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A BUSCA DO HEROÍSMO

“O instinto comum da humanidade pela realidade sempre achou que o mundo era, essencialmente, um palco para o heroísmo.”

Willian James

Nelson Mandela

Nelson Mandela

Diferente, ou nem tanto, dos animais que buscam sua supremacia sobre os demais membros, o ser humano necessita buscar se destacar pelo heroísmo, ou seja, vencer-se de alguma forma e com isso, metaforicamente, buscar sua eternidade.

Esse conceito de heroísmo tem sua raiz contemporânea na ideia de narcisismo de Freud que, resumidamente, defendia que estamos sempre e perdidamente absortos em nós mesmos, negando a evidência da morte, pensando que isso só acontecerá com os outros. Não tenho nenhuma dúvida que essa percepção faz parte de nossa natureza animal. O narcisismo, inevitavelmente ligado à autoestima, é o que nos dá segurança em nosso amor próprio.

Quando na primeira infância, até os cinco anos em média, antes da formação completa do ego, observe que a criança não tem nenhuma vergonha de clamar em voz alta o que mais precisa, sem as avaliações de se preocupar se o que ela está querendo é certo ou errado. Isso passa a acontecer posteriormente, onde encobriremos nossos desejos e egoísmo atrás de um “personagem” que buscará, além de se sobressair, o carinho e respeito dos demais.

É da nossa natureza buscar nos destacarmos, de sermos algo na criação, como diz com propriedade Ernest Becker*, dando como exemplo as disputas entre irmãos para terem as vantagens e mais atenção dos pais. Brigam no mínimo reclamando que o irmão ganhou mais ou foi privilegiado. É como se precisássemos desde o primeiro momento nos tornar melhores, especiais.

Na idade adulta, seguindo a receita pronta do paradigma vigente, buscamos através de conquistas materiais e acúmulo de valores, muito mais do que atingir uma “felicidade”, queremos demonstrar nosso heroísmo de ter “vencido” a grande maioria das pessoas sendo mais rica ou mais poderosa que elas. E esse é o conceito do grande herói; é mais capaz e tem mais poderes que os demais. Nunca esqueça que o homem é um bicho simbólico e a sociedade, por consequência, um sistema de ação regido por símbolos, uma estrutura de condições sociais e de papéis, de costumes e regras de comportamento, destinada a servir de veículo para o heroísmo dos seres terrestres, como afirma Becker.

Analisando esse aspecto, como fica fácil entendermos as “vocações” heroicas, as profissões que se destinam a salvar vidas, onde quem morre em serviço tem as honras dadas aqueles que entregam suas vidas pelo bem dos demais. É raro quem toma para si um ato de entregar a própria vida se, para ele, se isso não representar um heroísmo, um feito que resistirá ao tempo e será lembrado para sempre na boca dos homens. Isso é imortalidade! Isso é vencer a morte!

 Portanto, isso faz parte da natureza humana e é por isso que uma criança sempre dirá que será um bombeiro, policial, jogador de futebol ou médico “quando crescer”, ou seja, desejamos a admiração e o poder de “salvar” as pessoas! Observe, que desde tenra idade, o terror da morte, de sermos aniquilados para sempre já está enraizado em nossas profundezas. Isso nos empurra para, pelo menos, uma saída simbólica para minimizarmos nossa angústia essencial e nunca mais sermos esquecidos. Ainda não vi nenhuma criança dizendo que será administrador, economista, comerciante ou empresário.  Pena que Freud tenha chegado a essa conclusão no final de sua vida!

Essa busca de reconhecimento, chamado de “sucesso” é que move as pessoas a buscarem a qualquer custo ser admirado pelos outros, já que, de outro lado, a grande massa precisa de seus ídolos para, vivendo suas vidas nos filmes e novelas, encontrar algum sossego do seu sofrimento diário por terem abandonado suas próprias buscas heroicas e se entregarem a uma vida sem sentido, vagando no dia a dia rotineiro. Esse sobreviver do “vou indo” é uma migalha para essa maioria que, simbolicamente, já morreu. A saída é no sofrimento dos “vilões” justiçados pelos heróis perfeitos, no grito de “gol” onde nossos ídolos nos redimem e nos ajudam a esquecer por breves momentos que tudo que fazemos é, pela cultura cristã ocidental, esperarmos nosso juízo final e termos nossa “vida eterna” sem sobressaltos, garantida pelo nosso bom comportamento no rebanho terrestre. Não é por acaso que muitos dos heróis divinos como Osíris e Cristo, por exemplo, ressuscitaram dos mortos. Todas as religiões e algumas que se vestem como “filosofias” se dedicam, essencialmente, a como suportar o fim da vida sem heroísmo e do que acontecerá depois. Algumas delas nos prometendo novas oportunidades e outras dizendo que se a felicidade não for atingida, nosso sofrimento nos purificará. Em qualquer uma dessas escolhas podemos ficar acomodados, perceberam?

Quando o destaque não vem, quando o heroísmo não acontece, ainda assim tentamos sobreviver a nós mesmos escrevendo nosso nome, data de nascimento e morte em uma pedra com o objetivo de vencer o tempo e o esquecimento. Esquecemos que nossa natureza animal já se encarrega dessa sobrevivência simbólica nos genes que passamos a nossos filhos. Deve ser por isso que se olhe com alguma estranheza a pessoa que decide não ter filhos, e mesmo os que assim escolhem se sentem estranhos. Seria, simbolicamente não querer “continuar” nesse mundo?

Saindo do conceito simbólico em direção à vida prática, podemos cumprir nossa jornada heroica quando nos arriscamos em busca de evolução, de felicidade. Quando decidimos abandonar o que já não nos preenche em busca de nossa vocação, de vivermos quem somos, ouvindo nossa vontade, estamos nos tornando heróis! E isso sempre é muito difícil, já que nossa natureza primitiva adora a acomodação, o conhecido.

Justamente por isso, observo muitas pessoas esperarem anos para empreenderem sua “jornada”; fazem de um longo tempo de sofrimento o pagamento por abandonarem o conhecido, a opinião dos demais e rumarem evolutivamente para a emoção de se estar vivo!

Toda a pessoa que está feliz tem um ato de heroísmo pessoal para contar; seja o quanto se arriscou, do medo da mudança que superou ou do desespero de se sentir completamente só em sua ideia, como se fosse um louco (a).

Não há necessidade de ser reconhecido pela mídia, de se tornar famoso ou admirado. No fim, faz sentido a natureza humana nos empurrar para o comum, nos acomodar no medo de mudar e de buscarmos uma segurança doentia, afinal assim poderemos sobreviver mais tempo! Isso precisa ser assim para que possamos evoluir. A busca desse encontro consigo mesmo não é do bicho homem, mas de quem o habita, não é do imanente mas do transcendente!

Todo o herói que empreende sua jornada precisa de uma causa, algo que o faça vencer todos os perigos e retornar aos seus, ressuscitado pelo seu ato. Nelson Mandela, um dos heróis contemporâneos, disse certa vez que temos um medo natural de assumirmos nossa grandeza.

Tudo fará sentido se vencermos a nós mesmos, mas nunca se esqueça de que esse medo não é “seu”, mas do “bicho” onde sua consciência reside! Superar esse obstáculo é o que, por fim, nos tornará Humanos!

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* “A negação da morte” – Ernest Becker, ed. Record

Recomendo a leitura dos artigos anteriores “A dificuldade de mudar“, “Paradigmas“, “Os quatro pilares da realização“, “O Sentido da Vida“, “E agora?“, que ilustram e ampliam o tema desse artigo.

Sacrifício e Felicidade

 

Esse vídeo é uma parte da entrevista de Joseph Campbell  intitulada “O poder do mito” e considero fundamental para quem se interessa por mitologia. Campbell, com seus estudos profundos, busca através do entendimento dos símbolos nos transmitir uma sabedoria que, se assimilada, mudaria em muito a maneira que vivemos, Esse trecho tem a duração de 1 hora e tem muita informação e reflexão de primeiríssima!

Espero que o caro leitor (a) aproveite! Se preferir o documentário completo, também está disponível, mas acho que não por muito tempo…

 

Imagem de Amostra do You Tube

A SOLIDÃO

 

 

“Se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, essa atitude negativa pode acabar em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se ela ainda fosse capaz de guiar para algum atalho promissor. Mas ela está presa a um beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento pode arrancá-la.”

                                                            C.G. Jung

 

Há quem diga que a solidão é uma arte esquecida.

O temor de se estar só pode ser visto de algumas formas; uma delas poderia ser o medo de estar ou sentir-se abandonado, o que poderia significar que as pessoas não gostam da nossa companhia, que somos inadequados ou esquisitos. Outra opção pode ter a ver com a ideia de que não nascemos para vivermos em solidão, por sermos animais “sociais”. Quantas pessoas, em momentos de raiva, lançam maldições como essa: “seu destino é ser solitário, ninguém consegue conviver com você!”.

Uma terceira alternativa pode representar o fato de não sermos compreendidos pelos demais, o que nos afastaria do convívio pelo simples fato de falarmos um “outro idioma”, ininteligível pelos outros. Existem tantas outras, mas a chance de se chegar ao autoconhecimento sem passar pela boa convivência consigo mesmo é quase nula.

É interessante observar como em nossos dias tem aumentado o número de pessoas que procuram atividades como retiros, por exemplo, onde faz parte dessa prática muitas horas de solidão e silêncio. Mesmo nos momentos mais angustiados e difíceis de nossas vidas, clamamos para fugirmos ou nos transportarmos para algum lugar, longe de tudo ou de todos, onde possamos encontrar paz. Chega-se ao ponto de, nos momentos de grande tensão, dizermos que precisamos ficar sós, para podermos chegar a alguma espécie de acordo interno sobre a situação que nos aflige. Ficar só, portanto, é bom e saudável, mas sem exageros como manda a receita do “caminho do meio”.

Somos cobrados de alguma forma se queremos ficar sozinhos. Estar só pode significar que nossas companhias não estejam nos fazendo bem, nos trazendo sofrimento, ou até mesmo nos atrapalhando de alguma forma. Nos relacionamentos afetivos, por exemplo, na época da paixão, fundimos nosso “eu” na outra pessoa e só pensamos no “nós”. Passado algum tempo, nosso “eu” volta a clamar por atenção, o que é mais do que normal. Nessa hora, por ignorância, alguns chegam a pensar que não estão gostando mais tanto do seu companheiro(a). O que ocorre, é que estamos voltando ao normal, e a relação saudável passa a se estabelecer em cima de dois “eus” saudáveis e não mais em cima de um “nós” patológico que sufoca a expressão da individualidade.

Nada é mais pessoal e individual que a solidão. Pode até parecer redundante, mas se pensarmos bem, se chega à conclusão que muitas vezes já nos sentimos sozinhos mesmo com pessoas a nossa volta, muitas delas muito chegadas. A solidão que sentimos quando estamos com os outros é completamente diferente da experiência individual. Posso até afirmar que a solidão “acompanhada” é mais dolorosa, justamente por sentirmos isso próximo a pessoas onde esse sentimento não poderia estar acontecendo. Em um artigo intitulado “ego e arquétipo”, Edward Edinger mostra que o significado da palavra “solitário”, no grego original significa “solteiro” ou “unificado”. Como curiosidade ele cita trecho do Evangelho Gnóstico de Tomás: “..Eu (Jesus) digo isto: quando (uma pessoa) se encontra solitária, estará cheia de luz; mas enquanto se encontra dividida estará cheia de trevas.

 Evidente que essa unificação, que nada mais é do que o autoconhecimento, tem como preço o sofrimento, solidão e culpa. Essa culpa vem justamente do paradigma que diz que só estamos completos ou certos, em meio a outras pessoas. A base desse pensamento errôneo é que não estamos inteiros ou completos por nós mesmos, só com alguém ao nosso lado poderemos nos sentir bem e aceitos por todos. Não tem como esquecer o clamor de Sallie Nichols que, ao falar do arquétipo do Eremita (solitário) diz: “Teremos, acaso, aberrado tanto nosso âmago interior de ser, que só existimos em relação aos outros”?

Sem o tempo para si, nossas projeções em relação às outras pessoas e delas sobre nós, vão aos poucos nos afastando de nossa identidade essencial, nos levando a uma infinidade de concessões para estarmos no grupo, querido e respeitado pelos demais.

Sempre digo a meus clientes que a condição básica de bom relacionamento com outras pessoas é um ótimo relacionamento intrapessoal, ou seja, conviver bem consigo e em solidão. É justamente nos momentos que estamos sós que conseguimos avaliar com mais clareza e calma nossos relacionamentos, o que realmente gostamos e queremos para nossa vida, juntando com entendimento nossos “cacos”.

Porém isso precisa ser equilibrado, já que o extremo de não se conseguir estar com os demais, tendo na solidão uma fuga ou solução para relacionamentos frustrados e mal-resolvidos, está longe de ser saudável. A base de tudo é o ponto central entre estar-se bem só e com os demais.

Quando esse ponto é atingido, não se precisa estar longe das pessoas e de todo o caos reinante, já que no silêncio encontramos nosso cosmos, nossa ordem. Ensina-nos a filosofia Zen que no momento que se atinge a auto-percepção, aceitamos a própria vida, por mais simples que seja, cumprindo nossas tarefas, fazendo o que gostamos e administrando muito bem o que fazemos sem gostar tanto assim.

Difícil? Nem tanto, basta querer, fazendo o necessário para chegar lá!

É evidente que quando uma pessoa consegue esse autoconhecimento ela será mesmo uma solitária, já que toda a multidão que a rodeia continua vagando às cegas pelo mundo, comandada por princípios e normas que não só não escolheu, mas que nem pensa sobre eles. Será um solitário blindado por uma identidade completa, em harmonia interior e exterior.

Tirar momentos para si para se “curtir”, fazendo o que gosta no seu ritmo de tempo, saindo da “massa”, se permitindo ser quem se É em total descompromisso. Essa é uma receita para se por em prática e o resultado será um equilíbrio maior, mais tranquilidade e paz interior; precisa mais do que isso?

Curiosamente, nas etapas da evolução, o Eremita, ou aquele que busca a solidão para encontrar a verdade interior, aparece depois do domínio das forças antagônicas interiores (O Carro) e da justiça em relação a si mesmo e aos demais (Justiça). Logo depois desse retiro voluntário vem a mudança inevitável representada pelo arcano da Roda da Fortuna, mostrando a mudança do caminho na existência de quem se arriscou a buscar-se.

Carl Jung dizia que se fugirmos ao chamado dessa introversão, essencial ao nosso desenvolvimento, poderemos encontrar o isolamento forçado de uma moléstia física ou mental. Precisamos partir e voltar, aprendendo a transitar bem entre esse dois mundos: o interno e o externo.

De alguma forma, penso que esse encontro com nossa verdadeira identidade pode representar, porque não, a “jornada do herói” de Campbell. Sairmos sozinhos, vencermos as dificuldades, o medo da solidão, enfrentando nossos “monstros interiores” para voltarmos mais fortes, como heróis de nós mesmos.

Alguns poucos dias por ano, algumas horas por semana, um tempinho todo dia para estar em harmonia, consciente e verdadeiramente lúcido… Lembre que isso não deve ser algo a ser conquistado, mas é o primeiro passo para qualquer verdadeira conquista!

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Como podem observar, nesse artigo não tem uma imagem ilustrativa, já que encontrei enorme dificuldade de achar uma onde alguém estivesse solitário e feliz. Isso mostra o paradigma citado acima. Fica então essa bela frase de Fernando Pessoa, que vale por mil imagens.