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Nem isso, nem aquilo

 

“Tocar o mal acarreta o grave perigo de sucumbir a ele, precisamos, portanto, deixar de sucumbir a qualquer coisa, inclusive ao bem. Um bem ao qual sucumbimos perde seu caráter ético. Qualquer forma de vício é nociva, quer se trate de álcool, narcóticos ou idealismo. Precisamos evitar em pensar o bem e o mal como opostos absolutos. O reconhecimento da realidade do mal, necessariamente torna relativo o bem – e também o mal – convertendo cada um deles na metade de um todo paradoxal.”

Carl G. Jung – O problema do mal no nosso tempo.

“Bem e mal são os preconceitos de Deus; dizia a serpente.”

Nietzsche

bem e mal

A filosofia sempre se debateu sobre essas questões básicas como o conceito de verdade, de moral e do que se considera o “bem”. Todo o julgamento que fizemos se dá, em meu entender, porque nossa mente sempre precisa de definições já que isso a deixa segura por, digamos, entender o que se passa e a de formar uma ideia a respeito seja do que for. Não é difícil de exemplificar: quem já não conheceu uma pessoa e só de vê-la (interpretá-la seria a palavra correta) fez todo um julgamento, simpatizando ou não. Passado algum tempo, convivendo, essa ideia inicial foi totalmente reformulada. A questão seria mais simples se esperássemos um tempo para depois dizer o que achamos dessa pessoa. Mas nossos julgamentos são automáticos e isso não podemos evitar, mas, não levar esse julgamento em consideração, sabendo que o tempo é mas sábio que a mente, isso sim já é uma evolução.

Quando estamos falando do que é o “bem” e o “mal” isso também acontece, só que nesse caso, foi à cultura que nos forneceu as bases desse entendimento automático da mente, e lá estamos nós julgando rapidamente, de novo!

Jung diz que o julgamento moral, pelos motivos acima, está sempre presente e isso também traz consequências psicológicas. De certa forma, ele poderia estar tratando do conceito de carma quando afirma: “Assim como no passado, também no futuro, o erro que cometemos, pensamos ou intencionamos, se vingará de nossa alma.”

Mas qual a certeza que temos que a base desses conceitos que nos foram introjetados por educação ou porque não dizer, por punição, são realmente corretos? Tudo é subjetivo e tem sofrido mudanças, dependendo da época ou necessidade. Isso quer simplesmente dizer que a base do conceito de “bem” e de “mal”, como todos os outros, é incerta e relativa, muito relativa.

Aprendemos que nenhum valor pode ser maior que vida humana, certo? Depende, já que se entrarmos em guerra contra outro país (isso ainda acontece, por mais incrível que pareça), se em uma determinada ação eu vier a tirar a vida de muitos “inimigos” serei condecorado, considerado herói e até terei no futuro uma estátua em alguma praça. Aliás, a maioria das figuras nessas praças são de heróis de guerra, que, dependendo do ponto de vista, poderia chamar de assassinos, ou não?

Todos amam seus animais de estimação, os tratam como pessoas, gastam fortunas com eles, mas daqui a algumas horas de voo, eles fazem parte do cardápio de restaurantes caros. Quando alguém aparece ou é denunciado por maltratar um cachorro, pode até ir preso, mas de outro lado não se importa muito com a rotina dos abatedouros, onde animais com o mesmo cérebro emocional (capacidade de sentir e sofrer) de seu amigo “que só falta falar” são trucidados diariamente, para nosso deleite gastronômico. Em outros lugares, esses mesmos animais são sagrados e arderemos no inferno se os maltratarmos. Diante de tantas incoerências, porque poderemos afirmar que alguma coisa ou ação é realmente boa ou má?

Torna-se necessária muita coragem para exercer a liberdade de evitar aquilo que é considerado “certo” e termos a ação de fazer o que se entende por “errado” se nossa decisão interior (poderemos chamar de ética pessoal) assim o entender. Conforme a filosofia hindu, neti neti (nem isso, nem aquilo). Penso tornar-se necessária uma elevada dose de confiança e autoconhecimento para fazer o mal, quando se sente necessário. A maioria das pessoas sucumbirá aos condicionamentos sociais e a opinião normótica sobre o tema.

Na verdade, quando a ação é consciente ela é sempre certa para quem age, a questão da avaliação moral dessa atitude fica por conta da cultura vigente e dos limites que essa cultura pode impor. Como a esmagadora maioria das pessoas é totalmente inconsciente (no que se refere aos “porquês” de suas atitudes), torna-se fundamental um manual de conduta ou código moral para nortear o que se pode ou não fazer, já que, como as ovelhas, precisamos de quem nos leve.

O grande problema é que vagamos pela vida com essa profunda inconsciência, destituídos de liberdade de pensamento, estamos sempre nos apoiando nessas velhas frases e não tomamos nossas decisões de forma lúcida e isso nos leva a projetá-las nos demais. Se todos temos uma sombra que nada mais é do que esses conteúdos não vivenciados e reprimidos, nós enquanto coletividade também os temos, e nos responsabilizamos pelas consequências da cultura que vivemos e que ajudamos a manter, seja pelo nosso conveniente silêncio ou total ignorância.

Nossa educação não se preocupa em formar pessoas que se conheçam e que, portanto, tenham recursos de encontrar suas decisões conscientes, mas apenas se preocupa em formar mão de obra e tornar todos incapazes de realmente saberem o que querem de si mesmos, transformando os diamantes individuais em pedras comuns, condicionáveis e manipuláveis. É uma alquimia às avessas.

A resposta para sabermos o que seria o “bem” ou o “mal” precisa que saibamos quem somos e isso, infelizmente, nunca será fornecido pelo Estado (leia-se “educação” que sempre trabalha pela ideologia que está no poder), seja de que lugar for. Não se formam pessoas livres, isso é perigoso demais!

Como já escrevi artigos anteriores, conhecer-se significa saber o bem que se é capaz de fazer e os crimes também. Aliás, o que seria da sociedade sem as leis e punições? A maioria das pessoas só quer ver como real o bem de que são capazes. Penso que ele só será mesmo real, quando a consciência das nossas “capacidades” para o mal estiverem bem visíveis, tanto quanto as qualidades. O crescimento se dá quando, por escolha, e não por imposição, decido não fazer o mal e não projetá-lo, fazendo o bem. Esse autoconhecimento é da maior importância, pois através dele nos aproximamos daquele extrato fundamental, ou âmago da natureza humana onde se situam os instintos, como diz Jung.

Se o conceito de Deus é de totalidade, sem divisões, seus filhos também deveriam ser assim e esse é nosso destino evolutivo, mas enquanto fracionados pelo “certo” e “errado” estaremos em constante sofrimento e assim não teremos como continuar a caminhar em busca dessa totalidade.

Assim e só assim, será fácil decidir que é verdade ou mentira, fora disso, continuaremos como crianças pequenas, perguntando com os olhos arregalados e esperando que nossos “educadores” nos digam o que posso ou não posso ser ou fazer, se sou “bom” ou “mal”.

Tudo tem um preço e ser inocente é um dos mais caros.

Uma dúvida chamada DEUS

Você não foi feito para viver igual às bestas, mas para buscar a virtude e o conhecimento.”

                    Ulisses – O inferno de Dante

“Não é menos respeitável ser um macaco modificado em vez de barro modificado.”

                    Thomas Huxley

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A existência de Deus tem sido um tema que, ao longo dos séculos, tem colocado a ciência e a religião em campos opostos e penso ser útil refletirmos sobre isso.

 Os cientistas são pessoas que, como todos, são influenciados pelo contexto social em que vivem e realizam suas experiências. Sempre foi assim, e nos dias de hoje, poderíamos acrescentar que seus interesses caminham junto com os que detêm os recursos, sem os quais o trabalho de pesquisa não pode existir. Porém, não há como negar que ainda é o melhor jeito que se tem de se explicar o mundo natural e predizer seu comportamento, justamente por estudá-lo.

No entanto, até bem pouco tempo a ciência tinha se excluído de penetrar no mundo das religiões (temos dois artigos no blog sobre o assunto que foram baseados em pesquisas recentes), que é fascinante, já que lida com o oposto da ciência; a aceitação de fatos e ideias inexplicáveis e que não podem ser comprovadas.

Em 1916, o psicólogo James Leuba fez uma pesquisa com 1000 cientistas americanos baseado em um pressuposto que defendia de que, quanto mais culta fosse uma pessoa, menos ela tenderia a acreditar na existência de Deus, e esse foi o motivo de ter escolhido cientistas, afinal, eles tendem a ter uma escolarização elevada e muito tempo em estudos complexos. Recentemente, pesquisas mostram que nos países mais cultos (onde as pessoas estudam por mais tempo em média) tem aumentando muito o número de ateus, ou seja, pessoas que não acreditam na existência de um Ser superior que ordene e comande a existência e a natureza. Esse, aliás, foi o vaticínio de Leuba, que disse que, com o aumento da cultura da população mundial, esse fenômeno aconteceria. As pesquisas mostram que ele acertou! Na sua época os resultados foram que, diante da pergunta na crença de um deus pessoal, 27,7%  dos cientistas diziam acreditar, 52,7% não acreditavam e 19,4% tinham dúvidas ou se declararam agnósticos*.

Em 1997, Edward Larson (professor de história da ciência da Universidade de Geórgia) e Larry Witham (repórter do Washington Times) procuraram repetir a pesquisa de Leuba com o objetivo de saber se a comunidade científica tinha mudado de ideia em relação a Deus ou mantinha a posição de 80 anos antes. Foram respeitadas as diferenças de épocas e de cientistas ouvidos, afinal Leuba ouviu 20% dos cientistas registrados na sua época nos EUA e, em 1997, esse mesmo número representaria apenas 3%, o que poderia de alguma forma falsear a pesquisa, então adaptações precisaram ser feitas. O que se pode ver é que os cientistas não mudaram de opinião, pelo contrário, já que o número de “crentes” diminuiu. Os resultados foram: 7% acreditavam em Deus, 72,2% não acreditavam e os quase mesmos 20,8% tinham dúvidas ou se declararam agnósticos.

Mas afinal, porque pessoas instruídas como cientistas, com uma forma sistematizada de pensar e pesquisar não acreditam na existência de Deus? Pelo mesmo motivo que atualmente a maioria das pessoas dos países mais cultos, também não: esse deus oferecido pela cultura, principalmente cristã, é mesmo “inacreditável”, justamente por ser humano demais, a saber: fica bravo, pune e condena quem não o obedece….isso dito, é claro, pelos seus “representantes legais” das várias ramificações, sejam elas do lado mais light  ou mais conservadora.

Penso que tanto os descrentes quanto os crentes estão em lados opostos e radicais, o que tende a afastá-los do ponto central. Sabemos todos que a verdade, seja ela qual for, nunca está nos extremos de lugar nenhum. Alguns cientistas, por exemplo, fazem o seguinte raciocínio: se deus interage em grau maior ou menor com o mundo físico, significa que deus é algo como uma parte do universo físico. Sendo assim, a existência de deus é uma questão que pertence ao domínio da investigação científica!

Por esse raciocínio, posso concordar com o autor que inspira esse artigo**, Massimo Pigliucci, que diz que os ateus poderiam ser convertidos facilmente, desde que lhes dessem argumentos sólidos da existência de deus. Acho muita graça, afinal querer reduzir o Inexplicável a uma explicação não é mesmo possível! Por outro lado a ciência se complica, já que também não pode provar a não existência de deus, na medida em que ainda temos uma infinidade de fenômenos ditos sobrenaturais, ou seja, acima da natureza explicável. Nesse ponto, os descrentes poderiam também alegar que os crentes também não podem provar a existência de deus. Ora, a fé se caracteriza justamente por se acreditar em algo que não se sabe. Se Deus pudesse ser provado ninguém precisaria acreditar, saberíamos de sua existência.

Na verdade, o que acontece, em minha opinião, é que, principalmente no ocidente, temos esse deus pouco provável, que não resiste à análise de um cérebro bem formado, como um ente, que tem até uma figura na mente das pessoas, com cabelos e barbas brancas assim como o personagem Gandalf do filme “O senhor dos anéis” que luta de branco contra a força negativa, trajada de negro. Essa dualidade é o mais distante que pode haver de Deus, já que ele se caracteriza por “não ser”. Todas as pessoas que tiveram suas consciências ampliadas (chamados de grandes místicos) que seriam catalogados por, no mínimo esquizofrênicos e psicóticos por essa mesma ciência, sempre definem Deus por termos como: Não Nascido, Imorredouro, Imutável, Imóvel, Não manifesto, Imensurável, Invisível, Intangível, Infinito. Como a ciência poderia descrevê-Lo?

Nessa hora, não posso me esquecer quando o famoso mitólogo Joseph Campbell foi acusado de ser ateu. Ele realmente era, se estivéssemos falando desse deus limitado ou dessa igreja que ainda defende a tese criacionista (adão e eva) e insiste em dizer que o mundo tem 6000 anos de idade, negando todas as descobertas científicas que qualquer criança sabe, de culturas que foram descobertas e estudadas, esqueletos de animais e pessoas com muitas centenas de milhares de anos mais antigos. Para quem o leu e ouviu suas entrevistas, chama-lo assim é assumir uma ignorância oceânica. O que até não é de se estranhar, pois só mesmo uma percepção limitada pode negar tamanhas evidências que tornam a tese criacionista mais voltada para desenho animado do que qualquer outra coisa que possa ser encarada seriamente.

Hoje, mais do que nunca, a ciência, filosofia e religião podem se aproximar e foi a própria ciência, através da física quântica, que fez esse convite. Pode mesmo ter uma inteligência por trás do big bang e uma ironia inteligente em sermos tão parecidos geneticamente com os macacos, por exemplo. Isso poderia muito bem explicar nossas irracionalidades, não acham?

Falta para todos o deus que os agnósticos procuram, que os orientais já encontraram, um Deus que seja uma inteligência e não alguém. Caso contrário, a frase de Thomas Huxley que abre esse artigo tem todo o sentido e é mesmo uma angústia, justamente pelo absurdo que as duas possibilidades contemplam.

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*Agnóstico é aquele que considera os fenômenos sobrenaturais inacessíveis à compreensão humana. A palavra deriva do termo grego “agnostos” que significa “desconhecido”, “não cognoscível”. Num sentido religioso, agnóstico é aquele que não acredita na existência de Deus, porém não nega essa possibilidade, por se encontrar num patamar racionalmente inacessível. (http://www.significados.com.br/agnostico/).

**O Processo contra Deus. Massimo Pigliucci, tradução Sérgio Luiz Mansur. Fonte: Skeptic Magazine Articles Archives.