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Quando o NADA é TUDO

     “A desgraça do ser humano é nunca estar em casa”

Pascal

“Quando a mente cessa, Deus começa”

Yogananda

vazio

Nossa cultura, baseada na produção, materialismo e racionalismo é toda alicerçada em ter no material a identidade que faz uma pessoa ser ou não respeitada, ter ou não poder. Assim, desde os primeiros anos de escola, somos ensinados para “sermos” alguma coisa um dia. Mesmo nossos pais, que foram educados por pessoas que também sofriam desse mal, nos perguntam: o que você vai ser quando crescer?

Quanto mais crescemos, aprendemos a mesma teoria mentirosa de que o mundo é escasso e que devemos estar aptos a disputar nosso espaço e, para termos essa tal riqueza que nos trará admiração dos demais, precisaremos ser competitivos, fortes e hábeis para chegarmos à frente dos concorrentes (que aos domingos em Igrejas e Templos são chamados de irmãos). Até hoje as escolas se preocupavam em preparar seus alunos para o vestibular (competição) e nunca se preocuparam em seus currículos em fazer dessa criança alguém que se conheça, que domine algum tipo de arte (que sempre é um dos remédios para a angústia, por acalmar e superar a mente) e assim possa compreender a existência, encontrando sua paz sem depender de nada que tenha alguma marca.

Precisamos, incansavelmente, “ser” alguém na vida e estarmos sempre em atividade “fazendo” alguma coisa, ou seja, produzindo. Assim, essa cultura criou a ansiedade que é o medo de chegarmos ao final da vida sem termos “sido” ou “feito” algo importante que nos traga a riqueza material e o respeito dos demais, que ficaram para trás na corrida e na luta pela sobrevivência. Por fim, apenas “sobrevivemos” baseados no fazer e no ser. Mas o que é esse “ser”? Refiro-me às identidades e personagens que criamos para nos adaptarmos ao meio e conseguirmos sobreviver e sermos aceitos pelos demais. Isso é sobrevivência, até mesmo uma simples bactéria ou inseto também sobrevive sem tanto sofrimento. Evidente que sobreviver é importante, mas isso nos traz alguma realização interior? Se assim fosse, o mundo seria o que é hoje?

Mas o que está por trás e na essência de quem “faz” e “é” alguém?

Um vazio!

Na simbologia numérica o algarismo “zero” tem um profundo significado. Nada começa pelo “um”, afinal para que ele possa existir, precisará não ter tido existência anterior, onde só havia o “zero” que representa o vazio. Não é à toa, que os antigos herméticos simbolizavam Deus por um “zero”, ou vazio.

É justamente nesse vazio que tudo se origina, é o terreno fértil da criação e nossa cultura nos exilou de nossa verdadeira natureza vazia, por onde surgiu nosso “eu” ou Ego, que é representado pela nossa metade que “é” e “faz” alguma coisa. Ficamos mancos existencialmente como se só houvesse o Ego. O resultado disso é a ignorância existencial e o medo. Esse Ego, que nasceu do vazio, um dia morrerá, justamente por ter nascido, mas o vazio é o eterno que sempre fomos e esquecemos quando aprendemos com outros esquecidos que só existe um Eu, material (corpo) que vive em um mundo de aparência material, sendo transitório e efêmero tanto quanto nossa beleza ou feiúra.

Para recuperarmos nossa outra perna e termos o equilíbrio precisaremos dessa reconexão com nossa natureza que é destituída de Ego. Ninguém nos ensina a tirarmos, pelo menos, algum tempo por dia para nos despirmos de nosso Ego e não sermos “ninguém” e não fazermos “nada”.

É fundamental dedicarmos um tempo para nos voltarmos para dentro, sair do “um” e voltarmos ao “zero” que o originou. Não ser ninguém, não ter nome, profissão, família, amigos, religião, time de futebol, partido político, etc. Simplesmente não ser e não saber nada! Tornar-se um santo ignorante, que por nada saber não sofre, não deseja e não tem medo ou angústia, características do que passa, não sendo portanto verdadeiro. Apenas “não ser” sem passado e sem futuro que são puras alucinações, coisas que a eternidade desconhece, justamente por viver sempre no presente.

É um exercício simples, feche seus olhos por dez ou quinze minutos por dia, respire natural e calmamente e abra as brechas que Yogananda nos sugere para que o “milagre” de realmente Ser aconteça.

Nesse final de semana, tive a oportunidade de participar de um seminário em Florianópolis, onde Roberto Crema fez um interessante raciocínio. Disse que a palavra “aposentar” significa voltar aos aposentos e que as pessoas tem dificuldade de se aposentar porque não podem voltar a algum lugar onde nunca estiveram. Na hora fiz essa analogia com nossa natureza vazia e a frase de Pascal também se tornou obrigatória para abrir esse artigo.

Nosso medo de morrer, que em muitas tradições é chamado de “volta para casa”, só causa tanto medo e tanto desespero quando pensamos que vamos morrer ou quando alguém querido morre, justamente por não conhecermos essa “casa”, de onde saímos para essa aventura existencial habitando um corpo transitório. Falta-nos, durante essa passagem, nos re-conectarmos com nossa “casa” e lembrarmo-nos de nossa eternidade. Sem isso, continuaremos presos e receosos de tudo, buscando certezas e seguranças que só existem no que não mais evolui, no que está morto!

Alguém que por seu mérito se “recorda”, perde o medo e torna-se livre! Livre para fazer da vida o que ela realmente é: uma aventura, com ganhos, perdas, risos e lágrimas em constante mudança e contradição.

Tire um tempo para você, feche seus olhos e por alguns poucos minutos se livre dos seus personagens, títulos, planos e mesmo do seu nome. Simplesmente não seja, não faça e se preencha do vazio! Procure o silêncio interior (com o tempo você conseguirá), deixando sua mente (ego) se debater por não ter sua atenção e ela irá se cansando e abrindo espaços entre seus pensamentos.

O poeta Fernando Pessoa disse que Deus era um intervalo, um vazio que está escondido atrás da mente que, evolutivamente, nos cabe afastar. Agora espero que você tenha entendido a metáfora da expulsão do paraíso e porque fomos punidos a ganhar nosso “pão” com o suor do nosso rosto, fazendo e fazendo. Estamos pagando o preço de termos esquecidos de nós mesmos.

Nosso mundo exige o ser e o fazer e não há nada de errado nisso, desde que também  possamos não ser e não fazer, encontrando a síntese entre as necessidades do corpo e de quem nele habita.

Depois de algum tempo, essa prática desse retorno às origens, um amigo poderá encontrá-lo e percebe-lo mais sereno, tranquilo e perguntar o que você tem feito para estar assim. Seja sincero e simplesmente responda: Nada!

Agora, se não houver no seu dia alguns minutos para isso, porque você tem muitas coisas para fazer, lamento informar que passarás pela vida apenas sobrevivendo, mesmo que rico materialmente ou não, e nisso não há nenhum mérito e nem precisa ser humano para essa façanha tão pequena.

FOBIA

“A fobia específica é um medo exacerbado e persistente de objetos ou situações nitidamente discerníveis. A exposição ao objeto ou situação temida (chamada de estímulo fóbico) desencadeia uma resposta de ansiedade que pode chegar à intensidade de um ataque de pânico.”

   DSM-IV-TR  (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais)

                                                                                                                                                           medo de altura

Depois de termos falado no artigo anterior sobre a dificuldade que é perdoar, torna-se mais fácil falar do processo fóbico. O leitor pode até estar se perguntando o porquê que a dificuldade de perdoar tem a ver com fobia? Tenho certeza que até o final do presente texto isso se tornará bem mais claro.

Falar de fobia é falar de medo e, por consequência, de ansiedade. Por isso torna-se importante que possamos estabelecer essa diferença, que existe, apesar de sutil. O medo é um sentimento (emoção) de inquietação diante de um perigo real ou imaginário.

Imaginário?

Sim, já que como nosso corpo responde, através de suas reações somente ao que imaginamos, nada precisa estar ocorrendo verdadeiramente para que sintamos o medo. Já a ansiedade nada mais é do que uma sensação de apreensão sem uma causa evidente ou uma perturbação causada por alguma incerteza (insegurança).  Assim, poderemos resumidamente dizer que o medo é medo de algo e a ansiedade é esse mesmo medo, sem ser específico para alguma coisa. Nos casos das fobias essa diferença é bem mais perceptível.

Mas afinal, o que é uma fobia?

As fobias compõem um grupo de transtornos nos quais uma ansiedade intensa é desencadeada por situações determinadas e que não representam algum perigo real, já que estão sendo imaginadas. Assim, por exemplo, a pessoa que tem medo de altura não frequenta lugares altos porque, dentro dela, existe uma “certeza” de que ela irá cair. Quem tem fobia à água, imagina que se afogará e assim por diante. Dessa forma, quando imagino, meu sistema de defesa (estresse) entra em ação, já que ele acredita em tudo que passa pela nossa cabeça é real naquele momento. Assim, nem pensar de entrar na água se é “certo” que me afogarei, por exemplo. Nosso corpo luta pela vida, lembrem-se disso sempre!

Justamente por isso, estas situações fóbicas são evitadas sempre que possível ou com uma angústia tremenda quando não temos escapatória. As preocupações (pré – ocupação da mente ou imaginação) da pessoa podem se manifestar com sintomas como palpitações, sudorese, falta de ar, tremores, boca seca, extremidades frias, etc, ou uma sensação iminente de desmaio. Frequentemente este tipo de ansiedade se associa com medo de morrer, de vir a passar muito mal, de perder o autocontrole ou de ficar louco, já que nos tornarmos muito mais bichos do que humanos, afinal, nosso sistema de sobrevivência é muito parecido com os dos animais.

Geralmente a simples lembrança ou evocação da situação que causa fobia já é suficiente para desencadear uma ansiedade antecipatória, e aqui o sistema explicado no artigo anterior entra em funcionamento.  Para a medicina, a ansiedade Fóbica frequentemente se associa a uma depressão, o que, me permito, não concordar integralmente.

A diferença entre o sintoma fóbico e o Transtorno Fóbico, pode ser entendida como a diferença que se faz entre o que é sintoma e doença. A Fobia, enquanto sintoma, faz parte da alteração do pensamento, aparece como um medo imotivado e patológico, ilógico e especificamente orientado para um determinado objeto ou situação. Normalmente é acompanhada de intensa ansiedade e outros sintomas que citei anteriormente. O Transtorno Fóbico-Ansioso se caracteriza, exatamente, pela prevalência da Fobia, sintoma, entre os demais sintomas de ansiedade, ou seja, um medo anormal, desproporcional e persistente diante de um objeto ou situação específica.*

Como começa uma fobia?

Diferente de um trauma, que precisa de um acontecimento que o gere, a fobia pode surgir sem que nada precise ter acontecido anteriormente. Para uma fobia aparecer torna-se necessário que o nível de ansiedade esteja alto. Como a ansiedade é um medo inespecífico, tudo pode virar uma fobia. Assim, mesmo que uma pessoa tenha já realizado inúmeras viagens aéreas, por exemplo, em uma crise de ansiedade pode surgir um medo terrível de entrar em um avião, seja pela “certeza” de que ele cairá, seja por imaginar-se preso, sem possibilidade de sair. Lembre que sempre o medo de morrer é o pano de fundo.

Já conheci pessoas que desenvolveram processos fóbicos por histórias ou estórias que ouviram durante a infância e mesmo em idade adulta. Basta o nível de ansiedade estar elevado e você, por exemplo, assistir um programa ou ouvir um relato (não importa se verdadeiro ou falso) que se “entre” na história e se imagine passando por aquilo que pode surgir uma fobia.

Por isso, sempre que uma pessoa tem alguma fobia ou transtorno ansioso de qualquer espécie, torna-se fundamental entender o que é e como funciona a ansiedade para começar a sair do seu problema. Aprender a dominar a mente que está contaminada pelo medo e saber como trazer para si o controle é a única saída, fora isso, é estar tendo seus sintomas mascarados por medicamentos. Os medicamentos podem e devem ser utilizados quando a crise surge, até como condição da pessoa ter um mínimo de equilíbrio, para poder entender a psicoterapia. Depois, penso que ela deve querer se livrar das bengalas e voltar a andar com suas próprias pernas.

Nos artigos que escrevi sobre ansiedade, procurei demonstrar seu funcionamento, sendo as fobias um dos galhos dessa árvore. Em crise aguda de ansiedade, que chamados de transtorno de pânico (tema de um futuro artigo), a pessoa experimenta uma fobia quase generalizada, ficando, normalmente, fechada em sua casa, onde a chance de morrer é bem reduzida. Procure nunca esquecer que nosso sistema de defesa procura sobreviver a qualquer preço, mesmo que seja o da qualidade da vida.

Toda a fobia “vive” da atenção que se dá a ela e na verdadeira alucinação que acreditamos. Quem disse que o avião vai cair? Que certeza é essa que o elevador ficará preso e a pessoa morrerá sufocada? Quem disse que naquele show onde estarão muitas pessoas vai haver um corre – corre e se morrerá pisoteado?

Quando a ansiedade “passa do ponto” nosso pensamento fica contaminado pelo medo e daí qualquer coisa serve. Como é difícil da pessoa entender que o medo pode não ser específico, passa a imaginar que tudo pode acontecer de errado. Justamente por isso é que se pode ter uma fobia em relação a algo que sempre fizemos sem problema algum durante toda a vida.

Todos estamos suscetíveis a desenvolvermos um processo fóbico, basta a ansiedade sair do controle. Para que isso não aconteça, precisamos ter descanso, divertimento e saber relaxar. Sem esse “tempero” somos engolidos pelo mundo que vivemos e sua cultura doente, toda baseada no medo e não é a toa que ansiedade seja o mal do século.

Toda a pessoa que tem uma fobia vai desenvolvendo o que se chama de comportamento de esquiva, ou seja, procura fugir da situação, dando desculpas ou tomando caminhos que evitem a situação que sua imaginação dá como certa. Preferir subir muitos andares a utilizar o elevador, longas viagens de ônibus em troca do avião, não sair de casa alegando frio ou calor, etc…

Qual é a hora de procurar ajuda?

Quando perceber que sua qualidade de vida está sendo afetada. Não demore, toda a pessoa que tem sua vida limitada, com o tempo vai se entristecendo e aí sim, a depressão pode chegar. Não é a toa que em mais de 80% dos casos de depressão a ansiedade é um componente relevante.

Se você tem alguma fobia ou conhece alguém que tem, não faça pouco caso. Toda a pessoa que sofre com uma fobia está sempre em estado de alerta, com um medo constante. Estima-se que 11% das pessoas tenham algum tipo de fobia, e a prevalência é maior em mulheres.

A saída é lutar contra a imaginação e buscar diminuir o nível de ansiedade. Fora isso esse fantasma não nos abandona. Os sintomas físicos de medo e pavor quando se imagina o que pode acontecer paralisa a pessoa e depois de um determinado nível, fica-se irracional, como um bicho acuado e aí não tem bom senso que resolva.

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* site http://www.psiqweb.med.br/site/

Céu, Inferno e outros lugares

 

Livro "Céu, Inferno e Outros Lugares", de Eduardo O. Carvalho

Nessa 2a feira, dia 8 de abril, a partir das 19hs na Biblioteca Pública de Jaraguá do Sul, será lançado o livro “Céu, inferno e outros lugares”. O livro é o resultado de um trabalho de 18 meses de textos publicados nesse blog. Depois de selecionados, todos os textos foram, de alguma forma, reescritos com o objetivo enquadrá-los no formato de livro e, é claro, foram atualizados, respeitando as mudanças que o tempo saudavelmente trás. Além, é claro, de textos inéditos que só estarão no livro.

 A finalidade é levar essas ideias, conceitos e forma de ver os vários aspectos que mais nos inquietam e trazem reflexão sobre o sentido, mistério e diversidade dos problemas humanos à pessoas que por eles se interessem. Não é intenção do livro trazer respostas definitivas a nenhuma dessas questões que movem o pensamento e imaginação do homem durante a vida, mas falar deles, baseado em estudo de diversas abordagens e, principalmente, na prática do dia a dia no consultório, onde tenho acompanhado as pessoas superarem suas questões e darem novo sentido em suas vidas.

Buscando uma linguagem coloquial, em tom de conversa, procuro tratar essas questões  de forma direta, provocando questionamentos que levem ao autoconhecimento, finalidade última de toda a abordagem evolutiva. Cada pessoa é única, não só na sua biologia, mas, principalmente, na sua experiência e sensibilidade. Por não acreditar em fórmulas mágicas que resolvam o problema de todos indistintamente, sempre entendo que toda a terapia é individual. Infelizmente, a psicologia tradicional estuda e enquadra no normal um ser humano condicionado que nunca foi instigado a buscar sua evolução, mas só a “fazer parte”. Conhecer-se é libertar-se! E essa é a linha mestra que percorre cada um dos 62 textos que compõe o livro. São tantos assuntos, uns mais específicos e outros mais reflexivos que podem ser lidos fora de qualquer ordem. Os leitores notarão que alguns conceitos são tratados em vários artigos e isso tem uma finalidade: fixar essas ideias que entendo serem a base da busca interior: conhecer como funciona esse corpo (mente) que habitamos e que, necessariamente, não nos explica totalmente.

Céu, Inferno e outros lugares, é um livro que tem apenas uma intenção: ser útil, trazer reflexões, perguntas novas e respostas muitas vezes pouco convencionais, mas que já se tornaram verdadeiras para muitas pessoas e que podem ser adaptadas a realidade de cada um.

A partir de amanhã ele estará ganhando vida própria, saindo dos domínios desse autor, percorrendo seu próprio destino.

Que assim seja!

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*Para os interessados que não moram em Jaraguá do Sul, onde estará disponível na livraria Grafipel, o livro poderá ser encontrado on line, nas Livrarias Curitiba ou mesmo nesse blog em uma janela especial que estará disponível, para que quiser receber o livro autografado.