, mas que ele poderia se sentar naquele banco ao lado daquelas pessoas que, em algum momento, ele seria chamado.

O funcionário o acompanhou até o lugar segurando no seu braço e isso ajudou já que a sensação de tontura não havia passado. Quando chegou naquele banco comprido viu que havia pelo menos cinco ou seis pessoas e se encaminhou para sentar na outra extremidade. De repente, um arrepio passou pelo seu corpo como se tivesse experimentado um choque elétrico. Como poderia aquela pessoa estar ali sentada? Olhou para o funcionário, incrédulo e disse:

– Não pode ser! Aquele não é o…

Mais uma vez o funcionário sorriu, fez uma leve pressão no seu braço não deixando que terminasse a frase dizendo:

-Calma, é ele sim.

– Mas não pode ser, ele já…

– Sim, sim, disse o funcionário com um novo sorriso, agora de consolo.

Nesse momento faltaram forças nas pernas e pensou que iria desmaiar. Agora sim, totalmente amparado pelo funcionário foi levado para o final do banco. Respirando com dificuldade, pediu um copo com água.

– Infelizmente não temos água aqui.

– Não tem água? A fisionomia do funcionário fez com que, agora sim, começasse a tomar consciência de tudo, apesar de esperar que  fosse um sonho, apenas.

– Mas…

– Calma! Daqui a pouco tudo estará melhor, você vai ver. Olhe para você, veja como está bem!

Quando olhou para si, percebeu que estava usando uma roupa igual a das outras pessoas sentadas no banco. Seu desespero foi aumentando.

– Preciso que me responda só uma pergunta: Aquele cara, já faz mais de três meses que ele morreu, eu fui ao enterro dele, como posso encontrá-lo aqui? Estou ficando louco, isso é um sanatório? Fui internado? Afinal o que aconteceu?

– Conforme te disse, fique tranquilo que daqui a pouco tudo ficará claro. Basta ter um pouco de paciência, mas o que posso te adiantar é que aqui o tempo passa diferente, de certa forma mais devagar. Aqui não é um sanatório, mas onde você estava antes de chegar, quem sabe?

– E essa sala onde vou entrar, o que tem lá?

– Nada demais, você apenas vai conversar e tenho certeza que vai gostar e sair de lá bem melhor do que está agora.

Ergueu levemente o corpo para tentar ler o que estava escrito na porta. Apenas duas letras em uma moldura azul: JF.

Percebendo-o mais calmo, o funcionário se afastou com  um sorriso gentil. Ficou entregue a seus pensamentos e tudo o que havia ocorrido nos últimos minutos, se é que possamos assim dizer, depois  da explicação que havia recebido sobre o tempo. Esqueceu até de perguntar o que significavam aquelas letras na porta.

Uma a uma as pessoas iam entrando na sala, mas observou que elas não saíam. Pensou que todos iam ficando lá dentro, ou poderiam sair por outra porta, sabe-se lá. Chegou à conclusão que deveria simplesmente parar com tantas perguntas, afinal não tinha resposta para nenhuma e isso o estava deixando cada vez mais assustado.

À medida que se aproximava sua vez de entrar, outros vinham sentar no banco, ocupando os lugares vazios, como nessas filas para tirar ficha para consulta médica, aonde se chega à noite do dia anterior.

Quando chegou sua hora, sentiu um frio na barriga. Pelo que se lembrava, nunca tinha vivido tanta expectativa antes, somente quando esperava o resultado do vestibular tinha sentido seu estômago tão embrulhado.

Enquanto lembrava-se de suas ansiedades anteriores, chegou a esquecer de que já era sua vez, perdido em seus pensamentos. Outra pessoa, que parecia que trabalhava ali também, tocou levemente no seu ombro, e disse:

 – Sua vez. Pode entrar.

Quando entrou na sala deparou-se com uma mesa e uma cadeira que, imaginou, era para ele. Do outro lado da mesa não havia nenhuma cadeira, mas uma luz difusa, mais parecendo uma neblina ou bruma. Percebeu-se calmo e parecia que já estava se acostumando com a ideia de ver coisas inusitadas a cada novo momento.

De alguma forma, já estava aceitando a sua nova situação, mas tudo estava acontecendo muito diferente do que sempre imaginara nessas horas. Era tudo tão estranho, afinal, como poderia ter morrido se estava ali, vivo. Resolveu parar de pensar, isso estava demais!

Sentou-se e esperou.

Passado algum tempo, percebeu que talvez devesse fazer alguma coisa e tentou olhar dentro daquela espécie de luz que não era bem luz. Sentiu vontade de falar, talvez se quebrasse o gelo ouviria alguma coisa. Lembrou que tinha tido esse mesmo pensamento quando fizera psicanálise na época que havia se divorciado. Sua terapeuta ficava sentada olhando para ele sem expressão alguma no rosto. Quanta vez, no dia da sua consulta, ficava pensando no que falar com ela e até mesmo criando novos problemas que na verdade nem tinha, para que pudesse falar por 50 minutos.

Sua experiência com Freud poderia ajuda-lo nessa hora. Começou a falar de sua infância, da relação com a mãe, que, segundo a terapeuta, estava na raiz de todo seu problema, apesar de sempre ter tido uma ótima lembrança da sua infância e se dar muito bem com sua mãe, até hoje. Lembrava-se de ter dito que não concordava com isso. Sua terapeuta franziu o rosto e foi enfática, ao dizer: – Isso é inconsciente em você! Agora, ao lembrar que naquele dia, percebeu tinha ido falar da sua separação e havia saído com dois problemas. Achou, portanto, que seria inteligente começar por aí, já que poderia ter feito algo inconsciente e imaginava que isso poderia contar a favor dele no julgamento de seus erros.

Assim, contou sua vida, suas histórias e deu sua interpretação para tudo que lhe ocorrera desde que se lembrava de si mesmo. Notava que, vez por outra, a luz oscilava, ficando mais forte ou fraca. Mais atento, observou que sempre que comentava dos seus desejos não realizados, dos medos que tinha essa “neblina” ficava mais espessa.

Perdeu-se no tempo, e já não sabia mais se estava ali há uma ou duas horas, mas pelo visto isso lá não importava muito. Depois de ter encerrado sua história, quando nada mais tinha a contar, a bruma foi se dissipando e reparou que do outro lado da mesa, tinham duas portas. Dessa vez, porém, não havia nada escrito, e eram iguais. As maçanetas estavam quase encostadas uma na outra, separadas apenas por uma fina parede.

Sabia que precisava escolher uma delas, afinal eram assim que todos faziam, já que não havia visto ninguém sair da sala pela porta que haviam entrado.

Levantou-se, caminhou alguns passos e ficou diante das portas. Teve um pensamento nesse momento que o deixou agitado; porque não posso abrir as duas e escolher para onde vou? Ninguém me disse que precisava escolher. Por que não as duas?

Com aquela sensação de que estava fazendo algo errado e que poderia ser pego, hesitou. Argumentou consigo mesmo que nada o impedia, afinal já havia mesmo morrido e feito essa espécie confissão.

Abriu as duas portas e deu alguns passos para trás para ver o que estava por trás delas ao mesmo tempo.

Quando viu o que havia do outro lado, sorriu e descobriu que de alguma forma, sempre soubera disso.

Lá fora, o próximo foi convidado a entrar.

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                                                                         MUDANÇA

Em 26/6/2011 publiquei meu primeiro artigo no blog. De lá para cá continuei escrevendo (aos domingos) semanalmente no primeiro ano e, quinzenalmente a partir do primeiro aniversário, chegando hoje perto dos 100 textos. Sempre tenho escrito, até aqui, sobre temas relativos ao autoconhecimento, propondo reflexões sobre como “funcionamos”, nossas ações e rumos sempre com o objetivo de aumentar nosso nível de consciência. O ótimo retorno que estou tendo com a publicação de “Céu, inferno e outros lugares” demonstrou que esse modelo é bem sucedido.

Quero deixar os assinantes do blog e aqueles que acompanham pelo facebook tranquilos se imaginam que vou parar de escrever. A ideia é só acrescentar.

Assim, agora, além de continuar a escrever sobre o que sempre escrevi me proponho a flexibilizar mais esse espaço onde exponho minhas ideias sobre psicoterapia e temas afins, passando a incluir outros tipos de reflexões sobre todos os assuntos que sentir vontade de compartilhar. Sei que todos vocês já se acostumaram com os textos mais elaborados, não que sejam longos, mas que procuram ir um pouco mais fundo nos temas tratados, mas essa flexibilização poderá trazer textos eventualmente mais curtos, talvez apenas algumas frases, ou mesmo parecer um “mural” sobre os mais diversos temas. Vou pensar em voz alta, vez por outra.

Muitos poderiam perguntar porque não faço isso no facebook, na fanpage do blog e isso teria mesmo certa lógica. Porém minha ideia é fazer isso no próprio blog, que sei que posso manter, independente de qualquer mudança em redes sociais sem perder o conteúdo. Além disso, as eventuais discussões e trocas de ideias nos comentários, ficarão restritos a quem entra no blog. Isso, de antemão, já garante uma afinidade entre todos, pelo interesse nos temas tratados. Mas sempre que publicar qualquer coisa, a fanpage do face enviará o aviso de costume.

Nada obrigatório, rígido ou que “tenha” que ser. Coloquei esse aviso apenas para que quando algo diferente do habitual for postado, como hoje, não cause espanto. Mas é uma maneira que usarei para conversar com todos vocês sobre outros assuntos, sejam eles sérios, importantes com ou sem sentido. Afinal, esse sempre foi um espaço de se pensar fora dos padrões e a ótima resposta que tenho tido de todos que me incentiva a continuar a mantê-lo e mudar, como exige a vida.